Seder Zeraim · Massechet Chalá · Perek Guimel · Mishná 7

"Quem faz massa de trigo e de arroz, se há nela sabor de grão"

הָעוֹשֶׂה עִסָּה מִן הַחִטִּים וּמִן הָאֹרֶז, אִם יֶשׁ בָּהּ טַעַם דָּגָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná introduz um novo critério — o sabor perceptível de grão (טַעַם דָּגָן) — para decidir a obrigação de chalá em uma massa que mistura um dos cinco grãos com um cereal que não é grão, o arroz, com uma consequência adicional sobre o cumprimento da mitzvá de matzá em Pessach

Quem faz massa de trigo e de arroz (misturando farinha de um dos cinco grãos com farinha de arroz, que não é considerado grão para efeitos halachicos): se há nela sabor de grão (se o trigo é perceptível ao paladar, ainda que em menor quantidade), é obrigada em chalá (a presença perceptível do grão qualifica a massa inteira), e uma pessoa cumpre com ela sua obrigação na Páscoa (pode usá-la como matzá para a mitzvá do Seder). Mas se não há nela sabor de grão (a proporção de trigo é tão pequena que seu sabor não se percebe mais), não é obrigada em chalá, e uma pessoa não cumpre com ela sua obrigação na Páscoa (pois, sem sabor perceptível de grão, a massa é tratada, para ambos os efeitos, como se fosse inteiramente de arroz).

הָעוֹשֶׂה עִסָּה מִן הַחִטִּים וּמִן הָאֹרֶז, אִם יֶשׁ בָּהּ טַעַם דָּגָן, חַיֶּבֶת בַּחַלָּה, וְיוֹצֵא בָהּ אָדָם יְדֵי חוֹבָתוֹ בְּפֶסַח. וְאִם אֵין בָּהּ טַעַם דָּגָן, אֵינָהּ חַיֶּבֶת בַּחַלָּה, וְאֵין אָדָם יוֹצֵא בָהּ יְדֵי חוֹבָתוֹ בְּפֶסַח:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A chalá obriga apenas "o pão da terra" feito dos cinco grãos mencionados na tradição; o arroz, não sendo um desses grãos, é, por si só, isento — mas a mistura levanta a questão de saber se a presença do grão verdadeiro é suficiente para qualificar a massa inteira.

Bemidbar (Números) 15:19 e Devarim (Deuteronômio) 16:3
וְהָיָה בַּאֲכָלְכֶם מִלֶּחֶם הָאָרֶץ תָּרִימוּ תְרוּמָה לַיהוָה. שִׁבְעַת יָמִים תֹּאכַל עָלָיו מַצּוֹת לֶחֶם עֹנִי.
"E será que, ao comerdes do pão da terra, separareis uma oferta ao Eterno" (Bemidbar 15:19); "Sete dias comerás sobre ele pães ázimos, pão da aflição" (Devarim 16:3) — ambas as mitzvot, a de chalá e a de comer matzá em Pessach, dependem da definição de "pão", que a tradição restringe aos cinco grãos: trigo, cevada, espelta, aveia e centeio. O arroz não é um desses cinco grãos, mas quando misturado a um deles em proporção suficiente para deixar seu sabor perceptível, a massa resultante volta a ser halachicamente reconhecida como "pão" para ambos os efeitos.

