Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Heh · Mishná 3

"Vinhedo de quarto ano: Bet Shammai diz não tem quinto nem biur"

כֶּרֶם רְבָעִי, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אֵין לוֹ חֹמֶשׁ וְאֵין לוֹ בִעוּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de tratar dos sinais de identificação e da geografia da subida a Jerusalém, a mishná chega ao debate central que determina até que ponto o vinhedo de quarto ano é realmente equiparado ao segundo dízimo: Bet Shammai e Bet Hillel divergem tanto sobre se ele exige o acréscimo do quinto (chomesh) e a remoção (biur) quanto sobre se continua sujeito às leis agrícolas comuns de um vinhedo — peret e olelot, que beneficiam os pobres

O vinhedo de quarto ano: Bet Shammai diz: não tem quinto e não tem biur (a escola de Shammai sustenta que as leis específicas do segundo dízimo — o acréscimo de um quinto do valor ao resgatá-lo para si mesmo, e a obrigação de removê-lo da casa na época do biur — não se estendem ao vinhedo de quarto ano, por mais que a Torá o chame de "kodesh"; para Bet Shammai, essa palavra por si só não basta para importar todas as leis do segundo dízimo). E Bet Hillel diz: tem (a escola de Hillel sustenta o oposto: a mesma palavra "kodesh" que descreve tanto o segundo dízimo quanto o vinhedo de quarto ano é suficiente, por meio de uma comparação verbal (gzerá shavá), para estender todas as leis do segundo dízimo — incluindo quinto e biur — também ao vinhedo de quarto ano). Bet Shammai diz: tem peret e tem olelot, e os pobres podem resgatar para si mesmos (peret são os cachos caídos durante a colheita, e olelot são os cachos pequenos e incompletos — ambos, segundo a Torá, Vaicrá 19:10, devem ser deixados no vinhedo para os pobres; Bet Shammai sustenta que, como o vinhedo de quarto ano continua sendo propriedade comum do dono — mamon baalim — e não "dinheiro do Alto" como o dízimo, essas leis agrícolas comuns continuam se aplicando normalmente, e os pobres que colhem peret e olelot podem resgatar esses cachos para si e consumir o valor em Jerusalém). E Bet Hillel diz: tudo vai para o lagar (a escola de Hillel, consistente com sua posição de que o vinhedo de quarto ano é inteiramente equiparado ao dízimo — portanto "dinheiro do Alto" e não propriedade comum do dono —, sustenta que não há lugar para as leis de peret e olelot: toda a colheita, sem exceção para cachos caídos ou incompletos, é levada ao lagar como uma unidade só, pertencente inteiramente à santidade do dízimo).

כֶּרֶם רְבָעִי, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵין לוֹ חֹמֶשׁ וְאֵין לוֹ בִעוּר. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, יֶשׁ לוֹ. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, יֶשׁ לוֹ פֶרֶט וְיֶשׁ לוֹ עוֹלְלוֹת, וְהָעֲנִיִּים פּוֹדִין לְעַצְמָן. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, כֻּלּוֹ לַגָּת:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O debate desta mishná nasce diretamente de uma leitura comparativa entre dois versículos que empregam a mesma palavra-chave — "kodesh" — para descrever, respectivamente, o vinhedo de quarto ano e o dízimo em geral.

Vaicrá (Levítico) 19:24 e 27:30
וּבַשָּׁנָה הָרְבִיעִת יִהְיֶה כָּל פִּרְיוֹ קֹדֶשׁ הִלּוּלִים לַה' (יט, כד). וְכָל מַעְשַׂר הָאָרֶץ... קֹדֶשׁ לַה' (כז, ל).
"E no quarto ano, todo o seu fruto será sagrado (kodesh), louvores ao Eterno" (Vaicrá 19:24). "E todo dízimo da terra... é sagrado (kodesh) ao Eterno" (Vaicrá 27:30) — Bet Hillel lê a repetição da palavra "kodesh" em ambos os versículos como uma gzerá shavá, um princípio hermenêutico tradicional pelo qual duas leis que compartilham a mesma palavra-chave têm suas regras mutuamente importadas: assim como o dízimo, por ser "kodesh", exige o acréscimo do quinto e está sujeito ao biur, também o vinhedo de quarto ano, igualmente chamado "kodesh", herda essas mesmas obrigações. Bet Shammai, por sua vez, não aceita essa comparação verbal como suficiente para importar leis tão específicas — para eles, a palavra "kodesh" apenas estabelece o caráter geral de santidade do fruto (exigindo consumo em Jerusalém ou resgate), sem necessariamente trazer consigo cada detalhe técnico das leis do segundo dízimo.

