Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Heh · Mishná 15 (última)

"Yochanan, o Sumo Sacerdote, aboliu as declarações do dízimo"

יוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל הֶעֱבִיר הוֹדָיוֹת הַמַּעֲשֵׂר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do tratado desloca-se do plano normativo para o histórico, narrando quatro reformas realizadas por Yochanan, o Sumo Sacerdote (Yochanan Kohen Gadol) — entre elas, a abolição da própria recitação do viduy maasrot descrito nas mishnayot anteriores, motivada por uma mudança estrutural na distribuição do primeiro dízimo. Encerra-se assim, com uma nota de reflexão histórica sobre a evolução das próprias leis que o tratado acabou de expor, toda a Massechet Maaser Sheni

Yochanan, o Sumo Sacerdote, aboliu as declarações do dízimo (a própria recitação do viduy maasrot, decomposta nas mishnayot 10 a 14, foi suspensa por decreto de Yochanan Kohen Gadol — uma figura histórica do período do Segundo Templo, identificada pela tradição com Yochanan Hircano; a razão dessa abolição, segundo os comentadores, está relacionada a uma mudança na prática de doação do primeiro dízimo, que impedia a recitação sincera de uma das frases centrais da confissão). Ele também aboliu os "despertadores" (os levitas que, durante o serviço musical no Templo, costumavam recitar diariamente o versículo "Desperta, por que dormes, Eterno?" — Salmos 44:24 —, uma prática que Yochanan considerou inadequada por sugerir, mesmo que poeticamente, que o Eterno poderia estar "dormindo"), e os "golpeadores" (pessoas que faziam pequenos cortes na testa do bezerro destinado ao sacrifício, entre seus chifres, fazendo com que sangue escorresse sobre seus olhos, impedindo-o de ver e facilitando assim sua contenção e abate; Yochanan aboliu essa prática porque o animal, com essa marca, parecia ter uma deficiência física, o que poderia gerar a falsa impressão de que um animal com defeito estava sendo oferecido no altar). E até seus dias, o martelo batia em Jerusalém (artesãos do metal — ferreiros e caldeireiros — costumavam trabalhar com martelo durante os dias intermediários da festa (chol hamoed), quando certos tipos de trabalho são permitidos por se tratarem de "trabalho de perda evitável"; Yochanan também aboliu essa prática, considerando que o barulho excessivo do martelo desrespeitava a atmosfera festiva do chol hamoed). E em seus dias, ninguém mais precisava perguntar sobre o demai (demai — produto agrícola comprado de um am haaretz, uma pessoa comum de quem não se sabe com certeza se já separou corretamente teruma e dízimos; Yochanan instituiu uma reforma fiscal que simplificou a situação: uma vez que todos passaram a separar automaticamente a teruma do dízimo e o segundo dízimo de qualquer produto comprado, sem precisar investigar previamente sua condição, eliminando a necessidade prática de "perguntar" sobre a origem duvidosa de cada produto adquirido no mercado).

יוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל הֶעֱבִיר הוֹדָיוֹת הַמַּעֲשֵׂר. אַף הוּא בִּטֵּל אֶת הַמְעוֹרְרִים, וְאֶת הַנּוֹקְפִים. וְעַד יָמָיו הָיָה פַטִּישׁ מַכֶּה בִירוּשָׁלָיִם, וּבְיָמָיו אֵין אָדָם צָרִיךְ לִשְׁאוֹל עַל הַדְּמָאי:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná final relaciona-se diretamente ao texto do viduy maasrot, cuja recitação Yochanan Kohen Gadol aboliu — e explica essa abolição a partir de uma mudança histórica ocorrida precisamente na frase que a mishná 10 identificou como referente ao primeiro dízimo.

