Rabi Shimon ben Menasya diz: o que é torto que não pode ser endireitado? Aquele que se relaciona com uma relação proibida e dela gera um mamzer. Pois se disseres tratar-se de quem furta ou rouba, este pode devolver o roubado e se corrigir. Rabi Shimon ben Yochai diz: não se chama torto senão aquilo que era reto no início e se tornou torto — e quem é esse? O erudito que se afasta da Torá. — Rabi Shimon ben Menasya propõe que a verdadeira irreparabilidade do versículo de Kohelet se refere a quem tem uma relação proibida da qual nasce um mamzer: essa criança carrega para sempre o estigma de sua origem, um dano que nenhum arrependimento posterior do pai consegue desfazer — diferentemente de quem furta ou rouba, que sempre pode devolver o que tomou e assim reparar completamente sua falta. Rabi Shimon ben Yochai discorda quanto à definição de "torto": para ele, esse termo só se aplica a algo que era originalmente reto e se deformou — não a algo que nunca foi reto. Por isso, ele identifica o verdadeiro "torto" com o erudito da Torá que a abandona: alguém que já alcançou retidão através do estudo e depois se desvia dela, um tipo de queda mais grave e mais difícil de reverter do que a de quem nunca teve esse padrão elevado.
A Torá proíbe permanentemente o mamzer — filho de uma relação proibida — de se casar dentro do povo de Israel, uma restrição que se estende por gerações sem limite de tempo. É essa permanência que Rabi Shimon ben Menasya identifica como o exemplo perfeito do “torto que não pode ser endireitado”. Diferentemente de um dano material, que sempre pode ser desfeito com a devolução do que foi tomado, o status de mamzer acompanha a pessoa e sua descendência para sempre, sem que exista mecanismo algum de reparação — daí sua escolha como ilustração central do versículo de Kohelet discutido na mishná anterior.
Rambam apenas remete o leitor a esta mishná e à seguinte, tratando-as em conjunto por formarem uma única unidade temática.
Bartenura explica o motivo por trás de cada posição; Rashi, na Guemará, define os termos centrais da disputa.
Rambam concentra-se em confirmar a posição de Rabi Shimon ben Menasya como a leitura central da mishná, sem entrar em maior detalhe sobre a posição alternativa de Rabi Shimon ben Yochai, que trata como uma opinião adicional dentro do mesmo debate.
Bartenura explica por que o mamzer é irreparável de um jeito que o roubo não é: o pai trouxe ao povo de Israel uma pessoa desqualificada para o casamento, e essa realidade permanece como lembrança viva de seu pecado, sem que nenhum arrependimento a apague. Já quem furta ou rouba pode devolver o valor exato do que tomou aos donos originais, tornando-se assim plenamente corrigido diante da lei.
Rashi confirma a mesma lógica de Bartenura, com quase as mesmas palavras: o mamzer permanece como lembrança permanente e desqualificada dentro do povo, e por isso o arrependimento do pai não consegue apagar essa consequência — enquanto o ladrão e o assaltante sempre podem restituir o valor do que tomaram e assim reparar integralmente sua falta.