A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná agora aborda o que acontece quando o segundo dízimo, já dentro de Jerusalém — onde, como visto nas mishnayot anteriores, não pode mais sair nem ser resgatado em circunstâncias normais —, se torna impuro. A impureza abre uma exceção à regra de que o dízimo dentro da cidade só pode ser comido, nunca resgatado. Mas o grau da impureza (principal ou secundária) e o local onde ela ocorreu (dentro ou fora da cidade) geram uma controvérsia intrincada entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre exatamente quando o resgate é permitido e onde o produto resgatado pode então ser comido
Segundo dízimo que entrou em Jerusalém e se contaminou (tornou-se ritualmente impuro depois de já estar dentro dos limites da cidade), seja que se contaminou por impureza principal, seja que se contaminou por impureza secundária (av hatumá — uma fonte primária e mais grave de impureza, como um cadáver ou um réptil morto; ou valad hatumá — impureza transmitida em segundo grau, mais branda), seja dentro, seja fora (seja que o contato com a fonte de impureza tenha ocorrido dentro ou fora da cidade): Bet Shamai diz: deve ser resgatado e tudo deve ser comido dentro, exceto o que se contaminou por impureza principal fora (Bet Shamai permite o resgate em todos os casos, e determina que o produto resgatado seja comido dentro de Jerusalém — com uma única exceção: quando a impureza foi principal e ocorreu fora da cidade, caso em que, aparentemente, nem esse resgate é permitido dentro). Mas Bet Hilel diz: tudo deve ser resgatado e comido fora, exceto o que se contaminou por impureza secundária dentro (posição quase espelhada: Bet Hilel permite resgatar e comer fora em todos os casos, exceto quando a impureza foi apenas secundária e ocorreu dentro da cidade, situação em que ainda resta alguma santidade que exige o consumo dentro).
מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּכְנַס לִירוּשָׁלַיִם וְנִטְמָא, בֵּין שֶׁנִּטְמָא בְאַב הַטֻּמְאָה, בֵּין שֶׁנִּטְמָא בִּוְלַד הַטֻּמְאָה, בֵּין בִּפְנִים בֵּין בַּחוּץ, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, יִפָּדֶה וְיֵאָכֵל הַכֹּל בִּפְנִים, חוּץ מִשֶּׁנִּטְמָא בְּאַב הַטֻּמְאָה בַּחוּץ. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, הַכֹּל יִפָּדֶה וְיֵאָכֵל בַּחוּץ, חוּץ מִשֶּׁנִּטְמָא בִּוְלַד הַטֻּמְאָה בִּפְנִים:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
A permissão excepcional de resgatar o dízimo mesmo dentro de Jerusalém, quando ele se torna impuro, deriva de uma leitura específica do versículo sobre o resgate na Torá.
Devarim (Deuteronômio) 14:24
וְכִי יִרְבֶּה מִמְּךָ הַדֶּרֶךְ כִּי לֹא תוּכַל שְׂאֵתוֹ, כִּי יִרְחַק מִמְּךָ הַמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ לָשׂוּם שְׁמוֹ שָׁם.
"E se o caminho for longo demais para ti, que não possas transportá-lo, porque o lugar que o Eterno, teu D-us, escolher para ali colocar Seu nome estiver distante de ti" (Devarim 14:24) — os sábios, segundo o comentário do Rambam, derivam da expressão "não possas transportá-lo" (lo tuchal seetó) uma alusão à raiz "seet", relacionada tanto ao ato de carregar quanto, por extensão, ao ato de comer (como em Bereshit 43:34, "e ele lhes enviou porções"). Dessa dupla leitura se extrai que a impossibilidade de "carregá-lo" pode significar também uma impossibilidade de comê-lo — e a impureza é precisamente uma condição que torna o dízimo impossível de ser comido licitamente. Por essa via exegética, os sábios concluem que o segundo dízimo que se tornou impuro pode ser resgatado mesmo dentro de Jerusalém, como uma exceção à regra geral de que o dízimo, uma vez na cidade, só pode ser comido, nunca resgatado.