Devarim (Deuteronômio) 26:13, com o pano de fundo de Ezra 8:15
נְתַתִּיו לַלֵּוִי (דברים כו, יג). וָאֶקְבְּצֵם... וָאָבִינָה בָעָם וּבַכֹּהֲנִים, וּמִבְּנֵי לֵוִי לֹא מָצָאתִי שָׁם (עזרא ח, טו).
"Dei-o ao levita" (Devarim 26:13) — esta frase, identificada já na mishná 10 como referente ao primeiro dízimo entregue ao levita, está no centro da reforma de Yochanan Kohen Gadol. "E os reuni... e observei o povo e os cohanim, e dentre os filhos de Levi não achei ali" (Ezra 8:15) — este versículo relata que, quando Ezra o Escriba organizou o retorno do exílio babilônico, poucos levitas se apresentaram para acompanhá-lo de volta a Israel. Segundo a tradição, em resposta a essa escassez, o próprio tribunal de Ezra decretou que o primeiro dízimo — normalmente devido aos levitas — fosse temporariamente redirecionado aos cohanim, como forma de penalizar os levitas por sua relutância em retornar à Terra Santa. Yochanan Kohen Gadol, atuando gerações depois dentro dessa mesma prática já consolidada, percebeu que essa mudança tornava impossível recitar sinceramente a frase "dei-o ao levita" — pois, na prática vigente em seus dias, o primeiro dízimo já não ia mais, de fato, ao levita — e por isso aboliu a recitação de toda a confissão.

Por que uma única frase impossível de recitar invalida toda a confissão? A lógica desta última mishná retoma diretamente o princípio estabelecido na mishná 11: a confissão do dízimo exige uma correspondência exata entre a declaração verbal e a realidade dos fatos — "conforme todo o mandamento que me ordenaste" —, e quem inverte a ordem correta dos presentes, ou separa de um tipo sobre outro, "não pode se confessar". A situação criada pelo decreto de Ezra, e perpetuada até os dias de Yochanan Kohen Gadol, era estruturalmente semelhante: a frase "dei-o ao levita" deixara de refletir a prática real da distribuição do primeiro dízimo, que agora ia aos cohanim. Diante dessa discrepância entre o texto fixo da confissão bíblica e a realidade histórica vivida pelo povo, Yochanan concluiu que a única solução coerente com os próprios princípios da confissão era abolir sua recitação por completo, em vez de permitir que se recitasse um texto que já não correspondia à verdade. As demais reformas mencionadas nesta mishná — os "despertadores", os "golpeadores", e o martelo em Jerusalém — embora não diretamente relacionadas às leis de Maaser Sheni, compartilham com a abolição do viduy um mesmo espírito de reforma cuidadosa das práticas do Templo e da cidade, movida por uma sensibilidade teológica e estética refinada. E a reforma final, sobre o demai, resolve de modo elegante e sistêmico um problema que ocupou boa parte de Massechet Demai (o segundo tratado da Ordem de Zeraim): ao presumir universalmente que todo produto comprado no mercado requer separação de teruma do dízimo e segundo dízimo, elimina-se a necessidade de investigação caso a caso.

Halachot · הֲלָכוֹת

Esta mishná narra um evento histórico e uma reforma prática, e não uma norma halachica dedutível diretamente de um versículo da Torá; por isso, o Rambam não a codifica como halachá formal em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva — a última halachá desse livro (11:17, citada na mishná anterior) já trata do tema final de quem recita a confissão, sem retomar o episódio de Yochanan Kohen Gadol, que pertence ao registro histórico e não normativo. Esta ausência é registrada aqui com honestidade, sem forçar uma correspondência artificial.

