Quem encontra um vaso com a letra Kuf escrita nele — é korban. Mem — é dízimo. Dálet — é demai. Tet — é tevel. Tav — é teruma, pois em tempos de perigo escreviam Tav em lugar de teruma (cada letra representa a inicial da palavra hebraica correspondente ao status ritual do conteúdo do vaso: Kuf de korban, Mem de maasser, Dálet de demai, Tet de tevel; a exceção é a teruma, cuja inicial seria a letra Tet — já usada para tevel —, e por isso se recorreu à última letra da palavra, Tav, especificamente durante um período de perseguição religiosa em que era perigoso escrever palavras sagradas por extenso). Rabi Yosei diz: todas elas são nomes de pessoas (Rabi Yosei discorda de toda essa interpretação, propondo que essas letras isoladas não indicam status ritual algum, mas são simplesmente as iniciais dos nomes de seus donos, um sistema comum de identificação de propriedade). Disse Rabi Yosei: até se alguém encontrasse um barril cheio de frutos com a palavra "teruma" escrita nele, seria considerado comum, pois eu digo: no ano passado estava cheio de frutos de teruma, e ele o esvaziou (Rabi Yosei leva sua posição cética ainda mais longe, aplicando-a mesmo a uma inscrição completa e não abreviada: mesmo encontrando um barril rotulado "teruma" e cheio de frutos, ele argumenta que não se pode presumir que o conteúdo atual seja de fato teruma, pois a inscrição pode simplesmente ter sobrado de um uso anterior do mesmo recipiente, já esvaziado e reutilizado sem que o dono se desse ao trabalho de apagar o rótulo antigo).
Esta mishná reflete um período histórico específico de perseguição religiosa, aludido pela própria expressão "em tempos de perigo", quando escrever certas palavras sagradas por extenso representava risco para quem as escrevia.
Por que Rabi Yosei rejeita todo o sistema de letras? A posição de Rabi Yosei revela um princípio metodológico mais amplo sobre como interpretar sinais ambíguos: uma única letra isolada — Kuf, Mem, Dálet, Tet — é, por definição, radicalmente ambígua, podendo corresponder a inúmeras palavras e nomes diferentes que começam com ela. Para os sábios anônimos da primeira parte da mishná, o contexto histórico específico (a necessidade de disfarçar identificações religiosas em tempos de perseguição) e o padrão consistente de uso tornam essa interpretação específica mais provável. Rabi Yosei, mais cético, prefere a explicação mais simples e menos carregada de pressupostos históricos: que essas letras são apenas as iniciais comuns dos nomes de seus donos — um sistema universal de identificação de propriedade que não requer nenhuma teoria especial sobre códigos secretos de perseguição religiosa. Seu segundo exemplo, sobre o barril de teruma, reforça essa mesma tendência metodológica: mesmo diante de uma evidência aparentemente mais forte (uma palavra completa, não uma letra isolada), ele ainda prefere uma explicação alternativa plausível que evita a conclusão de que o produto encontrado é, de fato, sagrado.
O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 6, halachá 8, na sequência direta de sua discussão sobre o vaso rotulado com a letra Mem, já mencionada a propósito da mishná 4:9.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
"Todas elas são nomes de pessoas": quer dizer que é possível que essas letras sejam as iniciais dos nomes dos donos daqueles vasos (o Rambam explica com clareza o argumento cético de Rabi Yosei: uma letra isolada não é evidência suficiente do status ritual do conteúdo, pois poderia igualmente ser apenas a marca de identificação pessoal do proprietário). E o significado de "eshtakad" é "no ano passado". E a lei não segue Rabi Yosei em nenhum dos dois enunciados (o Rambam confirma que, apesar do argumento engenhoso de Rabi Yosei, a halachá final adota a interpretação padrão das letras como indicadores de status ritual, tanto para as abreviações de uma letra quanto para o caso do barril rotulado "teruma" por extenso).
"Kuf, korban": isto é, consagrado. "Dálet, demai": produto adquirido de um am haaretz. "Em tempos de perigo": quando decretaram que não se cumprissem as mitzvot (o Bartenura identifica o contexto histórico específico — um período de perseguição religiosa em que praticar abertamente os mandamentos era proibido, tornando necessário o uso de códigos discretos). "São nomes de pessoas": letras iniciais de nomes próprios: Kuf de Kehat, Dálet de Daniel, Tet de Tovia, e tudo é comum (o Bartenura fornece exemplos concretos e plausíveis de nomes bíblicos e judaicos comuns que começam com cada uma dessas letras, tornando tangível o argumento alternativo de Rabi Yosei)... E a lei não segue Rabi Yosei.