Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Heh · Mishná 12

"Não comi dele em meu luto"

לֹא אָכַלְתִּי בְאֹנִי מִמֶּנּוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná avança à terceira frase de condições do viduy maasrot (Devarim 26:14), agora relativa especificamente ao segundo dízimo: três estados que, se ocorridos durante seu consumo, guarda ou transferência, invalidam a confissão — comer em estado de luto agudo (aninut), remover em estado de impureza, e dar parte dele a um morto

"Não comi dele em meu luto" (ibid., 14) (referindo-se ao segundo dízimo): eis que, se o comeu em estado de luto agudo (aninut) (o período entre a morte de um parente próximo e seu sepultamento, quando o enlutado, segundo a lei da Torá, está proibido de comer alimentos sagrados como terumá e o segundo dízimo, mesmo sem ter contraído impureza ritual), não pode se confessar. "E não removi dele em impureza" (ibid.): eis que, se o separou em estado de impureza (se, ao retirar o segundo dízimo de sua casa durante o processo de biur, o próprio dono estava ritualmente impuro no momento da separação), não pode se confessar. "E não dei dele a um morto" (ibid.): não comprei dele caixão e mortalhas para um morto (o segundo dízimo, sendo destinado exclusivamente a comer, beber e untar em Jerusalém — como estabelecido já no segundo perek deste tratado —, não pode ser gasto em nenhum uso funerário, mesmo indiretamente, comprando itens que serão usados no sepultamento de alguém), nem o dei a um enlutado em troca de dinheiro comum (mesmo uma transação aparentemente neutra — vender o próprio dízimo, recebendo em troca dinheiro comum, para que um enlutado o consuma — é proibida, pois equivaleria a extrair benefício pessoal e comercial de algo cuja santidade exige consumo específico e não comércio ordinário), e não o comi nem mesmo em Jerusalém antes de separar a teruma do dízimo (mesmo dentro de Jerusalém, onde o consumo do segundo dízimo é normalmente permitido e correto, é proibido consumi-lo antes que a teruma do dízimo — a porção que o levita deve separar de seu próprio primeiro dízimo para o cohen — já tenha sido devidamente retirada; consumir precipitadamente, fora dessa ordem correta, também invalida a confissão).

לֹא אָכַלְתִּי בְאֹנִי מִמֶּנּוּ (שם), הָא אִם אֲכָלוֹ בַאֲנִינָה אֵינוֹ יָכוֹל לְהִתְוַדּוֹת. וְלֹא בִעַרְתִּי מִמֶּנּוּ בְּטָמֵא, הָא אִם הִפְרִישׁוֹ בְטֻמְאָה אֵינוֹ יָכוֹל לְהִתְוַדּוֹת. וְלֹא נָתַתִּי מִמֶּנּוּ לְמֵת, לֹא לָקַחְתִּי מִמֶּנּוּ אָרוֹן וְתַכְרִיכִים לְמֵת, וְלֹא נְתַתִּיו לְאוֹנְנִים אֲחֵרִים בְּדָמִים, וַאֲפִלּוּ בִירוּשָׁלַיִם לֹא אֲכַלְתִּיו כְּשֶׁאֲנִי טָמֵא, קֹדֶם שֶׁלֹּא נִתְפָּרְשָׁה תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná decompõe a terceira frase de condições do viduy maasrot, dedicada especificamente às restrições que cercam o consumo apropriado do segundo dízimo em seu estado de santidade.

Devarim (Deuteronômio) 26:14
לֹא אָכַלְתִּי בְאֹנִי מִמֶּנּוּ וְלֹא בִעַרְתִּי מִמֶּנּוּ בְּטָמֵא, וְלֹא נָתַתִּי מִמֶּנּוּ לְמֵת; שָׁמַעְתִּי בְּקוֹל ה' אֱלֹהָי, עָשִׂיתִי כְּכֹל אֲשֶׁר צִוִּיתָנִי.
"Não comi dele em meu luto, nem removi dele em impureza, nem dei dele a um morto; ouvi a voz do Eterno, meu D-us, fiz conforme tudo o que me ordenaste" (Devarim 26:14) — este versículo lista três estados negativos específicos relacionados ao segundo dízimo, cada um dos quais os sábios interpretam com grande precisão técnica. "Em meu luto" (b'oni) refere-se ao estado de aninut, a fase aguda do luto entre a morte e o sepultamento; "em impureza" refere-se ao estado ritual do próprio dono no momento de lidar com o dízimo; e "a um morto" refere-se a qualquer uso do dízimo, direto ou indireto, relacionado aos cuidados fúnebres — três formas distintas pelas quais o caráter sagrado do segundo dízimo, destinado exclusivamente ao consumo alegre "diante do Eterno" em Jerusalém, poderia ser violado.