Observação sobre a natureza histórica desta mishná
O relato sobre Yochanan Kohen Gadol tem paralelo em outras fontes rabínicas, notavelmente no Talmud Bavli, Massechet Sotá 48a, e em Massechet Maasrot 5:15 (a mishná final desse tratado, quase idêntica a esta), que também narra as mesmas quatro reformas com pequenas variações. O Rambam discute a mudança da distribuição do primeiro dízimo entre levitas e cohanim, decorrente do decreto de Ezra, em Hilchot Maasar (Leis do Dízimo) 1:4, tratando-a como uma penalidade histórica (kenas) imposta aos levitas, e não como uma halachá permanente e universalmente vinculante — o que explica por que ela não é formalmente repetida como norma nesta seção final de Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, que trata do viduy maasrot como instituição em si, já encerrada pela reforma de Yochanan.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta última mishná de Massechet Maaser Sheni.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:15
הֶעֱבִיר הוֹדָיַת הַמַּעֲשֵׂר. לְפִי שֶׁלֹּא הָיוּ יְכוֹלִין לוֹמַר בְּאוֹתוֹ הַזְּמַן כְּכָל מִצְוָתְךָ אֲשֶׁר צִוִּיתָנִי, לְפִי שֶׁהַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ אָמַר לָתֵת מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן לַלְוִיִּם, וְהֵם הָיוּ נוֹתְנִין אוֹתוֹ בְּאוֹתוֹ הַזְּמַן לַכֹּהֲנִים, וְזֶה הָיָה בִּגְזֵרַת בֵּית דִּינוֹ שֶׁל עֶזְרָא הַסּוֹפֵר, לְפִי שֶׁכְּשֶׁעָלָה עֶזְרָא לֹא הָלַךְ עִמּוֹ לֵוִי, כְּמוֹ שֶׁבֵּאַר בַּכָּתוּב וְאָמַר (עזרא ח, טו) וָאָבִינָה בָעָם וּבַכֹּהֲנִים, וּמִבְּנֵי לֵוִי לֹא מָצָאתִי שָׁם, קָנַס הַלְוִיִּם שֶׁלֹּא יִתְּנוּ לָהֶם מַעֲשֵׂר וְשֶׁיִּנָּתֵן לַכֹּהֲנִים. וּמְעוֹרְרִים. הֵם הַלְוִיִּם שֶׁהָיוּ אוֹמְרִים בְּכָל יוֹם בִּשְׁעַת קְרִיאַת הַשִּׁיר עַל הַקָּרְבָּן, עוּרָה לָמָּה תִישַׁן ה' (תהילים מד, כד), וְהוּא שֶׁתְּקָם מִזֶּה וְצִוָּה שֶׁלֹּא לוֹמַר עוֹד, לְפִי שֶׁהֵם הָיוּ אוֹמְרִים זֶה הַפָּסוּק כְּאִלּוּ הָיוּ מְדַבְּרִים עִם הַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ, וְהָיוּ צוֹעֲקִים אֵלָיו בָּזֶה הַפָּסוּק, וְזֶה מַה שֶּׁאֵינוֹ רָאוּי לַעֲשׂוֹת וְלוֹמַר כְּלַפֵּי הַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ. וְנוֹקְפִין. הֵם בְּנֵי אָדָם שֶׁהָיוּ שׂוֹרְטִין לָעֵגֶל שֶׁל קָרְבָּן בֵּין קַרְנָיו, כְּדֵי שֶׁיִּפֹּל לוֹ דָּם בְּעֵינָיו, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִרְאֶה וְיִהְיֶה