Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Alef · Mishná 7 de 8

O verdadeiro sentido do que não pode ser corrigido

אֵיזֶהוּ מְעֻוָּת שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לִתְקֹן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Retomando o versículo de Kohelet citado na mishná anterior, dois sábios propõem interpretações diferentes de qual falta é verdadeiramente irreparável, distinguindo-a de outras faltas graves que, apesar de tudo, ainda admitem correção.

Rabi Shimon ben Menasya diz: o que é torto que não pode ser endireitado? Aquele que se relaciona com uma relação proibida e dela gera um mamzer. Pois se disseres tratar-se de quem furta ou rouba, este pode devolver o roubado e se corrigir. Rabi Shimon ben Yochai diz: não se chama torto senão aquilo que era reto no início e se tornou torto — e quem é esse? O erudito que se afasta da Torá.Rabi Shimon ben Menasya propõe que a verdadeira irreparabilidade do versículo de Kohelet se refere a quem tem uma relação proibida da qual nasce um mamzer: essa criança carrega para sempre o estigma de sua origem, um dano que nenhum arrependimento posterior do pai consegue desfazer — diferentemente de quem furta ou rouba, que sempre pode devolver o que tomou e assim reparar completamente sua falta. Rabi Shimon ben Yochai discorda quanto à definição de "torto": para ele, esse termo só se aplica a algo que era originalmente reto e se deformou — não a algo que nunca foi reto. Por isso, ele identifica o verdadeiro "torto" com o erudito da Torá que a abandona: alguém que já alcançou retidão através do estudo e depois se desvia dela, um tipo de queda mais grave e mais difícil de reverter do que a de quem nunca teve esse padrão elevado.

רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן מְנַסְיָא אוֹמֵר, אֵיזֶהוּ מְעֻוָּת שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לִתְקֹן, זֶה הַבָּא עַל הָעֶרְוָה וְהוֹלִיד מִמֶּנָּה מַמְזֵר. אִם תֹּאמַר בְּגוֹנֵב וְגוֹזֵל, יָכוֹל הוּא לְהַחֲזִירוֹ וִיתַקֵּן. רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי אוֹמֵר, אֵין קוֹרִין מְעֻוָּת אֶלָּא לְמִי שֶׁהָיָה מְתֻקָּן בַּתְּחִלָּה וְנִתְעַוֵּת, וְאֵיזֶה, זֶה תַּלְמִיד חָכָם הַפּוֹרֵשׁ מִן הַתּוֹרָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 23:3
לֹא־יָבֹא מַמְזֵר בִּקְהַל ה׳ גַּם דּוֹר עֲשִׂירִי לֹא־יָבֹא לוֹ בִּקְהַל ה׳
Não entrará o mamzer na assembleia do Senhor; nem mesmo sua décima geração entrará na assembleia do Senhor.

A Torá proíbe permanentemente o mamzer — filho de uma relação proibida — de se casar dentro do povo de Israel, uma restrição que se estende por gerações sem limite de tempo. É essa permanência que Rabi Shimon ben Menasya identifica como o exemplo perfeito do “torto que não pode ser endireitado”. Diferentemente de um dano material, que sempre pode ser desfeito com a devolução do que foi tomado, o status de mamzer acompanha a pessoa e sua descendência para sempre, sem que exista mecanismo algum de reparação — daí sua escolha como ilustração central do versículo de Kohelet discutido na mishná anterior.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam apenas remete o leitor a esta mishná e à seguinte, tratando-as em conjunto por formarem uma única unidade temática.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 1:7
רבי שמעון בן מנסיא אומר איזהו מעוות וכו׳: היתר נדרים פורחין באויר ואין להם על מה שיסמכו וכו׳: אמרו הן הן אינו ספור לזרז אבל הוא מחוסר וי״ו הדיבוק ושיעורו הן והן גופי תורה רוצה לומר המצות הבאות בהן.
Rambam trata esta mishná e a seguinte (1:8) como uma unidade só, focando seu comentário principal na expressão final “estes e estes são os corpos essenciais da Torá” — explicando que a frase, gramaticalmente reduzida, deve ser lida como “estes E estes”, incluindo tanto as leis bem fundamentadas no texto quanto as que dependem de pouca alusão bíblica, todas igualmente centrais ao corpo da Torá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o motivo por trás de cada posição; Rashi, na Guemará, define os termos centrais da disputa.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 1:7
רבי שמעון בן מנסיא אומר איזהו מעוות שאינו יכול לתקן: זה הבא על הערוה והוליד ממנה ממזר.

Rambam concentra-se em confirmar a posição de Rabi Shimon ben Menasya como a leitura central da mishná, sem entrar em maior detalhe sobre a posição alternativa de Rabi Shimon ben Yochai, que trata como uma opinião adicional dentro do mesmo debate.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 1:7
והוליד ממנה ממזר. שהביא פסולים בישראל והן לו לזכרון, לפיכך אין עונו נמחק בתשובה. יכול הוא שיחזיר. דמי גניבתו וגזלתו לבעלים ויהא מתוקן מן החטא.

Bartenura explica por que o mamzer é irreparável de um jeito que o roubo não é: o pai trouxe ao povo de Israel uma pessoa desqualificada para o casamento, e essa realidade permanece como lembrança viva de seu pecado, sem que nenhum arrependimento a apague. Já quem furta ou rouba pode devolver o valor exato do que tomou aos donos originais, tornando-se assim plenamente corrigido diante da lei.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 9a
והוליד ממזר - שהביא פסולין בישראל ויהא זכרון לפיכך אין עונותיו נמחקין בתשובה. יכול להחזיר - דמי גניבתו וגזלתו לבעלים. ויתקן - ויהא מתוקן מן החטא.

Rashi confirma a mesma lógica de Bartenura, com quase as mesmas palavras: o mamzer permanece como lembrança permanente e desqualificada dentro do povo, e por isso o arrependimento do pai não consegue apagar essa consequência — enquanto o ladrão e o assaltante sempre podem restituir o valor do que tomaram e assim reparar integralmente sua falta.