Por que luto, impureza e morte compartilham a mesma frase? As três proibições desta mishná, embora tecnicamente distintas, compartilham uma lógica comum: o segundo dízimo é definido pela Torá (Devarim 14:26) como algo a ser consumido com alegria "diante do Eterno" — "e te alegrarás, tu e tua casa". O estado de aninut (luto agudo) é incompatível com essa alegria exigida por definição; o estado de impureza ritual é incompatível com a proximidade exigida ao sagrado; e o contexto da morte — seja pelo uso funerário direto, seja pela venda a um enlutado — é a antítese última da vitalidade e alegria que caracterizam o consumo apropriado do dízimo. A mishná ensina que essas três formas de contaminação simbólica e ritual — mesmo quando não envolvem necessariamente uma transgressão technical do "consumo" em si (como no caso de vender o dízimo a outra pessoa) — bastam para invalidar a confissão, pois a confissão pressupõe não apenas que os presentes foram corretamente entregues e separados, mas que todo o processo, do início ao fim, respeitou integralmente o caráter sagrado e alegre do dízimo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica estas três condições em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 11, halachá 12, além de discutir a definição técnica de aninut em Hilchot Avel (Leis do Luto).

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 11:12
וּמִנַּיִן שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לְהִתְוַדּוֹת אִם אָכַל אוֹתָם בַּאֲנִינוּת אוֹ בְּטֻמְאָה, אוֹ שֶׁנָּתַן מֵהֶם לְמֵת, שֶׁנֶּאֱמַר לֹא אָכַלְתִּי בְאֹנִי מִמֶּנּוּ וְלֹא בִעַרְתִּי מִמֶּנּוּ בְּטָמֵא וְלֹא נָתַתִּי מִמֶּנּוּ לְמֵת.
"E de onde se sabe que não se pode fazer a confissão se comeu os presentes em aninut, ou em impureza, ou deu deles a um morto? Pois está dito: 'não comi dele em meu luto, nem removi dele em impureza, nem dei dele a um morto'" (o Rambam confirma cada uma das três condições exatamente na formulação da mishná, tratando-as como requisitos absolutos e não meramente recomendados para a validade da confissão).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:12
כְּבָר זָכַרְנוּ בְּמַה שֶּׁקָּדַם, כִּי מִזֶּה הַכָּתוּב לָמַדְנוּ שֶׁמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי אָסוּר לְאוֹנֵן. וְזָכַרְנוּ עוֹד שֶׁהָאוֹנֵן נִקְרָא הָאָדָם שֶׁיָּמוּת לוֹ אֶחָד מִן הַקְּרוֹבִים שֶׁהוּא חַיָּב לְהִתְאַבֵּל עֲלֵיהֶם יוֹם הַקְּבוּרָה מִדְּרַבָּנָן, אֲבָל מִדְּאוֹרַיְתָא יוֹם הַמִּיתָה בִּלְבַד הוּא אוֹנֵן; וְהַקְּרוֹבִים שֶׁאָדָם חַיָּב לְהִתְאַבֵּל עֲלֵיהֶם הֵם אָבִיו וְאִמּוֹ וּבָנָיו וּבְנוֹתָיו וְאָחִיו וְאַחְיוֹתָיו וְאִשְׁתּוֹ.

