Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Hei · Mishná 9 de 9

A moeda de prata semanal e o trabalho da mãe que amamenta

נוֹתֵן לָהּ מָעָה כֶסֶף לְצָרְכָּהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná encerra o Perek Hei detalhando a moeda de prata semanal para despesas pessoais e a refeição conjunta da sexta à noite; o que acontece quando o marido não paga essa moeda; a quantidade exata de fiação devida por semana, que varia conforme a região; a redução da cota para a mãe que amamenta; e a regra geral final, que ajusta tudo à posição social do casal.

Ele lhe dá uma moeda de prata para suas necessidades, e ela come com ele da noite de sexta-feira à noite de sexta-feira. E se não lhe dá a moeda de prata para suas necessidades, o trabalho de suas mãos é dela. E o que ela faz para ele? O peso de cinco selaim de fiação de urdidura na Judeia, que são dez selaim na Galileia, ou o peso de dez selaim de fiação de trama na Judeia, que são vinte selaim na Galileia. E se estava amamentando, reduz-se-lhe do trabalho de suas mãos e acrescenta-se-lhe ao seu sustento. Em que caso se disse isso? No pobre de Israel; mas no abastado, tudo segundo sua honra.Além do sustento básico detalhado na mishná anterior, o marido deve dar à esposa uma pequena moeda de prata semanal para despesas pessoais menores, e refeições conjuntas semanais, da sexta à noite seguinte — um sinal de proximidade e convivência regular, mesmo quando o sustento diário é administrado por terceiros. Se ele deixa de pagar essa moeda semanal, ela é liberada da obrigação de entregar-lhe o excedente de seu trabalho, que passa a pertencer inteiramente a ela. A mishná então especifica a quantidade exata de fiação devida — que varia conforme se trata do fio de urdidura (mais difícil de fiar, por isso menor quantidade exigida) ou do fio de trama (mais fácil, por isso o dobro), e conforme a região: na Judeia, onde o sistema de pesos era diferente, os valores são a metade dos exigidos na Galileia. Se a mulher está amamentando, sua cota de trabalho é reduzida e, em compensação, seu sustento alimentar é aumentado, reconhecendo o esforço adicional da amamentação. A mishná fecha com o princípio geral que rege toda esta seção sobre sustento: todas essas quantidades mínimas aplicam-se ao israelita pobre; mas para o casal de posição social mais elevada, tudo deve se ajustar de acordo com sua honra e costume.

נוֹתֵן לָהּ מָעָה כֶסֶף לְצָרְכָּהּ, וְאוֹכֶלֶת עִמּוֹ מִלֵּילֵי שַׁבָּת לְלֵילֵי שַׁבָּת. וְאִם אֵין נוֹתֵן לָהּ מָעָה כֶסֶף לְצָרְכָּהּ, מַעֲשֵׂה יָדֶיהָ שֶׁלָּהּ. וּמַה הִיא עוֹשָׂה לוֹ, מִשְׁקַל חָמֵשׁ סְלָעִים שְׁתִי בִּיהוּדָה, שֶׁהֵן עֶשֶׂר סְלָעִים בַּגָּלִיל, אוֹ מִשְׁקַל עֶשֶׂר סְלָעִים עֵרֶב בִּיהוּדָה, שֶׁהֵן עֶשְׂרִים סְלָעִים בַּגָּלִיל. וְאִם הָיְתָה מֵנִיקָה, פּוֹחֲתִים לָהּ מִמַּעֲשֵׂה יָדֶיהָ, וּמוֹסִיפִין לָהּ עַל מְזוֹנוֹתֶיהָ. בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִים, בְּעָנִי שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל. אֲבָל בִּמְכֻבָּד, הַכֹּל לְפִי כְבוֹדוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Esta mishná final do perek fecha o ciclo aberto em 5:5 sobre a troca entre sustento e trabalho, mostrando como os sábios equilibraram cuidadosamente os dois lados dessa obrigação recíproca.

Shemot (Êxodo) 21:10
שְׁאֵרָהּ כְּסוּתָהּ וְעֹנָתָהּ לֹא יִגְרָע
Seu sustento, sua vestimenta e sua relação conjugal ele não diminuirá.

