Yochanan, o Sumo Sacerdote, aboliu as declarações do dízimo (a própria recitação do viduy maasrot, decomposta nas mishnayot 10 a 14, foi suspensa por decreto de Yochanan Kohen Gadol — uma figura histórica do período do Segundo Templo, identificada pela tradição com Yochanan Hircano; a razão dessa abolição, segundo os comentadores, está relacionada a uma mudança na prática de doação do primeiro dízimo, que impedia a recitação sincera de uma das frases centrais da confissão). Ele também aboliu os "despertadores" (os levitas que, durante o serviço musical no Templo, costumavam recitar diariamente o versículo "Desperta, por que dormes, Eterno?" — Salmos 44:24 —, uma prática que Yochanan considerou inadequada por sugerir, mesmo que poeticamente, que o Eterno poderia estar "dormindo"), e os "golpeadores" (pessoas que faziam pequenos cortes na testa do bezerro destinado ao sacrifício, entre seus chifres, fazendo com que sangue escorresse sobre seus olhos, impedindo-o de ver e facilitando assim sua contenção e abate; Yochanan aboliu essa prática porque o animal, com essa marca, parecia ter uma deficiência física, o que poderia gerar a falsa impressão de que um animal com defeito estava sendo oferecido no altar). E até seus dias, o martelo batia em Jerusalém (artesãos do metal — ferreiros e caldeireiros — costumavam trabalhar com martelo durante os dias intermediários da festa (chol hamoed), quando certos tipos de trabalho são permitidos por se tratarem de "trabalho de perda evitável"; Yochanan também aboliu essa prática, considerando que o barulho excessivo do martelo desrespeitava a atmosfera festiva do chol hamoed). E em seus dias, ninguém mais precisava perguntar sobre o demai (demai — produto agrícola comprado de um am haaretz, uma pessoa comum de quem não se sabe com certeza se já separou corretamente teruma e dízimos; Yochanan instituiu uma reforma fiscal que simplificou a situação: uma vez que todos passaram a separar automaticamente a teruma do dízimo e o segundo dízimo de qualquer produto comprado, sem precisar investigar previamente sua condição, eliminando a necessidade prática de "perguntar" sobre a origem duvidosa de cada produto adquirido no mercado).
Esta mishná final relaciona-se diretamente ao texto do viduy maasrot, cuja recitação Yochanan Kohen Gadol aboliu — e explica essa abolição a partir de uma mudança histórica ocorrida precisamente na frase que a mishná 10 identificou como referente ao primeiro dízimo.
Por que uma única frase impossível de recitar invalida toda a confissão? A lógica desta última mishná retoma diretamente o princípio estabelecido na mishná 11: a confissão do dízimo exige uma correspondência exata entre a declaração verbal e a realidade dos fatos — "conforme todo o mandamento que me ordenaste" —, e quem inverte a ordem correta dos presentes, ou separa de um tipo sobre outro, "não pode se confessar". A situação criada pelo decreto de Ezra, e perpetuada até os dias de Yochanan Kohen Gadol, era estruturalmente semelhante: a frase "dei-o ao levita" deixara de refletir a prática real da distribuição do primeiro dízimo, que agora ia aos cohanim. Diante dessa discrepância entre o texto fixo da confissão bíblica e a realidade histórica vivida pelo povo, Yochanan concluiu que a única solução coerente com os próprios princípios da confissão era abolir sua recitação por completo, em vez de permitir que se recitasse um texto que já não correspondia à verdade. As demais reformas mencionadas nesta mishná — os "despertadores", os "golpeadores", e o martelo em Jerusalém — embora não diretamente relacionadas às leis de Maaser Sheni, compartilham com a abolição do viduy um mesmo espírito de reforma cuidadosa das práticas do Templo e da cidade, movida por uma sensibilidade teológica e estética refinada. E a reforma final, sobre o demai, resolve de modo elegante e sistêmico um problema que ocupou boa parte de Massechet Demai (o segundo tratado da Ordem de Zeraim): ao presumir universalmente que todo produto comprado no mercado requer separação de teruma do dízimo e segundo dízimo, elimina-se a necessidade de investigação caso a caso.
