Quem tem muitos comensais e poucos bens traz muitas oferendas de paz e poucas oferendas de ascensão. Quem tem muitos bens e poucos comensais traz muitas oferendas de ascensão e poucas oferendas de paz. Se ambos são poucos, sobre isso foi dito: uma moeda de prata e duas moedas de prata. Se ambos são muitos, sobre isso foi dito: cada um segundo o presente de sua mão, conforme a bênção que o Senhor teu Deus te deu. — Como a oferenda de paz da chagigá é comida por toda a família, quem tem muitas bocas para alimentar mas poucos recursos deve priorizar trazer mais oferendas de paz, que rendem mais carne para a mesa, e reduzir a de ascensão, que é toda consumida no altar sem proveito para os comensais. Quem, ao contrário, tem fartura de bens mas poucos comensais, não precisa de tanta carne para comer, e por isso pode investir mais na oferenda de ascensão, que expressa sua devoção sem depender do número de pessoas à mesa. Quando ambos — bens e comensais — são poucos, aplica-se o piso mínimo fixado por Beit Hilel na mishná anterior; quando ambos são muitos, não há limite algum, e cada pessoa traz segundo sua real capacidade, conforme a bênção que recebeu.
A mishná cita este versículo diretamente como a fonte para quem tem fartura de bens e de comensais: nesse caso, não há limite fixo, e o valor das oferendas deve refletir a real prosperidade recebida de Deus. Esse mesmo versículo, lido em conjunto com o valor mínimo de Beit Hilel visto na mishná anterior, forma os dois extremos do sistema: um piso para quem tem pouco, garantindo que ninguém venha de mãos vazias, e a ausência de teto para quem tem muito, para que a oferenda expresse verdadeira gratidão proporcional à bênção recebida.
Rambam remete o leitor aos princípios já explicados nas mishnayot anteriores, que aqui apenas se aplicam de forma combinada.
Bartenura explica a lógica prática por trás da proporção entre oferendas de paz e de ascensão.
Rambam remete o leitor às explicações já dadas: como a oferenda de paz serve tanto à obrigação da chagigá quanto à alegria da mesa, ela é priorizada por quem tem muitas bocas para alimentar, enquanto a oferenda de ascensão, que não gera alimento algum para os comensais, fica reservada a quem tem recursos de sobra mas poucos para alimentar.
Bartenura esclarece que “muitos comensais” significa muitos membros na própria casa, e que a razão de trazer mais oferendas de paz nesse caso é simplesmente prática: quanto mais bocas para alimentar, mais carne de chagigá é necessária para que todos participem da refeição festiva com fartura — daí a prioridade sobre a oferenda de ascensão, que não serve de alimento a ninguém além do próprio altar.
Rashi confirma a mesma lógica de Bartenura: quem tem muitos na própria casa deve trazer mais oferendas de paz para alimentá-los, deixando a oferenda de ascensão reduzida ao mínimo. Já para quem tem bens de sobra, Rashi liga diretamente a possibilidade de multiplicar as oferendas de ascensão ao versículo “cada um segundo o presente de sua mão”, que permite oferecer segundo a real generosidade de cada um, sem limite superior algum.