O princípio geral que fecha esta mishná — "tudo segundo sua honra" — reflete a natureza flexível das obrigações rabínicas construídas sobre a base bíblica. Os sábios fixaram valores mínimos absolutos para proteger o israelita pobre, mas deixaram claro que essas quantidades são um piso, não um teto: entre famílias de maior posição social, o sustento, a vestimenta e todos os demais direitos da esposa devem se ajustar ao padrão de vida ao qual ela está habituada — um princípio que se tornará ainda mais central nos perakim seguintes do tratado, especialmente na determinação dos alimentos devidos à viúva e aos filhos.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, resume a estrutura da obrigação e confirma que a refeição da sexta à noite é devida em qualquer caso, mesmo quando o sustento diário é entregue por meio de terceiro.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 5:9
נוֹתֵן לָהּ מָעָה כֶסֶף לְצָרְכָּהּ וְאוֹכֶלֶת עִמּוֹ מִלֵּילֵי שַׁבָּת לְלֵילֵי שַׁבָּת כוּ': יֵשׁ לוֹ לְאָדָם רְשׁוּת שֶׁלֹּא יֹאכַל עִם אִשְׁתּוֹ וְלֹא יָדוּר עִמָּהּ, אֶלָּא מַשְׁרֶה אוֹתָהּ עַל יַד שָׁלִישׁ. אֲבָל יַשְׁלִים הָעוֹנָה הַמְחֻיֶּבֶת בַּיּוֹם אוֹ בַלַּיְלָה לְפִי מַה שֶּׁהוּא רָאוּי. אֲבָל אוֹכֵל עִמָּהּ מִלֵּילֵי שַׁבָּת לְלֵילֵי שַׁבָּת עַל כָּל פָּנִים, כְּמוֹ שֶׁזָּכַר

Rambam explica que, embora o marido tenha o direito de não conviver diariamente com a esposa — sustentando-a por meio de um administrador terceiro, como visto na mishná anterior —, ele deve, em qualquer caso, cumprir com ela a oná devida no momento apropriado, e comer com ela pessoalmente na refeição da noite de sexta-feira, que marca o início do repouso semanal e da proximidade conjugal regular, independentemente de como o restante do sustento é organizado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a diferença entre o fio de urdidura e o de trama, e a razão dos pesos regionais; Rashi, sobre a Guemará, confirma os mesmos pontos com foco nos termos técnicos da fiação.

Bartenura · רע"ב
Ketubot 5:9
נוֹתֵן לָהּ מָעָה כֶסֶף. בְּכָל שַׁבָּת לְצֹרֶךְ דְּבָרִים קְטַנִּים. וְאוֹכֶלֶת עִמּוֹ לֵילֵי שַׁבָּת. אַף עַל גַּב דִּבְכָל שְׁאָר הַיָּמִים יָכוֹל לָתֵת מְזוֹנוֹתֶיהָ עַל יְדֵי שָׁלִישׁ אִם יִרְצֶה, בְּלֵיל שַׁבָּת שֶׁהוּא לֵיל עוֹנָה חַיָּב לֶאֱכֹל עִמָּהּ. שְׁתִי. קָשֶׁה לִטְווֹת כִּפְלַיִם כְּשֶׁל עֵרֶב, וּמִשְׁקָל שֶׁל יְהוּדָה כִּפְלַיִם כְּשֶׁל גָּלִיל. הַכֹּל לְפִי כְבוֹדוֹ. וּכְפִי מִנְהַג הַמְּדִינָה נַמִּי

Bartenura explica que a moeda de prata semanal serve para pequenas despesas pessoais da esposa, distintas do sustento regular. Mesmo que o marido opte por sustentá-la através de um terceiro no restante da semana, a noite de sexta-feira — que é a noite tradicional da oná — exige sua presença pessoal para a refeição conjunta. Sobre a fiação, ele explica que o fio de urdidura (o fio fixo, esticado no tear) é mais difícil de fiar do que o fio de trama (o fio que passa por cima e por baixo), por isso a quantidade exigida de urdidura é a metade da de trama; e o sistema de pesos usado na Judeia era o dobro do usado na Galileia, o que explica a diferença nos números. Por fim, ele confirma que a regra final — "tudo segundo sua honra" — também depende do costume de cada região.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 64b
וְנוֹתֵן לָהּ מָעָה כֶסֶף — לְכָל שַׁבָּת לִדְבָרִים קְטַנִּים. וְאוֹכֶלֶת עִמּוֹ לֵילֵי שַׁבָּת — שֶׁהוּא לֵיל עוֹנָה. מַעֲשֵׂה יָדֶיהָ — אוֹקֵימְנַן לְעֵיל (כתובות דף נט.) מוֹתַר מַעֲשֵׂה יָדֶיהָ. שְׁתִי — קָשֶׁה לִטְווֹתוֹ כִּפְלַיִם כְּשֶׁל עֵרֶב. מִשְׁקָל שֶׁל יְהוּדָה כִּפְלַיִם כְּשֶׁל גָּלִיל

Rashi confirma que a moeda semanal é para pequenas despesas, e que a refeição conjunta da sexta à noite se justifica por ser a noite da oná devida. Ele esclarece, remetendo à mishná 5:4, que "o trabalho de suas mãos" que passa a pertencer a ela quando o marido deixa de pagar a moeda refere-se especificamente ao excedente do trabalho — a quota além do necessário para o sustento básico, que normalmente pertenceria ao marido. E confirma que o fio de urdidura é mais trabalhoso de fiar do que o de trama, e que o sistema de pesos da Judeia equivale ao dobro do sistema usado na Galileia.