Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Guimel · Mishná 5 de 8

De Modiim para dentro e a confiança no oleiro

מִן הַמּוֹדִיעִית וְלִפְנִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná apresenta uma leniência prática relacionada especificamente aos utensílios de barro: uma fronteira geográfica em torno de Jerusalém que determina se se pode confiar no oleiro do povo comum quanto à pureza de suas peças.

De Modiim para dentro, confia-se sobre utensílios de barro. De Modiim para fora, não se confia. Como assim? O oleiro que vende as panelas: se entrou para dentro de Modiim, ele mesmo é o oleiro, elas são as panelas, e eles são os compradores, é confiável. Se saiu, não é confiável.A mishná estabelece uma fronteira geográfica de confiança: a cidade de Modiim, situada a certa distância de Jerusalém, marca o limite a partir do qual se confia no povo comum quanto à pureza dos utensílios de barro que produz e vende, pois em Jerusalém não havia fornos para queimar cerâmica, tornando impossível produzir localmente todas as peças necessárias, e os Sábios preferiram confiar nos artesãos vindos de fora a impor uma restrição impraticável para toda a população. Mas essa confiança se aplica apenas dentro dos limites precisos da situação: o oleiro precisa ter entrado, ele mesmo, com suas próprias panelas, para dentro do território demarcado por Modiim, vendendo-as diretamente aos compradores que testemunham sua entrada. Se, em algum momento, o oleiro sair de volta para fora dos limites de Modiim, mesmo que retorne depois, deixa de ser confiável quanto à pureza de suas peças, pois já não há garantia de que não tenha tido contato com impureza durante sua ausência.

מִן הַמּוֹדִיעִית וְלִפְנִים, נֶאֱמָנִין עַל כְּלֵי חֶרֶס. מִן הַמּוֹדִיעִית וְלַחוּץ, אֵין נֶאֱמָנִים. כֵּיצַד, הַקַּדָּר שֶׁהוּא מוֹכֵר הַקְּדֵרוֹת, נִכְנַס לִפְנִים מִן הַמּוֹדִיעִית, הוּא הַקַּדָּר וְהֵן הַקְּדֵרוֹת וְהֵן הַלּוֹקְחִים, נֶאֱמָן. יָצָא, אֵינוֹ נֶאֱמָן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá (Levítico) 15:12
וּכְלִי־חֶרֶשׂ אֲשֶׁר יִגַּע־בּוֹ הַזָּב יִשָּׁבֵר וְכָל־כְּלִי־עֵץ יִשָּׁטֵף בַּמָּיִם
E o utensílio de barro que tocar aquele que sofre fluxo será quebrado; e todo utensílio de madeira será lavado em água.

A Torá trata o utensílio de barro de modo único entre todos os materiais: uma vez que se torna impuro, não há purificação possível por imersão — ele deve ser quebrado. Precisamente por essa irreversibilidade, a preocupação com a pureza dos utensílios de barro é mais delicada do que a de outros materiais, que podem sempre ser purificados por imersão; e é exatamente por isso que a mishná precisa estabelecer uma regra clara de confiança geográfica em torno de Jerusalém — pois, uma vez que uma peça de barro se torna impura, ela está perdida para sempre, sem possibilidade de correção.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a lógica espacial da regra: a confiança depende do local em que o comprador vê e adquire a peça diretamente do oleiro.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 3:5
והטעם כי הבא חוץ למודיעים וקונה ונכנס רואה בעל הקדירות ומרגיש בו ולוקח מהם מה שירצה ומכניסם בידו ולפיכך נאמן אבל היוצא מן המדינה אינו רואה הקדר כי אחוריו כלפי פניו.
Rambam explica a lógica por trás da regra espacial: quem vem de fora de Modiim, compra as panelas do próprio oleiro e as carrega consigo para dentro do limite, viu com os próprios olhos de quem comprou e sabe exatamente a origem da peça, por isso é confiável. Mas quem sai de Jerusalém em direção a fora não vê mais o oleiro de frente — está de costas para ele — e não há garantia contra contato acidental com impureza durante o percurso.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o motivo prático por trás da fronteira de Modiim; Rashi, na Guemará, detalha as combinações possíveis de entrada e saída do oleiro e do comprador.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:5
וכבר זכרנו בתשיעי מפסחים כי מודיעים מקום קרוב לירושלים ועוד נבאר באיזה טעם הקילו בטהרת כלי חרס בירושלים בלבד וכל זה בע"ה אבל ת"ח נאמנים בכל מקום.

Rambam recorda que já identificou, no tratado Pessachim, a localização de Modiim como um lugar próximo de Jerusalém, e promete explicar em outro contexto o motivo dessa leniência específica sobre utensílios de barro. Ele conclui uma ressalva importante: toda essa discussão sobre confiabilidade se refere ao povo comum (am ha'aretz); os sábios (talmidei chachamim), por outro lado, são sempre confiáveis, em qualquer lugar, quanto à pureza de seus utensílios.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:5
מִן הַמּוֹדִיעִית וְלִפְנִים. מוֹדִיעִית כְּרַךְ רָחוֹק מִירוּשָׁלַיִם חֲמֵשׁ עֶשְׂרֵה מִיל... וּבִירוּשָׁלַיִם אֵין עוֹשִׂין כִּבְשׁוֹנוֹת, מִפְּנֵי הֶעָשָׁן, לֹא לְסִיד וְלֹא לִקְדֵרוֹת, לְפִיכָךְ הֶאֱמִינוּם וְלֹא גָּזְרוּ עֲלֵיהֶם.

Bartenura precisa a distância: Modiim ficava a quinze milhas de Jerusalém. Ele explica o motivo prático da leniência: como não se permitiam fornos de queima em Jerusalém, por causa da fumaça que produziriam, era impossível fabricar ali tanto cal quanto peças de cerâmica — todas precisavam vir de fora. Por isso, em vez de impor uma restrição impraticável a toda a população, os Sábios preferiram confiar nos artesãos vindos de fora, dentro dos limites geográficos estabelecidos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 26b
מתני' מן המודיעים ולפנים - מודיעים שם כרך רחוק מירושלים ט"ו מיל... פעמים כלפנים כו' קדר יוצא - מלפנים מן המודיעים ונכנס למודיעים: וחבר - בא מחוץ למודיעים ונכנס למודיעים.

Rashi elabora as diferentes combinações discutidas na Guemará: há casos em que o oleiro sai de dentro dos limites para o próprio Modiim, e casos em que o comprador cuidadoso (chaver) vem de fora do limite e entra em Modiim — cada combinação de movimento do oleiro e do comprador determina, segundo sua posição exata em relação à fronteira, se a transação é ou não considerada confiável quanto à pureza dos utensílios envolvidos.