נוֹחַ לְכָפְתוֹ וּלְשָׁחֲטוֹ. וְעָמַד הוּא וּבִטְּלוֹ, שֶׁנִּרְאֶה כְּבַעַל מוּם, וְהִתְקִין לָהֶם טַבָּעוֹת בַּקַּרְקַע לְהַכְנִיס צַוַּאר הַבְּהֵמָה לְתוֹכָהּ. וְעַד יָמָיו הָיָה פַטִּישׁ מַכֶּה בִירוּשָׁלָיִם. רוֹצֶה בָּזֶה, כְּלוֹמַר בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד, וְהוּא הֵסִיר זֶה הַמַּעֲשֶׂה וּמָנַע אוֹתָן שֶׁהָיוּ מַכִּין בְּפַטִּישׁ שֶׁלֹּא יַעֲשׂוּ מְלַאכְתָּן בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד. וּבְיָמָיו אֵין אָדָם צָרִיךְ לִשְׁאוֹל עַל הַדְּמָאי. מִפְּנֵי טַעַם אֲגִידֶנּוּ לְךָ, וְהוּא כִּי בְּיָמָיו הָיוּ בְּנֵי אָדָם מְקִלִּין בְּחֹק הַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ, וְלֹא הָיוּ מוֹצִיאִין מִן הַזְּרָעִים אֶלָּא תְּרוּמָה גְדוֹלָה בִּלְבַד, וְהָיוּ אוֹכְלִים הַשְּׁאָר. וּמִי שֶׁהָיָה מְדַקְדֵּק עַל עַצְמוֹ, הָיוּ שׁוֹאֲלִין וְחוֹקְרִים אִם הָיָה מְעֻשָּׂר אִם לָאו, אוֹ מַעֲשֵׂר דְּמַאי, וּכְשֶׁהָיָה יוֹדֵעַ שֶׁהָיָה דְּמַאי, הָיָה מַנִּיחוֹ וְלֹא הָיָה לוֹקְחוֹ, מִפְּנֵי שֶׁהָיָה צָרִיךְ לְהוֹצִיא מִמֶּנּוּ הַמַּעַשְׂרוֹת. וּמִי שֶׁלֹּא הָיָה מְדַקְדֵּק, הָיָה אוֹכְלוֹ דְּמַאי, לְפִי שֶׁהָיָה דַּי לוֹ בְּהוֹצָאַת תְּרוּמָה גְדוֹלָה בִּלְבַד. וְזֶה הַכֹּהֵן אָמַר לְאַנְשֵׁי דוֹרוֹ: כְּשֵׁם שֶׁתְּרוּמָה גְדוֹלָה עֲוֹן מִיתָה, כֵּן תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר וְטֶבֶל עֲוֹן מִיתָה, אֲבָל נִתְקַן לָכֶם דָּבָר שֶׁיִּהְיֶה קַל לָכֶם לְסָבְלוֹ וּבְנֵי אָדָם יוּכְלוּ לַעֲמֹד בּוֹ, וְתִנָּצְלוּ מֵעֲוֹן מִיתָה. וְאָמַר כִּי הַדְּמַאי אֵין מוֹצִיאִין מִמֶּנּוּ אֶלָּא תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי; תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר תִּנָּתֵן לַכֹּהֵן, וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי יֹאכְלוּ אוֹתוֹ בְּעָלָיו בִּירוּשָׁלַיִם. אֲבָל מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וּמַעְשַׂר עָנִי, בְּאוֹתָן הַשָּׁנִים שֶׁמּוֹצִיאִין בָּהֶן מַעֲשַׂר עָנִי, אֵינוֹ חַיָּב לְהוֹצִיאוֹ מִן הַדְּמַאי, אֲבָל אוֹמֵר לַלֵּוִי אוֹ לֶעָנִי: הָבֵא רְאָיָה שֶׁהוּא טֶבֶל וְטֹל, שֶׁהֲרֵי הַמּוֹצִיא מֵחֲבֵרוֹ עָלָיו הָרְאָיָה. וְכַאֲשֶׁר הִתְקִינוּ זֹאת הַתַּקָּנָה, הָיוּ בְּנֵי אָדָם, כָּל מִי שֶׁלָּקַח פֵּרוֹת מֵעַם הָאָרֶץ, לֹא הָיָה שׁוֹאֵל אוֹתוֹ כְּלָל אִם הָיָה טֶבֶל אִם לָאו, אֶלָּא הָיָה מוֹצִיא מֵהֶם תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְאוֹכֵל אֶת הַשְּׁאָר, כֵּיוָן שֶׁפֵּרוֹת עַם הָאָרֶץ דְּמַאי.

