A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Uma breve controvérsia sobre se é permitido converter os selaim de prata do segundo dízimo em moedas de ouro (dinares), mais leves para o transporte até Jerusalém. Bet Shamai proíbe, temendo que isso leve à demora na subida ao Templo; Bet Hilel permite. Rabi Akiva testemunha que, na prática, converteu o dinheiro dos próprios sábios em dinares de ouro
A Casa de Shamai diz: não se façam dos selaim dinares de ouro (convertendo várias moedas de prata em uma única moeda de ouro de maior valor, mais fácil de transportar), mas a Casa de Hilel permite (sem essa restrição). Disse Rabi Akiva: eu converti para Rabán Gamliel e para Rabi Yehoshua a prata deles em dinares de ouro (um testemunho prático de que a prática permitida — conforme Bet Hilel — era seguida até mesmo por grandes sábios da época).
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, לֹא יַעֲשֶׂה אָדָם אֶת סְלָעָיו דִּינְרֵי זָהָב, וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, אֲנִי עָשִׂיתִי לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל וּלְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אֶת כַּסְפָּן דִּינְרֵי זָהָב:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta mishná trata da praticidade do transporte do dinheiro do dízimo até Jerusalém, tema diretamente ligado ao mandamento de "amarrar o dinheiro na mão".
Devarim (Deuteronômio) 14:25
וְנָתַתָּה בַכֶּסֶף, וְצַרְתָּ הַכֶּסֶף בְּיָדְךָ, וְהָלַכְתָּ אֶל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ בּוֹ.
"E o darás em dinheiro, e amarrarás o dinheiro em tua mão, e irás ao lugar que o Eterno, teu D-us, escolher" (Devarim 14:25) — a expressão "amarrarás o dinheiro em tua mão" sugere um ato prático de embalar e carregar o dinheiro para a jornada. Quanto maior o número de moedas de prata (selaim), mais pesado e volumoso é o embrulho; convertê-las em menos moedas de ouro, de maior valor unitário, torna o transporte mais leve e conveniente. A questão debatida por Bet Shamai e Bet Hilel é se essa conveniência prática deve ser permitida, ou se, paradoxalmente, ela pode desencorajar a rapidez na subida ao Templo — o próprio propósito do versículo "e irás ao lugar que o Eterno escolher".
Por que Bet Shamai teme facilitar o transporte do dinheiro? À primeira vista, pareceria que tornar o transporte do dízimo mais leve e prático seria positivo — facilitaria o cumprimento do mandamento de subir a Jerusalém. Mas Bet Shamai enxerga um risco oposto: segundo o Bartenura, o receio é que, tendo convertido seus selaim em moedas de ouro de alto valor, o dono do dízimo prorrogue sua subida a Jerusalém — pois, sem a pressão de portar uma soma incômoda e pesada em prata, ele não sentirá urgência em "descarregar" o dinheiro sagrado o quanto antes, e acabará adiando repetidamente a peregrinação até o Templo, atrasando-se em cumprir a mitzvá. Bet Hilel, por sua vez, não vê esse receio como suficientemente fundamentado (lo gazrinan — "não decretamos" essa restrição preventiva), e permite a conversão para dinares de ouro sem qualquer problema.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica a halachá conforme Bet Hilel em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 5, halachá 13.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 5:13
מָעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אִם רָצָה לְצָרְפָם בְּדִינְרֵי זָהָב כְּדֵי לְהָקֵל מַשָּׂאָן מְצָרְפָן. וְאִם צֵרְפָן לְעַצְמוֹ אֵינוֹ מוֹסִיף חֹמֶשׁ שֶׁאֵין זֶה דֶּרֶךְ פְּדִיָּה.
"O dinheiro do segundo dízimo, se quiser convertê-lo em dinares de ouro para aliviar seu transporte, pode convertê-lo. E se o converteu para si mesmo, não acrescenta o quinto (chomesh), pois esta não é uma forma de resgate (pidyon)" (o Rambam decide conforme Bet Hilel, permitindo a conversão sem restrição, mas esclarece um ponto técnico adicional não explícito na mishná: como a conversão de prata em ouro do próprio dono não é tecnicamente um "resgate" — apenas uma mudança de forma do mesmo dinheiro sagrado, sem transferência de santidade de um objeto para outro — ela não está sujeita à obrigação de acrescentar um quinto do valor, obrigação que só se aplica ao resgate genuíno feito pelo próprio dono, como se verá no capítulo 5 da mesma seção).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:7
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אָסוּר לְאָדָם לְהַחֲלִיף סְלָעֵי הַמַּעֲשֵׂר וְלַעֲשׂוֹתָן דִּינָר זָהָב, וְזוֹ גְּזֵרָה שֶׁמָּא לֹא יִמְצָא לְהַחֲלִיף וְיִתְבַּטֵּל מֵעֲלוֹת יְרוּשָׁלַיִם. וּבֵית הִלֵּל לֹא גָּזְרִי שֶׁמָּא יַשְׁהֶה עֲלִיּוֹתָיו. וְהֵבִיא רַבִּי עֲקִיבָא מַעֲשֶׂה לְאַמֵּת בּוֹ דַּעַת בֵּית הִלֵּל וְהוּא נָכוֹן.
A Casa de Shamai diz que é proibido a alguém trocar os selaim do dízimo e transformá-los em dinar de ouro, e este é um decreto preventivo, temendo que não encontre como trocar de volta (ao chegar em Jerusalém, se precisar de moedas menores) e acabe se atrasando em subir a Jerusalém. E a Casa de Hilel não decreta essa restrição, por temer que ele adie suas subidas (nota: o Rambam aqui apresenta uma nuance ligeiramente diferente da razão de Bet Shamai em relação ao Bartenura — o receio de não encontrar câmbio de volta, versus o receio de procrastinar a viagem em si — ambas as leituras aparecem entre os comentadores clássicos). E Rabi Akiva trouxe um caso para confirmar a opinião de Bet Hilel, e isto está correto (o Rambam valida explicitamente o precedente prático citado por Rabi Akiva como prova da halachá).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:7
לֹא יַעֲשֶׂה אָדָם סְלָעָיו דִּינְרֵי זָהָב. סְלָעִים שֶׁל כֶּסֶף שֶׁיֶּשׁ לוֹ מִמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי לֹא יַעֲשֶׂה אוֹתָם דִּינְרֵי זָהָב, שֶׁמָּא יַשְׁהֶה עֲלִיּוֹתָיו עַד שֶׁיַּחֲלִיף סְלָעָיו וְיִתְבַּטֵּל מִלַּעֲלוֹת לָרֶגֶל. וּבֵית הִלֵּל סָבְרֵי לֹא גָזְרִינַן.
"Não se façam dos selaim dinares de ouro": selaim de prata que se tem do segundo dízimo não devem ser transformados em dinares de ouro, para que não se demore nas subidas ao Templo até trocar de volta os selaim (ou seja, a pessoa poderia acabar adiando repetidamente sua peregrinação, à espera do momento "certo" de trocar o ouro de volta em prata para as despesas menores do dízimo em Jerusalém), e assim deixe de subir na época da festa de peregrinação (regel). E a Casa de Hilel entende que não se decreta essa restrição preventiva (por considerarem o receio infundado ou improvável na prática).
Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. A halachá segue a Casa de Hilel.