Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Bet · Mishná 7 de 7 — fim do perek

As roupas de cada grupo e o midrás de umas para as outras

בִּגְדֵי עַם הָאָרֶץ מִדְרָס לַפְּרוּשִׁין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná encerra o Perek Bet com uma escala de suspeita de impureza aplicada às roupas de diferentes grupos sociais, culminando nos exemplos de dois sábios piedosos que tratavam suas próprias roupas com o mais alto grau de rigor.

As roupas do povo comum têm status de midrás para os perushin. As roupas dos perushin têm status de midrás para os que comem oferenda sacerdotal. As roupas dos que comem oferenda sacerdotal têm status de midrás para o sagrado. As roupas do sagrado têm status de midrás para a água da purificação. Iossef ben Ioézer era o mais piedoso do sacerdócio, e seu lenço tinha status de midrás para o sagrado. Iochanan ben Gudgeda comia sobre a pureza do sagrado todos os seus dias, e seu lenço tinha status de midrás para a água da purificação.A mishná fecha o capítulo com uma escala de suspeita entre roupas de grupos sucessivamente mais cuidadosos com a pureza. Quem come alimento sagrado ou trata das águas de purificação teme que suas roupas tenham entrado em contato, sem seu conhecimento, com as roupas de alguém menos cuidadoso, que talvez tenha sido tocado por sua esposa em estado de impureza menstrual — e por isso trata as roupas do grupo anterior como se tivessem o mesmo status de impureza de quem se senta sobre o leito ou assento de uma pessoa impura (midrás). Assim, as roupas do povo comum são suspeitas para os perushin, cuidadosos apenas com a pureza do alimento comum; as roupas destes são suspeitas para quem come oferenda sacerdotal; e assim sucessivamente até o sagrado e a água da purificação, o grau mais extremo de cautela. A mishná fecha com dois exemplos históricos de piedade excepcional: Iossef ben Ioézer, o mais piedoso dos sacerdotes de seu tempo, tratava seu próprio lenço com o rigor reservado ao sagrado — suspeitando até de si mesmo; e Iochanan ben Gudgeda, que comia seu alimento comum toda a vida com o mesmo cuidado do sagrado, tratava seu lenço com o rigor ainda mais extremo reservado às águas da purificação.

בִּגְדֵי עַם הָאָרֶץ מִדְרָס לַפְּרוּשִׁין. בִּגְדֵי פְרוּשִׁין מִדְרָס לְאוֹכְלֵי תְרוּמָה. בִּגְדֵי אוֹכְלֵי תְרוּמָה מִדְרָס לַקֹּדֶשׁ. בִּגְדֵי קֹדֶשׁ מִדְרָס לְחַטָּאת. יוֹסֵף בֶּן יוֹעֶזֶר הָיָה חָסִיד שֶׁבַּכְּהֻנָּה, וְהָיְתָה מִטְפַּחְתּוֹ מִדְרָס לַקֹּדֶשׁ. יוֹחָנָן בֶּן גֻּדְגְּדָא הָיָה אוֹכֵל עַל טָהֳרַת הַקֹּדֶשׁ כָּל יָמָיו, וְהָיְתָה מִטְפַּחְתּוֹ מִדְרָס לַחַטָּאת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá (Levítico) 15:4
כָּל־הַמִּשְׁכָּב אֲשֶׁר יִשְׁכַּב עָלָיו הַזָּב יִטְמָא וְכָל־הַכְּלִי אֲשֶׁר יֵשֵׁב עָלָיו יִטְמָא
Todo leito sobre o qual se deitar aquele que sofre fluxo ficará impuro; e todo utensílio sobre o qual se sentar ficará impuro.

