Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Vav · Mishná 4 de 7

A caixa de perfumes e o costume da região

פָּסְקָה לְהַכְנִיס לוֹ כְסָפִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua o tema do cálculo do dote na ketubá, tratando agora do caso de prata não cunhada (barras ou peças de prata, em vez de moedas), e da obrigação adicional do noivo de contribuir para uma "caixa de perfumes" da noiva — encerrando com o princípio geral de Rabán Shimon ben Gamliel de que tudo segue o costume da região.

Se ela prometeu trazer-lhe prata, um selá de prata torna-se seis dinares. O noivo aceita sobre si dez dinares para a caixa, a cada maneh. Rabán Shimon ben Gamliel diz: tudo segue o costume da região.Quando a noiva promete trazer prata em barra ou peça (não moedas já cunhadas e prontas para uso comercial imediato), aplica-se um cálculo semelhante ao do dinheiro em espécie: um selá de prata, que normalmente equivale a quatro dinares, é escrito na ketubá como valendo seis dinares — um acréscimo de um terço, seguindo a mesma lógica vista na mishná anterior para o dinheiro pronto. Além disso, o noivo se compromete a contribuir com dez dinares para cada maneh que a noiva traz, destinados a uma "caixa" de perfumes e cosméticos para o uso pessoal dela — um costume de generosidade adicional do noivo para com a noiva. A mishná fecha com o princípio de Rabán Shimon ben Gamliel, que relativiza todos esses cálculos numéricos específicos: em última instância, tudo deve seguir o costume vigente em cada região, e não uma fórmula fixa e universal.

פָּסְקָה לְהַכְנִיס לוֹ כְסָפִים, סֶלַע כֶּסֶף נַעֲשֶׂה שִׁשָּׁה דִינָרִים. הֶחָתָן מְקַבֵּל עָלָיו עֲשָׂרָה דִינָרִין לַקֻּפָּה, לְכָל מָנֶה וּמָנֶה. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, הַכֹּל כְּמִנְהַג הַמְּדִינָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Como a mishná anterior, esta mishná trata de costume comercial instituído pelos sábios para a redação da ketubá; o princípio final de Rabán Shimon ben Gamliel — seguir o costume da região — reflete um valor mais amplo presente em diversas áreas da halachá comercial.

Devarim (Deuteronômio) 24:1
וְכָתַב לָהּ סֵפֶר כְּרִיתֻת וְנָתַן בְּיָדָהּ
Ele lhe escreverá um documento de repúdio e o entregará em sua mão.

O princípio de que "tudo segue o costume da região" (hakol keminhag hamedina), trazido aqui por Rabán Shimon ben Gamliel, é uma regra recorrente na halachá comercial e reflete a ideia de que muitas obrigações financeiras entre as partes de um contrato — incluindo a ketubá — são moldadas pelas expectativas e práticas locais, e não apenas por fórmulas fixas. Isso não contradiz os cálculos numéricos detalhados nesta mishná e na anterior, que servem como referência padrão na ausência de um costume local diferente, mas reconhece que a prática comercial de cada comunidade pode legitimamente ajustar esses valores.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica a lógica por trás dos dois tipos de acréscimo (para dinheiro/prata e para bens avaliados) e confirma que a lei segue Rabán Shimon ben Gamliel quanto ao costume regional.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 6:4
פָּסְקָה לְהַכְנִיס לוֹ כְסָפִים כוּ': אָמַר, אִם הֵבִיאָה הָאִשָּׁה בַּנְּדֻנְיָא זָהָב בְּעַיִן, כּוֹתֵב לָהּ בְּתוֹסֶפֶת הַחֵצִי; וְאִם הֵבִיאָה בְּגָדִים וְתַכְשִׁיטִין וְהַדּוֹמֶה לָהֶם מִן הַחֲפָצִים, כּוֹתֵב לָהּ בְּפָחוֹת הַחֹמֶשׁ, וְטַעַם לָזֶה שֶׁהַזָּהָב בְּעַצְמוֹ יַרְוִיחַ בּוֹ וְיִתְעַסֵּק בּוֹ, וְהַבְּגָדִים וְהַתַּכְשִׁיטִין הַתּוֹעֶלֶת לְעַצְמָהּ שֶׁהִיא לוֹבֶשֶׁת אוֹתָם וּמִתְקַשֶּׁטֶת בָּהֶם... וְהֲלָכָה כְּרַשְׁבַּ"ג בְּכָל מַה שֶּׁזָּכַרְנוּ מִן הַתּוֹסֶפֶת וְהַפָּחוֹת וְזוּלָתָהּ