Esta mishná narra um evento histórico e uma reforma prática, e não uma norma halachica dedutível diretamente de um versículo da Torá; por isso, o Rambam não a codifica como halachá formal em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva — a última halachá desse livro (11:17, citada na mishná anterior) já trata do tema final de quem recita a confissão, sem retomar o episódio de Yochanan Kohen Gadol, que pertence ao registro histórico e não normativo. Esta ausência é registrada aqui com honestidade, sem forçar uma correspondência artificial.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta última mishná de Massechet Maaser Sheni.
"Aboliu a declaração do dízimo": porque não podiam dizer naquele tempo "conforme todo o mandamento que me ordenaste", já que o Nome bendito ordenou dar o primeiro dízimo aos levitas, e eles, naquele tempo, o davam aos cohanim — e isso foi por decreto do tribunal de Ezra o Escriba, pois quando Ezra subiu à Terra de Israel, nenhum levita foi com ele, como está explicado no versículo: "e observei o povo e os cohanim, e dentre os filhos de Levi não achei ali" (Ezra 8:15) — penalizou os levitas para que não lhes dessem mais o dízimo, e que fosse dado aos cohanim (o Rambam reconstrói com precisão histórica a cadeia causal completa: a ausência dos levitas no retorno liderado por Ezra levou a uma penalidade que redirecionou o primeiro dízimo aos cohanim, tornando definitivamente impossível, gerações depois, a recitação sincera da frase "dei-o ao levita").
"Despertadores": são os levitas que diziam todo dia, no momento da recitação do cântico sobre a oferenda, "Desperta, por que dormes, Eterno?" (Salmos 44:24); e ele os fez cessar disso, e ordenou que não dissessem mais, pois eles recitavam esse versículo como se estivessem falando diretamente com o Nome bendito, e clamavam a Ele com esse versículo — e isso não é apropriado fazer nem dizer perante o Nome bendito (o Rambam explica a sensibilidade teológica por trás dessa reforma: atribuir literalmente "sono" ao Eterno, mesmo em tom poético de súplica, era considerado por Yochanan uma forma inadequada de discurso religioso).
"Golpeadores": são pessoas que arranhavam o bezerro da oferenda entre seus chifres, para que caísse sangue em seus olhos, a fim de que não visse e fosse fácil amarrá-lo e abatê-lo. E ele se levantou e aboliu isso, pois o animal parecia ter um defeito físico, e instituiu para eles argolas fincadas no chão, para inserir nelas o pescoço do animal (uma solução alternativa e mais digna para o mesmo problema prático de conter o animal durante o abate, sem recorrer a um método que sugerisse a presença de um defeito físico impróprio para uma oferenda).
"E até seus dias o martelo batia em Jerusalém": quer dizer, durante o chol hamoed (dias intermediários da festa); e ele removeu essa prática, e impediu aqueles que batiam com martelo de fazerem seu trabalho durante o chol hamoed.
