Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Guimel · Mishná 1

"Ninguém deve dizer a seu companheiro: leve estes frutos a Jerusalém para dividir"

לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ, הַעַל אֶת הַפֵּרוֹת הָאֵלּוּ לִירוּשָׁלַיִם לְחַלֵּק
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre-se o terceiro perek com um cuidado de linguagem que revela um princípio de fundo: é proibido convidar alguém a carregar frutos do segundo dízimo até Jerusalém prometendo-lhe, em troca, uma parte deles — pois isso equivaleria a pagar-lhe salário com dinheiro sagrado por um serviço que, sendo dono do dízimo, ele próprio já é obrigado a prestar. A fórmula correta é convidá-lo apenas para comer e beber juntos em Jerusalém. Mas dar o dízimo de presente, sem contrapartida por trabalho, é sempre permitido

Ninguém deve dizer a seu companheiro: leve estes frutos a Jerusalém para dividir (isto é, prometendo-lhe uma parte dos frutos do segundo dízimo como recompensa por carregá-los até lá). Mas deve dizer-lhe: leve-os para que comamos e bebamos deles em Jerusalém (um convite para compartilhar a refeição sagrada, e não um pagamento por serviço prestado). Porém as pessoas podem dar umas às outras de presente, sem contrapartida (pois o dízimo, embora não possa ser usado como salário, continua podendo ser doado livremente a quem quer que seja, já que seu dono tem o direito de compartilhá-lo com quem desejar).

לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ, הַעַל אֶת הַפֵּרוֹת הָאֵלּוּ לִירוּשָׁלַיִם לְחַלֵּק, אֶלָּא אוֹמֵר לוֹ, הַעֲלֵם שֶׁנֹּאכְלֵם וְנִשְׁתֵּם בִּירוּשָׁלָיִם. אֲבָל נוֹתְנִים זֶה לָזֶה מַתְּנַת חִנָּם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Com esta mishná abre-se o terceiro perek de Massechet Maaser Sheni, dedicado às leis de câmbio (chilul) de frutos e dinheiro entre Jerusalém e a "medina" (o resto do país), aos limites geográficos da cidade e do Templo, e às leis de pureza e resgate do dízimo que se contaminou.

Devarim (Deuteronômio) 14:22-23
עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר אֵת כָּל תְּבוּאַת זַרְעֶךָ הַיֹּצֵא הַשָּׂדֶה שָׁנָה שָׁנָה. וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם, מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"Certamente dizimarás toda a produção de tua semente que sair do campo, ano a ano. E comerás diante do Eterno, teu D-us, no lugar que Ele escolher para ali fazer habitar Seu nome, o dízimo de teu grão, teu mosto e teu azeite" (Devarim 14:22-23) — o versículo é explícito ao dizer "e comerás", no singular, dirigido diretamente ao dono do dízimo. É ele quem tem a obrigação e o privilégio de levar seu próprio dízimo a Jerusalém e ali consumi-lo; ninguém mais é obrigado a fazê-lo por ele em troca de pagamento. Por isso, quando o dono precisa da ajuda de outra pessoa para transportar os frutos até a cidade, essa ajuda não pode ser remunerada com uma fração do próprio dízimo — isso transformaria o dinheiro sagrado em salário, um uso não autorizado pela Torá, que reservou o segundo dízimo exclusivamente para ser comido, bebido e usado como unguento por seu dono, em Jerusalém.