Qual é a lógica por trás da complexa divisão entre Bet Shamai e Bet Hilel? Segundo a explicação do Rambam em seu Perush HaMishná, a lógica de cada escola gira em torno de um princípio de "força decrescente" da santidade original. Para Bet Shamai, uma vez que o dízimo já entrou em Jerusalém — seu destino final —, ele deve, na medida do possível, continuar sendo tratado como pertencente àquele espaço, e por isso o produto resgatado (mesmo que a impureza tenha ocorrido fora) deve, via de regra, ser comido dentro; a única exceção é o caso mais grave — impureza principal ocorrida fora da cidade —, em que a contaminação é considerada forte o bastante para que o produto, no momento em que ainda estava puro (antes de entrar), nunca tivesse verdadeiramente alcançado a santidade plena associada à entrada em Jerusalém. Bet Hilel inverte a lógica: para eles, a regra geral é que a impureza sempre permite comer fora depois do resgate, e a única exceção é o caso mais brando — impureza secundária ocorrida dentro da cidade —, situação em que a contaminação é fraca demais, e a localização (já dentro de Jerusalém) forte demais, para que se abra mão do consumo dentro da cidade.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica o princípio geral do resgate do dízimo impuro em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 7, halachot 1-2, decidindo a favor da posição de Bet Hilel, como é costume nas disputas entre as duas escolas.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:1-2
פֵּרוֹת הַנִּלְקָחוֹת בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אֵינָן נִפְדִּין בְּרִחוּק מָקוֹם אֶלָּא אִם כֵּן נִטְמְאוּ בְּאַב הַטֻּמְאָה, אֶלָּא יַעֲלוּ הֵן עַצְמָן וְיֵאָכְלוּ בִּירוּשָׁלַיִם. זֶה חֹמֶר בְּלָקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר מִפֵּרוֹת מַעֲשֵׂר עַצְמָן. וְאִם נִטְמָא בִּוְלַד הַטֻּמְאָה מִדִּבְרֵיהֶם יִפָּדוּ וְיֵאָכְלוּ בִּירוּשָׁלַיִם.
"Os frutos comprados com dinheiro do segundo dízimo não podem ser resgatados à distância, a não ser que se tenham contaminado por impureza principal; caso contrário, devem eles próprios subir e ser comidos em Jerusalém. Esta é uma estringência aplicada ao que foi comprado com dinheiro do dízimo, maior do que a aplicada aos próprios frutos do dízimo. E se se contaminaram por impureza secundária, por decreto rabínico, também podem ser resgatados e comidos em Jerusalém" (esta halachá trata especificamente do caso — mais estringente — de produtos comprados com dinheiro do dízimo, e não dos frutos do próprio dízimo tratados nesta mishná; o Rambam, porém, deixa claro no restante do capítulo, seguindo a decisão de Bet Hilel, que os frutos do próprio dízimo que se contaminaram, seja dentro seja fora de Jerusalém, seja por impureza principal seja secundária, podem em geral ser resgatados e comidos fora — com a exceção específica mencionada pela mishná).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:9
כְּבָר זָכַרְנוּ שֶׁאָסוּר לִפְדּוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם, אֶלָּא אִם נִטְמָא... וְהָרְאָיָה מִזֶּה מַה שֶּׁאֶסְפֵּר לְךָ, וְהוּא כִּי מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אָסוּר לְאָכְלוֹ אֶלָּא בִּירוּשָׁלַיִם, וְאָמַר הַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ כִּי אִם נִמְנַע מִלֶּאֱכֹל אוֹתוֹ וְאֵין שָׁם דָּבָר מוֹנֵעַ אֲכִילָתוֹ אֶלָּא שֶׁנִּטְמָא... וְאוֹמֵר בֵּית שַׁמַּאי כֵּיוָן שֶׁנִּכְנַס בִּירוּשָׁלַיִם, אַף עַל פִּי שֶׁהוּא נִפְדֶּה, אָסוּר לְהוֹצִיאוֹ, אֶלָּא יֵאָכֵל בִּירוּשָׁלַיִם, מִלְּבַד מַה שֶּׁנִּטְמָא בְּאַב הַטֻּמְאָה חוּץ לַחוֹמָה וְאַחַר כָּךְ נִכְנַס לִירוּשָׁלַיִם, שֶׁמֻּתָּר לְהוֹצִיאוֹ, לְפִי שֶׁבִּשְׁעַת כְּנִיסָתוֹ לֹא הָיָה רָאוּי לַאֲכִילָה וְלֹא הָיְתָה בּוֹ קְדֻשָּׁה כְּלָל.
Já mencionamos que é proibido resgatar o segundo dízimo em Jerusalém, a não ser que tenha se contaminado... E a prova disso é o que vou te contar: o segundo dízimo é proibido de ser comido a não ser em Jerusalém, e o Nome, bendito seja, disse que, caso seja impedido de comê-lo e não haja nada que impeça sua alimentação senão o fato de ter se contaminado (então se permite o resgate — pois a impossibilidade de comer justifica a via alternativa do resgate, mesmo dentro da cidade)... E diz Bet Shamai: uma vez que entrou em Jerusalém, mesmo que seja resgatado, é proibido tirá-lo dali, mas deve ser comido em Jerusalém — exceto o que se contaminou por impureza principal fora da muralha e depois entrou em Jerusalém, que é permitido tirá-lo, pois no momento de sua entrada ele já não estava apto para o consumo e não tinha santidade alguma (o Rambam explica a exceção de Bet Shamai com precisão: se a contaminação grave ocorreu antes da entrada, o produto, ao cruzar a muralha, já não carregava mais a plena santidade do dízimo — apenas uma "casca" de obrigação de resgate —, e por isso pode ser tratado com mais leveza, permitindo sua saída).
Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.