"Aboliu a declaração do dízimo": porque não podiam dizer naquele tempo "conforme todo o mandamento que me ordenaste", já que o Nome bendito ordenou dar o primeiro dízimo aos levitas, e eles, naquele tempo, o davam aos cohanim — e isso foi por decreto do tribunal de Ezra o Escriba, pois quando Ezra subiu à Terra de Israel, nenhum levita foi com ele, como está explicado no versículo: "e observei o povo e os cohanim, e dentre os filhos de Levi não achei ali" (Ezra 8:15) — penalizou os levitas para que não lhes dessem mais o dízimo, e que fosse dado aos cohanim (o Rambam reconstrói com precisão histórica a cadeia causal completa: a ausência dos levitas no retorno liderado por Ezra levou a uma penalidade que redirecionou o primeiro dízimo aos cohanim, tornando definitivamente impossível, gerações depois, a recitação sincera da frase "dei-o ao levita").

"Despertadores": são os levitas que diziam todo dia, no momento da recitação do cântico sobre a oferenda, "Desperta, por que dormes, Eterno?" (Salmos 44:24); e ele os fez cessar disso, e ordenou que não dissessem mais, pois eles recitavam esse versículo como se estivessem falando diretamente com o Nome bendito, e clamavam a Ele com esse versículo — e isso não é apropriado fazer nem dizer perante o Nome bendito (o Rambam explica a sensibilidade teológica por trás dessa reforma: atribuir literalmente "sono" ao Eterno, mesmo em tom poético de súplica, era considerado por Yochanan uma forma inadequada de discurso religioso).

"Golpeadores": são pessoas que arranhavam o bezerro da oferenda entre seus chifres, para que caísse sangue em seus olhos, a fim de que não visse e fosse fácil amarrá-lo e abatê-lo. E ele se levantou e aboliu isso, pois o animal parecia ter um defeito físico, e instituiu para eles argolas fincadas no chão, para inserir nelas o pescoço do animal (uma solução alternativa e mais digna para o mesmo problema prático de conter o animal durante o abate, sem recorrer a um método que sugerisse a presença de um defeito físico impróprio para uma oferenda).

"E até seus dias o martelo batia em Jerusalém": quer dizer, durante o chol hamoed (dias intermediários da festa); e ele removeu essa prática, e impediu aqueles que batiam com martelo de fazerem seu trabalho durante o chol hamoed.