Por que o mesmo critério do sabor rege tanto a chalá quanto a matzá de Pessach? Porque ambas as mitzvot dependem da mesma definição substantiva: o que conta como "pão" feito de grão. O critério do "sabor de grão" (טַעַם דָּגָן) funciona como um teste prático de identidade — se o paladar ainda reconhece a presença do trigo dentro da mistura com arroz, a Torá trata a massa inteira como pão de grão, sujeita à chalá e apta para a mitzvá de matzá; se o trigo se dissolveu a ponto de não deixar traço perceptível, a massa perde essa identidade e passa a ser tratada, para as duas mitzvot, como se fosse pura massa de arroz — que nunca esteve, isoladamente, sujeita a nenhuma delas.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, em Hilchot Bikurim 6:2, fixa a regra de que apenas os cinco grãos obrigam em chalá, excluindo o arroz e as leguminosas; e em 6:11, aplica precisamente o critério do "sabor de grão" ao caso desta mishná.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Bikurim 6:2
אֵין חַיָּבִין בְּחַלָּה אֶלָּא חֲמִשָּׁה מִינֵי תְבוּאָה בִּלְבַד, וְהֵם הַחִטִּין וְהַשְּׂעוֹרִים וְהַכֻּסְּמִין וְשִׁבֹּלֶת שׁוּעָל וְהַשִּׁיפוֹן... אֲבָל הָעוֹשֶׂה פַּת אֹרֶז אוֹ דֹּחַן וְכַיּוֹצֵא בָּהֶן מִן הַקִּטְנִיּוֹת אֵינָן חַיָּבִין בְּחַלָּה כְּלָל:
"Não são obrigados em chalá senão os cinco tipos de cereal: o trigo, a cevada, a espelta, a aveia e o centeio [...] mas quem faz pão de arroz ou milho-painço e semelhantes, dentre as leguminosas, não são obrigados em chalá de forma alguma" (o Rambam confirma que o arroz, isoladamente, jamais obrigaria em chalá — a mishná trata precisamente do caso de mistura, que a regra pura não contempla).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Bikurim 6:11
הַמְעָרֵב קֶמַח חִטִּין וְקֶמַח אֹרֶז וְעָשָׂה מֵהֶן עִסָּה, אִם יֵשׁ בָּהּ טַעַם דָּגָן חַיֶּבֶת בְּחַלָּה, וְאִם לָאו פְּטוּרָה.
"Quem mistura farinha de trigo com farinha de arroz e faz deles uma massa: se há nela sabor de grão, é obrigada em chalá; e se não, é isenta" (reprodução quase literal da regra desta mishná, confirmando o critério do sabor como decisivo).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chalá 3:7
כְּבָר קָדַם לָנוּ כִּי הַחַלָּה אֵינָהּ חַיֶּבֶת אֶלָּא מֵחֲמֵשֶׁת הַמִּינִים, וּכְמוֹ כֵן אֵין אָדָם יוֹצֵא יְדֵי חוֹבָתוֹ בְּפֶסַח אֶלָּא בַּחֲמֵשֶׁת הַמִּינִים, וְאֵין הָאֹרֶז מִכְּלָלָם.

Já nos precedeu [o ensino] de que a chalá não obriga senão a partir dos cinco tipos de grão, e da mesma forma, uma pessoa não cumpre sua obrigação na Páscoa senão com os cinco tipos de grão — e o arroz não está entre eles (o Rambam remete o leitor ao princípio já estabelecido, explicando por que a presença ou ausência de sabor de grão é o único fator que pode alterar o status de uma massa de arroz).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chalá 3:7
אֹרֶז. לָאו מִין דָּגָן הוּא, וְכָל שֶׁאֵינוֹ מִין דָּגָן פָּטוּר מִן הַחַלָּה, וְאֵין אָדָם יוֹצֵא בּוֹ יְדֵי חוֹבָתוֹ בְּפֶסַח: אִם יֶשׁ בָּהּ טַעַם דָּגָן חַיָּב בַּחַלָּה. וְאַף עַל גַּב דְּאֵין בַּדָּגָן כְּשִׁעוּר חַלָּה.

"Arroz": não é espécie de grão, e tudo que não é espécie de grão é isento de chalá, e uma pessoa não cumpre com ele sua obrigação em Pessach. "Se há nela sabor de grão, é obrigada em chalá": e isso mesmo que não haja, no próprio grão contido na mistura, a medida mínima que por si só obrigaria em chalá (basta que o sabor seja perceptível, ainda que a quantidade física do grão seja pequena).

Massechet Chalá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.