"E em seus dias ninguém mais precisava perguntar sobre o demai": pelo motivo que passamos a explicar: em seus dias, as pessoas eram leves quanto ao preceito do Nome bendito, e não separavam dos grãos senão apenas a teruma gedolá, e comiam o resto. E quem era meticuloso consigo mesmo, perguntava e investigava se havia sido dizimado ou não, ou se era demai; e quando sabia que era demai, deixava-o e não o comprava, porque seria necessário separar dele os dízimos. E quem não era meticuloso, comia-o como demai, pois lhe bastava ter separado apenas a teruma gedolá. E este cohen disse aos homens de sua geração: assim como a teruma gedolá é pecado capital (comê-la sem separar é punido com morte pelas mãos do Céu), também a teruma do dízimo e o produto não dizimado (tevel) são pecado capital; mas vos instituo algo que vos será fácil suportar, e as pessoas poderão cumpri-lo, e sereis salvos do pecado capital. E disse que do demai não se separa senão a teruma do dízimo e o segundo dízimo; a teruma do dízimo é dada ao cohen, e o segundo dízimo, seus donos o comem em Jerusalém. Mas o primeiro dízimo e o dízimo do pobre, nos anos em que se separa o dízimo do pobre, não é obrigado a separá-los do demai, mas diz ao levita ou ao pobre: "traze prova de que é tevel e toma-o", pois quem quer retirar algo de seu companheiro tem o ônus da prova. E quando instituíram esta instituição, as pessoas — todo aquele que comprava frutos de um am haaretz — não mais perguntava se era tevel ou não, mas separava deles a teruma do dízimo e o segundo dízimo, e comia o resto, considerando que os frutos de um am haaretz são demai (o Rambam explica com detalhe completo a reforma fiscal de Yochanan: em vez de exigir uma investigação caso a caso sobre a condição de cada produto comprado, ele estabeleceu uma presunção universal e uma obrigação padronizada — apenas teruma do dízimo e segundo dízimo — suficiente para afastar os pecados mais graves, tornando desnecessária a pergunta sobre a origem de cada produto individual, e assim simplificando a vida religiosa cotidiana de todo o povo).
"Yochanan, o Sumo Sacerdote": serviu no sumo sacerdócio depois de Shimon HaTzadik (uma figura ainda mais antiga e venerada na cadeia de transmissão da tradição rabínica, situando Yochanan em uma sucessão de grandes líderes espirituais do início do período do Segundo Templo). "Aboliu as declarações do dízimo": porque Ezra penalizou os levitas para que não lhes dessem o dízimo, quando subiu do exílio e os filhos de Levi não subiram com ele, e ordenou que o dízimo fosse dado aos cohanim. E Yochanan, o Sumo Sacerdote, aboliu a confissão, já que não se podia dizer "e também o dei ao levita". "Aboliu os despertadores": que os levitas diziam todo dia sobre a plataforma "Desperta, por que dormes, Eterno?". Disse-lhes: acaso há sono diante do Onipresente? Levantou-se e os aboliu. "Os golpeadores": que arranhavam o bezerro da oferenda entre seus chifres para que caísse sangue em seus olhos, para que não visse e fosse fácil amarrá-lo e abatê-lo. E ele se levantou e aboliu isso, pois parecia um animal com defeito, e instituiu para eles argolas fincadas no chão para inserir nelas o pescoço do animal. "Golpeadores" (nokfim): batedores; e seu exemplo: "ninguém golpeia seu dedo por baixo" (uma expressão idiomática talmúdica usada para ilustrar o sentido da raiz verbal). "O martelo batia em Jerusalém": ferreiros de cobre e ferro batiam com martelo para fazer trabalho de perda evitável, que é permitido no moed. E ele se levantou e os aboliu, porque fazia demasiado barulho e havia desrespeito ao moed. "E em seus dias ninguém mais precisava perguntar sobre o demai": pois ele disse aos homens de sua geração: assim como a teruma gedolá é pecado capital, também a teruma do dízimo e o tevel são pecado capital. E instituiu que se separasse do demai apenas a teruma do dízimo e o segundo dízimo, e não se separasse dele o primeiro dízimo nem o dízimo do pobre, pois podem dizer ao levita ou ao pobre: traze prova de que é tevel e toma. E, a partir dessa instituição, quem comprava frutos do mercado não mais perguntava se estavam retificados ou não, mas de imediato separava deles a teruma do dízimo e o segundo dízimo e comia o resto, pois todo aquele que compra frutos de um am haaretz, eles têm o status presumido de demai.