A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná trata de quatro casos em que a santidade do segundo dízimo, usado para comprar um bem, não se estende a partes acessórias desse bem — o couro do animal, o jarro do vinho, a casca da noz — desde que o costume do mercado seja vender o principal sem essas partes; e encerra com o caso do tamad, o vinho aguado, cuja aptidão para compra com dinheiro do dízimo depende de ele já ter fermentado
Quem compra animal doméstico (com dinheiro do segundo dízimo) para ofertas de paz, ou animal selvagem para carne de desejo (consumo comum, já que animais selvagens não servem para sacrifício), o couro sai para uso comum (não carrega a santidade do dízimo, podendo ser vendido ou usado livremente), ainda que o couro valha mais que a carne (pois o comprador tinha em mente apenas a carne, e o couro é considerado acessório). Jarras de vinho fechadas, em lugar onde o costume é vendê-las fechadas (sem cobrar separadamente pelo jarro), o jarro sai para uso comum (pois o comprador só teve em mente o vinho). Nozes e amêndoas, suas cascas saem para uso comum (pelo mesmo princípio). O tamad (vinho aguado, feito com água derramada sobre o bagaço da uva), antes de azedar, não se compra com dinheiro do dízimo; e depois de azedar, compra-se com dinheiro do dízimo (pois só então é considerado alimento próprio, e não mera água).
הַלּוֹקֵחַ בְּהֵמָה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים, אוֹ חַיָּה לִבְשַׂר תַּאֲוָה, יָצָא הָעוֹר לְחֻלִּין, אַף עַל פִּי שֶׁהָעוֹר מְרֻבֶּה עַל הַבָּשָׂר. כַּדֵּי יַיִן סְתוּמוֹת, מְקוֹם שֶׁדַּרְכָּן לִמְכֹּר סְתוּמוֹת, יָצָא קַנְקַן לְחֻלִּין. הָאֱגוֹזִים וְהַשְּׁקֵדִים, יָצְאוּ קְלִפֵּיהֶם לְחֻלִּין. הַתֶּמֶד, עַד שֶׁלֹּא הֶחְמִיץ, אֵינוֹ נִלְקָח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר. וּמִשֶּׁהֶחְמִיץ, נִלְקָח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
A base é o mesmo versículo que rege toda compra com dinheiro do segundo dízimo — o que pode ser adquirido, e em que condições o acessório de uma compra permanece fora de sua santidade.
Devarim (Deuteronômio) 14:26
וְנָתַתָּה הַכֶּסֶף בְּכֹל אֲשֶׁר תְּאַוֶּה נַפְשְׁךָ, בַּבָּקָר וּבַצֹּאן וּבַיַּיִן וּבַשֵּׁכָר וּבְכֹל אֲשֶׁר תִּשְׁאָלְךָ נַפְשֶׁךָ, וְאָכַלְתָּ שָּׁם לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, וְשָׂמַחְתָּ אַתָּה וּבֵיתֶךָ.
"E darás o dinheiro em tudo o que tua alma desejar — no gado, no rebanho, no vinho, na bebida forte, e em tudo o que tua alma pedir — e comerás ali diante do Eterno, teu D-us, e te alegrarás, tu e tua casa" (Devarim 14:26). O versículo permite converter o dízimo em dinheiro e usá-lo para comprar "gado" e "rebanho" — dos quais se derivam as ofertas de paz (shelamim) —, "vinho" e outros alimentos. A mishná examina o caso em que a compra desse alimento vem acompanhada de um invólucro ou parte acessória — o couro do animal, o jarro do vinho, a casca da noz — e estabelece que, quando o costume comercial é vender o produto principal junto com esse invólucro sem cobrança separada, o invólucro nunca foi, de fato, "comprado" com dinheiro do dízimo, e por isso não carrega sua santidade.
Por que o couro e o jarro não recebem a santidade do dízimo? A regra geral é que o dinheiro do segundo dízimo transfere sua santidade exatamente para aquilo que a pessoa teve em mente comprar — nem mais, nem menos. Quando alguém compra um animal para ofertas de paz ou carne de consumo, sua intenção está voltada para a carne; o couro, ainda que fisicamente inseparável do animal no momento da compra, não é objeto de sua vontade de aquisição, e por isso permanece fora da transação em termos de santidade — mesmo que valha mais que a própria carne. O mesmo vale para o jarro de vinho: onde o costume do mercado é vender o vinho já embalado, sem discriminar o preço do recipiente, o comprador está adquirindo apenas o conteúdo. A mishná faz depender tudo isso do costume local (מְקוֹם שֶׁדַּרְכָּן) — se em determinado lugar for costume vender separadamente, a regra se inverte, como a mishná seguinte (1:4) ensinará. Quanto ao tamad: antes de azedar, é essencialmente água com sabor de uva, e a Torá exclui água da lista de compras válidas com dinheiro do dízimo; uma vez fermentado, torna-se uma bebida genuína, equiparável ao "vinho" mencionado no versículo.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica estas leis em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 7, sobre o que pode ser adquirido com dinheiro do dízimo.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:12
לוֹקְחִין בְּהֵמָה לְזִבְחֵי הַשְּׁלָמִים מִכֶּסֶף הַמַּעֲשֵׂר, שֶׁהַשְּׁלָמִים נֶאֱכָלִים לְזָרִים. בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ לוֹקְחִין בְּהֵמוֹת לְאָכְלָן חֻלִּין מִכֶּסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי כְּדֵי לְהַבְרִיחָם מֵעַל הַמִּזְבֵּחַ. גָּזְרוּ בֵּית דִּין שֶׁאֵין לוֹקְחִין בְּהֵמָה מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר אֶלָּא לִשְׁלָמִים.