A categoria de midrás — a impureza que se transmite a qualquer objeto sobre o qual uma pessoa em estado de impureza se senta, deita ou apoia com o peso do corpo — é definida por esses versículos em relação ao zav e, por extensão, aplica-se também à mulher em nidá. A mishná usa essa mesma categoria bíblica, originalmente restrita a leitos e assentos, para expressar uma escala de suspeita social entre roupas de grupos diferentes: como as roupas de alguém podem, sem que ele saiba, ter sido tocadas por sua esposa em nidá enquanto ela se sentava sobre elas, cada grupo mais cuidadoso trata as roupas do grupo anterior, menos cuidadoso, com o mesmo grau de suspeita de impureza que a Torá atribui ao leito e ao assento do próprio zav.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam nota que a mishná, como está formulada, omite um degrau da escala completa, e reconstrói a sequência integral em seis níveis.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 2:7
וכבר אמרו כי זו המשנה חסר ממנה מעלה אחת וכי סדר אלו המעלות כולן כן. בגדי עם הארץ מדרס לפרושים בגדי פרושים מדרס לאוכלי מעשר בגדי אוכלי מעשר מדרס לאוכלי תרומה בגדי אוכלי תרומה מדרס לקדש בגדי קדש מדרס לחטאת.
Rambam observa que a formulação da mishná, tal como transmitida, omite um degrau da escala completa, e que a sequência correta de graus é: as roupas do povo comum são midrás para os perushin; as roupas dos perushin são midrás para os que comem o segundo dízimo; as roupas destes são midrás para os que comem oferenda sacerdotal; as roupas destes são midrás para o sagrado; e as roupas do sagrado são midrás para a água da purificação — uma escala de seis graus, e não de cinco como a formulação abreviada sugere.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a mesma lacuna apontada por Rambam e detalha o motivo geral do decreto de midrás entre roupas; Rashi, na Guemará, situa os dois sábios exemplares que encerram o perek.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 2:7
תדע שחולין שנעשו על טהרת הקדש כקדש דמו לפי שכבר אמרנו בגדי קדש מדרס לחטאת ואמר בזה שהיה אוכל חולין שנעשו על טהרת הקדש מטפחתו מדרס לחטאת.

Rambam explica o exemplo de Iochanan ben Gudgeda: como as roupas de quem come alimento sagrado têm status de midrás para as águas de purificação, e a mishná diz que o lenço de Iochanan tinha exatamente esse status, isso demonstra que, para esse sábio, o alimento comum consumido com a pureza do sagrado era tratado como se fosse ele próprio sagrado — evidência de seu grau extremo de piedade pessoal, superior ao padrão exigido pela halachá comum.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 2:7
וְכָל הָנֵי מַעֲלוֹת מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים נִינְהוּ, שֶׁאָמְרוּ אֵין שְׁמִירַת טָהֳרָתָן שֶׁל אֵלּוּ חֲשׁוּבָה שְׁמִירָה אֵצֶל אֵלּוּ. וּמִתּוֹךְ שֶׁהֵן אֵצֶל אֵלּוּ כְּאִלּוּ לֹא שְׁמָרוּם, גָּזְרוּ בְּבִגְדֵיהֶם שֶׁמָּא יָשְׁבָה עֲלֵיהֶם אִשְׁתּוֹ נִדָּה.

Bartenura explica que toda essa escala de graus é de origem rabínica: os Sábios determinaram que o cuidado com a pureza mantido por um grupo não é considerado suficientemente rigoroso aos olhos de um grupo mais cuidadoso, e, precisamente por essa lacuna relativa de cuidado, decretaram suspeita sobre as roupas do grupo anterior, temendo que a esposa dele, em estado de impureza menstrual, tivesse se sentado sobre elas sem que ele percebesse.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 18b-20a
מתני׳ בגדי עם הארץ מדרס לפרושין - חוששין שמא ישבה עליהן אשתו נדה, ומחמת חסרון זהירותם בטהרה, החמירו על בגדיהם. יוסף בן יועזר היה חסיד שבכהונה - והיה מחמיר על עצמו יותר משיעור הדין.

Rashi confirma que o fundamento de cada grau da escala é a suspeita de que a esposa do grupo anterior, menos cuidadoso, tenha se sentado sobre suas roupas em estado de impureza menstrual sem que o marido notasse, o que levou os Sábios a serem mais rigorosos com essas roupas. Sobre Iossef ben Ioézer, Rashi observa que ele impunha a si mesmo, voluntariamente, um grau de rigor superior ao que a halachá exigia — sinal de sua piedade excepcional entre os sacerdotes de sua geração.