Duas disputas, uma só lógica subjacente. As duas partes da mishná — quinto e biur de um lado, peret e olelot do outro — não são disputas independentes, mas expressões da mesma divergência fundamental entre as escolas: o vinhedo de quarto ano é "mamon gavoah" (dinheiro do Alto, pertencente inteiramente à santidade, como o dízimo) ou "mamon baalim" (propriedade comum do dono, sujeita apenas a uma restrição especial de consumo)? Bet Hillel, ao afirmar que tem quinto e biur, sustenta a primeira posição — e por isso, coerentemente, nega as leis de peret e olelot, que só fazem sentido para um vinhedo que ainda pertence ao dono comum (pois apenas o dono tem a obrigação de deixar cachos para os pobres; o "dinheiro do Alto" não tem dono no sentido comum). Bet Shammai, ao negar quinto e biur, sustenta a segunda posição — e por isso, coerentemente, afirma que peret e olelot continuam se aplicando, como em qualquer vinhedo comum, permitindo inclusive que os pobres colham e resgatem para si mesmos, algo inconcebível se o vinhedo fosse propriedade sagrada e centralizada como o dízimo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam decide a halachá como Bet Hillel — a posição predominante na Mishná — em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 9, halachot 2 e 4.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 9:2, 9:4
"Quem deseja resgatar o vinhedo de quarto ano, resgata-o como o segundo dízimo; e se o resgatou para si mesmo, acrescenta um quinto (o Rambam decide como Bet Hillel: o vinhedo de quarto ano tem, sim, a lei do acréscimo do quinto, exatamente como o segundo dízimo). Vinhedo de quarto ano não tem esquecimento (shichechá), nem peá, nem peret, nem olelot; e não se separa dele teruma e dízimos, do mesmo modo que não se separam do segundo dízimo (também aqui o Rambam decide como Bet Hillel: por ser equiparado inteiramente ao dízimo — dinheiro do Alto —, o vinhedo de quarto ano não está sujeito às leis agrícolas comuns que beneficiam os pobres, e é levado ao lagar como uma unidade só)." (quanto ao biur, o Rambam também aplica ao vinhedo de quarto ano a mesma obrigação de remoção do segundo dízimo, tratada mais adiante em seu capítulo 11, junto com o viduy maasrot — mantendo a coerência integral com a posição de Bet Hillel em toda a extensão da comparação com o dízimo)

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:3
אָמַר הַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ בְּכֶרֶם רְבָעִי, קֹדֶשׁ הִלּוּלִים לַה' (ויקרא י״ט:כ״ד), וְאָמַר בְּמַעֲשֵׂר, קֹדֶשׁ לַה' (שם כז). בֵּית הִלֵּל דָּרְשֵׁי קֹדֶשׁ קֹדֶשׁ, וְאוֹמְרִים: כְּמוֹ שֶׁמִּי שֶׁפָּדָה מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלּוֹ יוֹסִיף חֹמֶשׁ וְחַיָּב בְּבִעוּר, כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בָּזֶה הַפֶּרֶק, כָּכָה הַדִּין בְּכֶרֶם רְבָעִי. וּבֵית שַׁמַּאי לֹא דָּרְשֵׁי קֹדֶשׁ קֹדֶשׁ, אֲבָל אוֹמְרִים: כֵּיוָן שֶׁלֹּא נִתְבָּאֵר בַּתּוֹרָה זֶה הַדִּין, לֹא נְחַיֵּב אוֹתוֹ בּוֹ. וּכְמוֹ כֵן אוֹמְרִים בֵּית הִלֵּל: מַעֲשֵׂר מָמוֹן גָּבוֹהַּ הוּא, כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ; וְהֵם אוֹמְרִים: נִלְמַד כֶּרֶם רְבָעִי מִן הַמַּעֲשֵׂר בְּכָל דִּינָיו, וּלְפִיכָךְ אֵינוֹ חַיָּב בְּפֶרֶט וְלֹא בְעוֹלְלוֹת, לְפִי שֶׁהוּא מָמוֹן גָּבוֹהַּ, אֲבָל דּוֹרְכִים אוֹתוֹ כֻּלּוֹ, וְזֶהוּ מַאֲמָרָם כֻּלּוֹ לַגָּת. וּבֵית שַׁמַּאי אוֹמְרִים שֶׁהוּא מָמוֹן בְּעָלִים, וְחַיָּב בְּפֶרֶט וּבְעוֹלְלוֹת.