"E em seus dias ninguém mais precisava perguntar sobre o demai": pelo motivo que passamos a explicar: em seus dias, as pessoas eram leves quanto ao preceito do Nome bendito, e não separavam dos grãos senão apenas a teruma gedolá, e comiam o resto. E quem era meticuloso consigo mesmo, perguntava e investigava se havia sido dizimado ou não, ou se era demai; e quando sabia que era demai, deixava-o e não o comprava, porque seria necessário separar dele os dízimos. E quem não era meticuloso, comia-o como demai, pois lhe bastava ter separado apenas a teruma gedolá. E este cohen disse aos homens de sua geração: assim como a teruma gedolá é pecado capital (comê-la sem separar é punido com morte pelas mãos do Céu), também a teruma do dízimo e o produto não dizimado (tevel) são pecado capital; mas vos instituo algo que vos será fácil suportar, e as pessoas poderão cumpri-lo, e sereis salvos do pecado capital. E disse que do demai não se separa senão a teruma do dízimo e o segundo dízimo; a teruma do dízimo é dada ao cohen, e o segundo dízimo, seus donos o comem em Jerusalém. Mas o primeiro dízimo e o dízimo do pobre, nos anos em que se separa o dízimo do pobre, não é obrigado a separá-los do demai, mas diz ao levita ou ao pobre: "traze prova de que é tevel e toma-o", pois quem quer retirar algo de seu companheiro tem o ônus da prova. E quando instituíram esta instituição, as pessoas — todo aquele que comprava frutos de um am haaretz — não mais perguntava se era tevel ou não, mas separava deles a teruma do dízimo e o segundo dízimo, e comia o resto, considerando que os frutos de um am haaretz são demai (o Rambam explica com detalhe completo a reforma fiscal de Yochanan: em vez de exigir uma investigação caso a caso sobre a condição de cada produto comprado, ele estabeleceu uma presunção universal e uma obrigação padronizada — apenas teruma do dízimo e segundo dízimo — suficiente para afastar os pecados mais graves, tornando desnecessária a pergunta sobre a origem de cada produto individual, e assim simplificando a vida religiosa cotidiana de todo o povo).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:15
יוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל. שִׁמֵּשׁ בִּכְהֻנָּה גְדוֹלָה אַחַר שִׁמְעוֹן הַצַּדִּיק. הֶעֱבִיר הוֹדָיוֹת הַמַּעֲשֵׂר. לְפִי שֶׁעֶזְרָא קָנַס אֶת הַלְּוִיִּם שֶׁלֹּא יִתְּנוּ לָהֶם מַעֲשֵׂר, כְּשֶׁעָלָה מִן הַגּוֹלָה וּבְנֵי לֵוִי לֹא עָלוּ עִמּוֹ, וְצִוָּה שֶׁיִּתְּנוּ הַמַּעֲשֵׂר לַכֹּהֲנִים. וְיוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל בִּטֵּל אֶת הַוִּדּוּי, כֵּיוָן שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לוֹמַר וְגַם נְתַתִּיו לַלֵּוִי. בִּטֵּל אֶת הַמְעוֹרְרִים. שֶׁהָיוּ הַלְּוִיִּם אוֹמְרִים בְּכָל יוֹם עַל הַדּוּכָן, עוּרָה לָמָּה תִישַׁן ה'. אָמַר לָהֶם, וְכִי יֵשׁ שֵׁנָה לִפְנֵי הַמָּקוֹם? עָמַד וּבִטְּלָן. אֶת הַנּוֹקְפִים. שֶׁהָיוּ מְשָׂרְטִין לָעֵגֶל שֶׁל קָרְבָּן בֵּין קַרְנָיו כְּדֵי שֶׁיִּפֹּל לוֹ דָּם בְּעֵינָיו, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִרְאֶה וְיִהְיֶה נֹחַ לְכָפְתוֹ וּלְשָׁחֲטוֹ. וְעָמַד הוּא וּבִטְּלוֹ, שֶׁנִּרְאֶה כְבַעַל מוּם, וְהִתְקִין לָהֶם טַבָּעוֹת בַּקַּרְקַע לְהַכְנִיס צַוַּאר הַבְּהֵמָה לְתוֹכָהּ. נוֹקְפִים, מַכִּים, וְדֻגְמָתוֹ: אֵין אָדָם נוֹקֵף אֶצְבָּעוֹ מִלְּמַטָּה. הָיָה פַטִּישׁ מַכֶּה בִירוּשָׁלָיִם. חָרָשֵׁי נְחֹשֶׁת וּבַרְזֶל הָיוּ מַכִּין בְּפַטִּישׁ לַעֲשׂוֹת מְלֶאכֶת הָאָבֵד שֶׁהִיא מֻתֶּרֶת בַּמּוֹעֵד. וְעָמַד הוּא וּבִטְּלָם, מִשּׁוּם דְּאַוְּשָׁא מִלְּתָא טוּבָא וְאִיכָּא זִלְזוּל מוֹעֵד. וּבְיָמָיו אֵין אָדָם צָרִיךְ לִשְׁאוֹל עַל הַדְּמָאי. שֶׁהוּא אָמַר לִבְנֵי דוֹרוֹ, כְּשֵׁם שֶׁתְּרוּמָה גְדוֹלָה עֲוֹן מִיתָה, כָּךְ תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר וְטֶבֶל עֲוֹן מִיתָה. וְתִקֵּן שֶׁיּוֹצִיאוּ מִן הַדְּמַאי תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּלְבָד, וְלֹא יוֹצִיאוּ מִמֶּנּוּ מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וְלֹא מַעְשַׂר עָנִי, שֶׁיְּכוֹלִים לוֹמַר לַלֵּוִי אוֹ לֶעָנִי הָבֵא רְאָיָה שֶׁהוּא טֶבֶל וְטֹל. וּמִתַּקָּנָה זוֹ וְאֵילָךְ, הַלּוֹקֵחַ פֵּרוֹת מִן הַשּׁוּק לֹא הָיָה שׁוֹאֵל אִם הֵם מְתֻקָּנִים אִם לָאו, אֶלָּא מִיָּד מַפְרִישׁ מֵהֶן תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְאוֹכֵל אֶת הַשְּׁאָר, שֶׁכָּל הַלּוֹקֵחַ פֵּרוֹת מֵעַם הָאָרֶץ הֵם בְּחֶזְקַת דְּמַאי.