Por que a diferença de linguagem importa tanto? À primeira vista, "leve estes frutos para dividir" e "leve-os para que comamos juntos" podem parecer apenas duas formas de dizer a mesma coisa — em ambos os casos, o amigo que carrega os frutos acaba comendo parte deles em Jerusalém. Mas a Mishná insiste que a formulação não é neutra: dizer "para dividir" enquadra a porção recebida como recompensa pelo trabalho de carregar — um salário disfarçado, pago com "dinheiro do Alto" (mamon gavoah), o que é expressamente proibido, já que o segundo dízimo não pode ser usado para nenhuma finalidade além de comer, beber e untar-se com ele. Já dizer "para que comamos e bebamos" enquadra a mesma refeição como um convite sincero para participar da alegria do dízimo em Jerusalém — o amigo come porque foi convidado a comer, não porque "ganhou" sua parte como pagamento. A halachá, portanto, não proíbe o resultado prático (o amigo comendo do dízimo em Jerusalém), mas exige que a intenção declarada seja a correta, pois é essa intenção que determina se o dízimo está sendo consumido conforme sua santidade ou desviado para uma finalidade que a Torá não autorizou.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná quase literalmente em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 3, halachá 22, na sequência de sua discussão sobre o segundo dízimo como "dinheiro do Alto" (mamon gavoah), que não pode ser vendido, penhorado, trocado ou usado como salário.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 3:22
לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ הַעַל אֶת הַפֵּרוֹת הָאֵלּוּ לִירוּשָׁלַיִם וְטל מֵהֶן חֶלְקְךָ שֶׁנִּמְצָא זֶה כְּנוֹטֵל שָׂכָר מִמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי עַל הֲבָאָתוֹ לִירוּשָׁלַיִם. אֲבָל אוֹמֵר לוֹ הַעְלֵם שֶׁנֹּאכְלֵם וְשֶׁנִּשְׁתֵּם בִּירוּשָׁלַיִם.
"Ninguém deve dizer a seu companheiro: leve estes frutos a Jerusalém e tome deles a sua parte — pois assim ele estaria recebendo salário do segundo dízimo por trazê-lo a Jerusalém. Mas deve dizer-lhe: leve-os para que comamos e bebamos deles em Jerusalém" (o Rambam reproduz a mishná quase palavra por palavra, mas explicita a razão da proibição: o problema não é o ato de comer junto, e sim o enquadramento do gesto como pagamento — "recebendo salário do segundo dízimo" — o que viola o princípio de que o dízimo é mamon gavoah, dinheiro sagrado que não pode ser usado para remunerar trabalho ou serviço, por mais legítimo que este seja).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que abre o terceiro perek de Massechet Maaser Sheni.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:1
אָמְרוּ בַּגְּמָרָא מֵהִלְכוֹת עִמְעוּם הוּא עִנְיָנוֹ, שֶׁאֵין שָׁם שִׁנּוּי בָּעִנְיָן אֶלָּא נְקִיּוּת לָשׁוֹן... אֲבָל בָּחֲרוּ מַאֲמָרָם "לְחַלֵּק", מִפְּנֵי שֶׁיִּהְיֶה כְּמִי שֶׁנָּתַן פֵּרוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שָׂכָר לְמִי שֶׁהֶעֱלָם, וְזֶה אָסוּר, לְפִי שֶׁהוּא בְּעַצְמוֹ חַיָּב לְהַגִּיעָם שָׁם.

Disseram no Talmud (no Yerushalmi, já que este tratado não tem Bavli) que se trata de uma questão de "delicadeza de linguagem" (sfat nekiyut) — ou seja, não há diferença real de resultado prático entre as duas formulações, apenas um cuidado de expressão... Mas escolheram a expressão "para dividir" (como o exemplo proibido) porque ela faz parecer que se está dando ao carregador um salário pago com os frutos do segundo dízimo por tê-los levado até lá, e isso é proibido, pois o próprio dono já é obrigado a levá-los ele mesmo (o Rambam esclarece que a proibição não está no ato de repartir a comida, mas na moldura verbal que transforma esse ato em pagamento de serviço — algo que o dinheiro sagrado do dízimo nunca pode fazer, mesmo quando o serviço prestado é, em si, perfeitamente lícito e até desejável).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:1
לֹא יֹאמַר. לְחַלֵּק. שֶׁתִּטֹּל חֵלֶק בָּהֶם. לְפִי שֶׁעָלָיו מֻטָּל לְהָבִיא מַעַשְׂרוֹ לִירוּשָׁלַיִם, וְנִמְצָא פּוֹרֵעַ חוֹבוֹ מִמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי.

"Ninguém deve dizer... para dividir": ou seja, que o outro tome uma parte deles (como recompensa). Pois cabe ao próprio dono levar seu dízimo a Jerusalém, e assim ele estaria pagando sua própria dívida com o dinheiro do segundo dízimo (o Bartenura resume a lógica em uma frase: o transporte do dízimo até Jerusalém é uma obrigação pessoal do dono, não um serviço de terceiros a ser remunerado; se ele "paga" por esse transporte com o próprio dízimo, está usando dinheiro sagrado para quitar uma dívida que, na verdade, é dele mesmo, e não do amigo que o ajudou).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Este terceiro perek abre com o cuidado de linguagem ao convidar alguém a carregar frutos do dízimo (mishná 1); segue com a proibição de comprar teruma com dinheiro do dízimo, controvérsia entre os sábios e Rabi Shimon (mishná 2); trata do câmbio (chilul) de dinheiro e frutos entre Jerusalém e a medina (mishnayot 3-4); da entrada e saída de dinheiro e frutos da cidade (mishná 5); dos frutos cuja produção terminou dentro de Jerusalém (mishná 6); dos limites da cidade e do Templo — árvores, lagares de azeite, câmaras sagradas e comuns (mishnayot 7-8); da impureza do dízimo dentro e fora de Jerusalém e seu resgate (mishnayot 9-11); e encerra com as leis dos jarros emprestados ou usados para vinho do dízimo (mishnayot 12-13).