Disse o Nome bendito sobre o vinhedo de quarto ano: "sagrado, louvores ao Eterno" (Vaicrá 19:24), e disse sobre o dízimo: "sagrado ao Eterno" (ibid. 27). Bet Hillel interpreta "kodesh" e "kodesh" (por meio da comparação verbal), dizendo: assim como aquele que resgata seu próprio segundo dízimo deve acrescentar um quinto e está sujeito ao biur, como se explicará neste perek, assim é a lei do vinhedo de quarto ano. E Bet Shammai não interpreta "kodesh" e "kodesh" dessa forma, mas diz: já que essa lei não foi explicitada na Torá (especificamente para o vinhedo de quarto ano), não o obrigaremos nela. E do mesmo modo diz Bet Hillel: o dízimo é dinheiro do Alto, como já explicamos; e eles dizem: aprendemos o vinhedo de quarto ano do dízimo em todas as suas leis, e por isso não está sujeito a peret nem a olelot, pois é dinheiro do Alto, mas o pisam todo junto no lagar — e este é o sentido de seu dito "tudo vai para o lagar". E Bet Shammai diz que é dinheiro do dono, e por isso está sujeito a peret e a olelot.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:3
אֵין לוֹ חֹמֶשׁ. אֵין הַבְּעָלִים צְרִיכִין לְהוֹסִיף חֹמֶשׁ כְּשֶׁפּוֹדִים אוֹתוֹ. וְאֵין לוֹ בִעוּר. בְּשָׁנָה שְׁלִישִׁית וְשִׁשִּׁית [נֹסַח אַחֵר: רְבִיעִית וּשְׁבִיעִית] שֶׁהַמַּעַשְׂרוֹת מִתְבַּעֲרִין, דְּחֹמֶשׁ וּבִעוּר לֹא נֶאֶמְרוּ בְּכֶרֶם רְבָעִי אֶלָּא בְמַעֲשֵׂר. וּמִיהוּ מוֹדוּ בֵית שַׁמַּאי דְּפִדְיוֹן מִיהָא אִית לֵיהּ, וְאַף עַל גַּב דְּלֹא נֶאֱמַר פִּדְיוֹן בַּמִּקְרָא בְּכֶרֶם רְבָעִי, דְּיָלְפֵי לֵיהּ מִדִּכְתִיב (ויקרא יט) קֹדֶשׁ הִלּוּלִים, קָרֵי בֵיהּ חִלּוּלִים, אַחְלֵיהּ וְהָדַר אָכְלֵיהּ. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים יֶשׁ לוֹ. דְּיָלְפֵי קֹדֶשׁ קֹדֶשׁ מִמַּעֲשֵׂר, לִתֵּן לוֹ כָּל דִּין מַעֲשֵׂר. יֶשׁ לוֹ פֶרֶט וְיֶשׁ לוֹ עוֹלְלוֹת. דְּסָבְרֵי מָמוֹן בְּעָלִים הוּא וְלֹא מָמוֹן גָּבוֹהַּ, הִלְכָּךְ חַיָּב בְּפֶרֶט וּבְעוֹלְלוֹת כְּכָל כֶּרֶם דְּעַלְמָא. וְהָעֲנִיִּים שֶׁמְּלַקְּטִים הַפֶּרֶט וְעוֹלְלוֹת מִכֶּרֶם רְבָעִי, פּוֹדִין לְעַצְמָן וְאוֹכְלִין הַפִּדְיוֹן בִּירוּשָׁלַיִם. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים כֻּלּוֹ לַגָּת. דְּסָבְרֵי מָמוֹן גָּבוֹהַּ הוּא כְּמוֹ מַעֲשֵׂר, הִלְכָּךְ אֵין לוֹ פֶרֶט וְעוֹלְלוֹת, אֶלָּא דּוֹרְכִים אוֹתוֹ כֻּלּוֹ כְּאַחַת, וּמַעֲלֶה וְאוֹכֵל בִּירוּשָׁלַיִם, אוֹ פוֹדֵהוּ וּמַעֲלֶה הַדָּמִים לִירוּשָׁלַיִם.

"Não tem quinto": os donos não precisam acrescentar um quinto quando o resgatam. "E não tem biur": no terceiro e sexto ano (segundo outra versão: quarto e sétimo), quando os dízimos são removidos — pois quinto e biur não foram ditos sobre o vinhedo de quarto ano, mas apenas sobre o dízimo. Porém Bet Shammai reconhece que ao menos o resgate se aplica a ele, e embora o resgate não esteja explícito na Torá quanto ao vinhedo de quarto ano, deduzem-no do que está escrito "kodesh hilulim" — leem nele "chilulim" (de "chilul", resgate): resgata-o e depois o come (um jogo fonético entre "hilulim", louvores, e "chilulim", que sugere resgate — mesmo Bet Shammai, que rejeita a comparação total com o dízimo, aceita esta leitura mínima que estabelece ao menos a possibilidade de resgate). "E Bet Hillel diz: tem": pois deduzem "kodesh" e "kodesh" do dízimo, para lhe dar toda a lei do dízimo. "Tem peret e tem olelot": pois entendem que é dinheiro do dono e não dinheiro do Alto; por isso está sujeito a peret e a olelot como qualquer vinhedo comum. E os pobres que colhem o peret e as olelot do vinhedo de quarto ano resgatam para si mesmos e comem o resgate em Jerusalém. "E Bet Hillel diz: tudo vai para o lagar": pois entendem que é dinheiro do Alto como o dízimo; por isso não tem peret nem olelot, mas pisam-no todo de uma vez, e sobe e come em Jerusalém, ou resgata e leva o dinheiro a Jerusalém.

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Esta terceira mishná registra o debate central entre Bet Shammai e Bet Hillel sobre o grau de equiparação entre o vinhedo de quarto ano e o segundo dízimo — quinto, biur, peret e olelot —, decidido na halachá como Bet Hillel — mishná 3.