Se alguém tomou posse do dízimo de outrem por uma sela, mas não teve tempo de resgatá-lo antes de o preço subir para duas selas, deve dar-lhe uma sela e lucrar uma sela, e o segundo dízimo é dele (a meshichá — a tomada de posse física do produto — já efetiva a compra pelo preço acertado no momento da transação, mesmo que o pagamento em dinheiro só ocorra depois; se o preço subir nesse ínterim, o comprador paga apenas o valor original combinado, embolsando a diferença como lucro, e o produto passa a ser seu próprio dízimo, resgatado). Se tomou posse do dízimo por duas selas, mas não teve tempo de resgatá-lo antes de o preço cair para uma sela, deve dar-lhe uma sela de dinheiro comum e uma sela do seu próprio dízimo (nesse caso inverso, o comprador ainda deve ao vendedor as duas selas originalmente acordadas — mas como o produto agora vale apenas uma sela no mercado, ele paga uma sela com dinheiro comum, que se torna resgate válido, e completa o valor faltante com uma sela do seu próprio dinheiro do dízimo, absorvendo assim a perda de valor). Se o vendedor era um am haaretz, dá-lhe do dinheiro de demai (quando o vendedor original do dízimo não é confiável quanto à separação correta dos dízimos — um am haaretz —, o comprador pode completar o pagamento com dinheiro que já era de dízimo de demai, uma categoria mais leniente, evitando assim entregar dinheiro certamente sagrado a alguém não confiável).
Esta mishná é um caso técnico e circunstancial da economia agrícola do Segundo Templo, sem versículo específico próprio — apoia-se no princípio geral de que o dízimo pode ser vendido apenas para gerar dinheiro que absorva sua santidade, conforme Devarim 14:25.
Por que o dinheiro de demai resolve o problema do vendedor am haaretz? Um am haaretz é alguém presumido não confiável quanto à separação correta e completa dos dízimos de sua produção — por isso, tudo o que ele vende é tratado, por precaução rabínica, como demai: produto sobre o qual paira uma dúvida razoável (mas não certa) de que os dízimos não foram totalmente separados. Se o comprador, neste caso, tivesse que completar o pagamento faltante com dinheiro certamente sagrado do dízimo (vadai), estaria transferindo santidade certa para as mãos de alguém cuja relação com as leis de dízimo é, no mínimo, duvidosa — um risco que os sábios preferiram evitar. Ao permitir o pagamento com dinheiro de demai — cuja própria santidade já é apenas presumida, e não certa —, a halachá cria uma correspondência proporcional entre o grau de confiabilidade do vendedor e o grau de santidade do dinheiro que ele recebe, evitando tanto o prejuízo ao comprador quanto o uso indevido de dinheiro sagrado com certeza absoluta.
O Mishné Torá não formulou uma halachá redigida especificamente para este caso técnico de variação de preço entre a meshichá e o pagamento efetivo — outro caso circunstancial da economia agrícola e comercial do Segundo Templo, sem codificação formal separada em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva. Registra-se esta ausência com honestidade, apoiando-se aqui no comentário do Rambam à própria mishná, que resume a lei com precisão.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Chamou nesta halachá de "dízimo" os frutos adquiridos com dinheiro do segundo dízimo, e chamou de "resgate" a entrega do valor de ouro do segundo dízimo (o Rambam observa uma imprecisão de linguagem na mishná, que usa os termos com certa flexibilidade)... E se o vendedor era um am haaretz, é permitido dar-lhe a segunda sela do dinheiro do segundo dízimo de demai, porque o am haaretz geralmente incorre nesse tropeço, e presume-se que ele lida com demai (o Rambam explica a razão prática por trás da leniência: como se presume, por hábito, que o am haaretz frequentemente lida com produtos de status duvidoso quanto ao dízimo, é consistente — e mais seguro — pagá-lo com dinheiro da mesma categoria de dúvida, evitando entregar-lhe santidade certa).
"Tomou posse do dízimo por uma sela": refere-se a quem vende seu próprio segundo dízimo, para que sua santidade se transfira ao dinheiro da venda, e o dinheiro fique retido na santidade do dízimo (o Bartenura esclarece que esta é uma venda legítima, diferente da venda proibida mencionada no primeiro perek — aqui, o objetivo explícito é justamente a transferência de santidade). "Se o vendedor era um am haaretz, dá-lhe do que é seu": se o vendedor era am haaretz, dá-lhe as duas selas do próprio dinheiro comum, porque não se entrega dinheiro de dízimo certo a um am haaretz (existe, porém, uma versão variante do texto que lê "de demai" em vez de "do que é seu", segundo a qual, se ele já possui dinheiro de dízimo de demai, dá-lhe uma sela dessas, pois dinheiro de demai pode ser confiado a um am haaretz).