Rambam esclarece a lógica econômica por trás dos dois tipos de ajuste: dinheiro e ouro em espécie recebem acréscimo porque o marido pode investi-los e gerar lucro imediato; roupas e joias recebem desconto porque seu benefício é apenas o uso pessoal da esposa, sem gerar renda, e porque tradicionalmente são supervalorizadas em sua avaliação. Sobre a caixa de perfumes e o princípio final, Rambam confirma que a lei segue Rabán Shimon ben Gamliel em tudo o que foi mencionado sobre acréscimos, descontos e demais detalhes — ajustando-se, em última instância, ao costume vigente em cada região.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha o propósito da caixa de perfumes; Rashi, sobre a Guemará, confirma os mesmos pontos com foco no cálculo exato do acréscimo de prata.

Bartenura · רע"ב
Ketubot 6:4
לַקֻּפָּה. שֶׁיִּתֵּן לָהּ עֲשָׂרָה זוּז עַל כָּל מָנֶה וּמָנֶה שֶׁהִיא מְבִיאָה לוֹ, כְּדֵי לִקְנוֹת לָהּ מֵהֶם בְּשָׂמִים וְתַמְרוּקֵי הַנָּשִׁים. וְלֹא אִתְפָּרֵשׁ בְּמַתְנִיתִין אִם לְכָל שָׁבוּעַ אוֹ לְכָל חֹדֶשׁ אוֹ לְכָל שָׁנָה

Bartenura explica que a "caixa" mencionada na mishná é um fundo destinado à compra de perfumes e cosméticos para uso pessoal da noiva, proporcional ao dote que ela traz — dez dinares para cada maneh. Ele observa que a mishná não especifica a periodicidade dessa contribuição (se semanal, mensal ou anual), deixando essa questão para a discussão da Guemará. Sobre o princípio final, Bartenura confirma que, na prática, os valores específicos mencionados nesta seção do tratado servem de referência, mas cedem ao costume local vigente.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 66b
מַתְנִי' פָּסְקָה לְהַכְנִיס לוֹ כְסָפִים — שֶׁהֵן מוּכָנִים לְהִשְׂתַּכֵּר מִיָּד. סַלְעָהּ נַעֲשֶׂה — לִכְתֹּב בִּשְׁטַר הַכְּתֻבָּה בְּשִׁשָּׁה דִּינָר, יוֹתֵר שְׁלִישׁ כִּדְתְנַן לְעֵיל. לַקֻּפָּה — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ שֶׁיִּתֵּן לָהּ עֲשָׂרָה זוּז לְכָל מָנֶה וּמָנֶה שֶׁהִיא מְבִיאָה לוֹ, וְיִקְנוּ לָהּ מֵהֶם בְּשָׂמִים לִרְחֹץ בָּהֶם בְּתַמְרוּקֵי הַנָּשִׁים, שֶׁכָּךְ שִׁעֲרוּ שֶׁהָאִשָּׁה הַמְּבִיאָה לְבַעְלָהּ מָנֶה רְאוּיָה הִיא לִבְשָׂמִים שֶׁל עֲשָׂרָה זוּז

Rashi confirma que a prata trazida pela noiva, como o dinheiro em espécie, está pronta para gerar lucro imediato ao marido, e por isso recebe o mesmo acréscimo de um terço — um selá de quatro dinares é escrito na ketubá como valendo seis. Sobre a caixa, Rashi explica que os sábios calcularam que uma noiva que traz um maneh ao casamento merece, proporcionalmente, dez zuz em perfumes para seu próprio uso e higiene pessoal — um costume que reflete a preocupação da halachá com a dignidade e o bem-estar da noiva dentro do novo lar.