"Compra-se animal para ofertas de paz com dinheiro do dízimo, pois as ofertas de paz são comidas por leigos (não sacerdotes). No início, compravam animais para comê-los como uso comum com dinheiro do segundo dízimo, a fim de desviá-los do altar. O tribunal decretou que não se compre animal com dinheiro do dízimo, exceto para ofertas de paz" (o Rambam esclarece o pano de fundo histórico: a mishná já reflete o decreto rabínico que restringiu a compra de animais com dinheiro do dízimo apenas para ofertas de paz, depois que o povo passou a comprar animais só para consumo comum, sem trazê-los ao altar).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 1:3
מֻתָּר לִקְנוֹת בְּהֵמָה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, כִּי זִבְחֵי שְׁלָמִים אוֹכְלִים אוֹתָם בְּעָלֵיהֶם כְּמוֹ שֶׁבֵּאֵר הַכָּתוּב, וּבְשַׂר תַּאֲוָה הֵם זִבְחֵי חֻלִּין... וְקַנְקַן שֵׁם הַכְּלִי הַמַּכִיל אֶת הַמַּשְׁקֶה, וְזֶה שֶׁאָמַר יָצָא הָעוֹר וְהַקַּנְקַן לְחֻלִּין יִתְקַיֵּם כְּשֶׁאֵין הַמּוֹכֵר יוֹדֵעַ בִּסְחוֹרָה, כִּי אֵינוֹ חוֹשֵׁב אֶלָּא שֶׁמָּכַר הַבָּשָׂר וְהַיַּיִן בִּלְבַד, וְאֵינוֹ מַקְפִּיד עַל הָעוֹר וְהַקַּנְקַן.
É permitido comprar animal para ofertas de paz com dinheiro do segundo dízimo, pois as ofertas de paz são comidas por seus próprios donos, como o versículo esclareceu, e "carne de desejo" são sacrifícios de uso comum... E kankan é o nome do recipiente que contém a bebida; e o que se disse — que o couro e o jarro saem para uso comum — vale quando o vendedor não é conhecedor do comércio (especializado), pois ele pensa que vendeu apenas a carne e o vinho, sem se preocupar com o couro e o jarro (mas se o vendedor for um curtidor de couros ou oleiro, versado em avaliar essas partes separadamente, elas não saem para uso comum, pois nesse caso a compra é considerada como duas transações distintas).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 1:3
הַלּוֹקֵחַ בְּהֵמָה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים. מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, שֶׁכָּךְ הוּא עִקַּר מִצְוַת מְעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי לִקְנוֹת מֵהֶם שְׁלָמִים. וְחַיָּה. שֶׁאֵינָהּ רְאוּיָה לְהַקְרָבָה, וּקְנָאָהּ מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי לֶאֱכֹל אוֹתָהּ בְּשַׂר תַּאֲוָה, כְּלוֹמַר חֻלִּין. הַתֶּמֶד. פְּסֹלֶת שֶׁל עֲנָבִים שֶׁנָּתַן עֲלֵיהֶם מַיִם. אֵינוֹ נִלְקָח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר. דְּחָשִׁיב כְּמוֹ מַיִם, וַאֲנַן בָּעִינַן פְּרִי מִפְּרִי וְגִדּוּלֵי קַרְקַע.
"Quem compra animal doméstico para ofertas de paz": com dinheiro do segundo dízimo, pois este é, na essência, o propósito principal do dinheiro do segundo dízimo — comprar dele ofertas de paz. "Ou animal selvagem": que não é apto para sacrifício, e o comprou com dinheiro do segundo dízimo para comê-lo como carne de desejo, isto é, uso comum. "O tamad": resíduo de uvas sobre o qual se derramou água. "Não se compra com dinheiro do dízimo": pois é considerado como mera água, e nós exigimos fruto de fruto e produto da terra (o dinheiro do dízimo só pode comprar aquilo que é genuinamente "fruto da terra", e a água, mesmo tendo passado sobre resíduo de uvas, ainda não atingiu esse status antes de fermentar).
Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.