Já mencionamos anteriormente que deste versículo aprendemos que o segundo dízimo é proibido ao enlutado (onen). E mencionamos ainda que se chama onen a pessoa a quem morreu um dos parentes por quem é obrigado a se enlutar, durante o dia do sepultamento — segundo a lei rabínica; mas segundo a lei da Torá, apenas o dia da morte propriamente é considerado aninut (o Rambam distingue com precisão dois níveis de aninut: o núcleo bíblico, restrito ao próprio dia da morte, e uma extensão de origem rabínica que prolonga esse status até o momento do sepultamento, mesmo que ocorra em dia posterior). E os parentes por quem a pessoa é obrigada a se enlutar são seu pai, sua mãe, seus filhos e filhas, seus irmãos e irmãs, e sua esposa.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:12
לֹא אָכַלְתִּי בְאֹנִי. כָּל יוֹם הַמִּיתָה הַוְיָא אֲנִינוּת דְּאוֹרַיְתָא, וַאֲפִלּוּ לְאַחַר קְבוּרָה. וְלַיְלָה שֶׁלְּאַחַר יוֹם הַמִּיתָה הַוְיָא אֲנִינוּת דְּרַבָּנָן, וְכֵן יוֹם קְבוּרָה שֶׁאֵינוֹ יוֹם הַמִּיתָה הַוְיָא אֲנִינוּת דְּרַבָּנָן. לֹא לָקַחְתִּי מִמֶּנּוּ אָרוֹן וְתַכְרִיכִין לְמֵת. וּכְהַאי גַוְנָא אֲפִלּוּ לְחַי אָסוּר, שֶׁהֲרֵי אָסוּר לִקְנוֹת מַלְבּוּשׁ וְכַיּוֹצֵא בָזֶה מִמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי, כְּדִתְנַן לְעֵיל סוֹף פֶּרֶק קַמָּא, כָּל שֶׁהוּא חוּץ לַאֲכִילָה וּשְׁתִיָּה וְסִיכָה אִם לָקַח יֹאכַל כְּנֶגְדּוֹ. וְלֹא נָקַט הָכָא אָרוֹן וְתַכְרִיכִים אֶלָּא לְאַשְׁמוּעִינַן דְּלֹא מִבַּעְיָא אִם סָךְ מִמֶּנּוּ לְמֵת שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לְהִתְוַדּוֹת, דִּכְתִיב מִמֶּנּוּ, מִגּוּפוֹ שֶׁל מַעֲשֵׂר, אֶלָּא אֲפִלּוּ קָנָה אָרוֹן וְתַכְרִיכִים, דְּלֹא נָתַן מִגּוּפוֹ שֶׁל מַעֲשֵׂר עַל מֵת, אֵינוֹ יָכוֹל לְהִתְוַדּוֹת.

"Não comi dele em meu luto": todo o dia da morte é aninut de origem bíblica, mesmo depois do sepultamento; e a noite seguinte ao dia da morte é aninut de origem rabínica, e do mesmo modo o dia do sepultamento, quando este não é o próprio dia da morte, é aninut de origem rabínica. "Não comprei dele caixão e mortalhas para um morto": e algo semelhante é proibido até mesmo para um vivo, pois é proibido comprar roupa e coisas semelhantes com dinheiro do segundo dízimo, como já ensinamos no fim do primeiro perek: tudo o que está fora de comer, beber e untar, se foi comprado, deve-se comer contra seu valor (isto é, resgatar seu valor com dinheiro comum e devolvê-lo à santidade do dízimo). E a mishná não mencionou aqui "caixão e mortalhas" senão para nos ensinar que não apenas se untou dele um morto — o que já é proibido, pois está escrito "dele", isto é, da própria substância do dízimo — mas mesmo se comprou caixão e mortalhas, embora não tenha dado a própria substância do dízimo sobre um morto (apenas usado seu valor convertido para uma compra relacionada à morte), mesmo assim não pode se confessar (o Bartenura explica por que a mishná lista especificamente "caixão e mortalhas", um exemplo aparentemente redundante com a proibição geral de comprar itens não alimentares — precisamente para esclarecer que mesmo esse uso indireto, através de uma compra e não do consumo direto do próprio fruto, já basta para invalidar a confissão).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Esta mishná trata das três condições relativas ao segundo dízimo especificamente — aninut, impureza e uso funerário — cuja violação também invalida a recitação da confissão — mishná 12.