"Yochanan, o Sumo Sacerdote": serviu no sumo sacerdócio depois de Shimon HaTzadik (uma figura ainda mais antiga e venerada na cadeia de transmissão da tradição rabínica, situando Yochanan em uma sucessão de grandes líderes espirituais do início do período do Segundo Templo). "Aboliu as declarações do dízimo": porque Ezra penalizou os levitas para que não lhes dessem o dízimo, quando subiu do exílio e os filhos de Levi não subiram com ele, e ordenou que o dízimo fosse dado aos cohanim. E Yochanan, o Sumo Sacerdote, aboliu a confissão, já que não se podia dizer "e também o dei ao levita". "Aboliu os despertadores": que os levitas diziam todo dia sobre a plataforma "Desperta, por que dormes, Eterno?". Disse-lhes: acaso há sono diante do Onipresente? Levantou-se e os aboliu. "Os golpeadores": que arranhavam o bezerro da oferenda entre seus chifres para que caísse sangue em seus olhos, para que não visse e fosse fácil amarrá-lo e abatê-lo. E ele se levantou e aboliu isso, pois parecia um animal com defeito, e instituiu para eles argolas fincadas no chão para inserir nelas o pescoço do animal. "Golpeadores" (nokfim): batedores; e seu exemplo: "ninguém golpeia seu dedo por baixo" (uma expressão idiomática talmúdica usada para ilustrar o sentido da raiz verbal). "O martelo batia em Jerusalém": ferreiros de cobre e ferro batiam com martelo para fazer trabalho de perda evitável, que é permitido no moed. E ele se levantou e os aboliu, porque fazia demasiado barulho e havia desrespeito ao moed. "E em seus dias ninguém mais precisava perguntar sobre o demai": pois ele disse aos homens de sua geração: assim como a teruma gedolá é pecado capital, também a teruma do dízimo e o tevel são pecado capital. E instituiu que se separasse do demai apenas a teruma do dízimo e o segundo dízimo, e não se separasse dele o primeiro dízimo nem o dízimo do pobre, pois podem dizer ao levita ou ao pobre: traze prova de que é tevel e toma. E, a partir dessa instituição, quem comprava frutos do mercado não mais perguntava se estavam retificados ou não, mas de imediato separava deles a teruma do dízimo e o segundo dízimo e comia o resto, pois todo aquele que compra frutos de um am haaretz, eles têm o status presumido de demai.

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná encerra-se o quinto e último perek de Massechet Maaser Sheni: os sinais de identificação do vinhedo de quarto ano e a geografia de sua subida a Jerusalém (mishnayot 1-2); o debate entre Bet Shammai e Bet Hillel sobre sua equiparação ao segundo dízimo, e o procedimento técnico de seu resgate (mishnayot 3-5); o biur — a remoção obrigatória dos presentes agrícolas na véspera do último Pessach do terceiro e sexto ano do ciclo sabático, culminando no episódio de Rabban Gamliel e os sábios em alto-mar (mishnayot 6-9); e o viduy maasrot — a confissão ritual decomposta frase por frase a partir de Devarim 26:13-15, e as condições de sua validade, incluindo quem está apto a recitá-la (mishnayot 10-14) — encerrando-se finalmente com esta última mishná, que narra a abolição histórica dessa mesma confissão pelas mãos de Yochanan Kohen Gadol, junto com três outras reformas do Templo e da cidade de Jerusalém.
סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי
Aqui se conclui Massechet Maaser Sheni — cinco perakim, cinquenta e sete mishnayot, sobre as leis do segundo dízimo: sua natureza como "dinheiro do Alto" (mamon gavoah), o dízimo de gado, e as compras válidas e inválidas com seu dinheiro (Perek Alef); os três usos permitidos — comer, beber e untar —, o hishbach, e as formas de resgate do dinheiro do dízimo (Perek Bet); o câmbio entre Jerusalém e a medina, os limites físicos da cidade e do Templo, a impureza do dízimo, e as leis dos jarros de vinho (Perek Guimel); as leis completas do resgate (pidyon) — critérios de preço, o acréscimo do quinto e seus artifícios lícitos, e os casos de dúvida sobre dinheiro e objetos encontrados (Perek Dalet); e, neste último perek, a plantação de quarto ano (neta revai) equiparada ao segundo dízimo, o biur que remove os presentes agrícolas remanescentes na época devida, e o viduy maasrot que confessa esse cumprimento perante o Eterno — encerrado historicamente pela reforma de Yochanan Kohen Gadol (Perek Heh). Como Peá, Demai, Kilayim, Sheviit, Terumot e Maasrot, Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli, e por isso todo o seu perush, ao longo dos cinco perakim, apoiou-se no Rambam (Perush HaMishná e Mishné Torá) e no Bartenura, sem a presença de Rashi.