Seder Zeraim · Massechet Maasrot · Perek Alef · Mishná 5

"Qual é o granário para os dízimos?"

אֵיזֶהוּ גָּרְנָן לַמַּעַשְׂרוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Muda-se o tema: já sabendo quando cada fruto se torna "alimento" obrigado ao dízimo em princípio, esta mishná pergunta quando essa obrigação se torna efetiva a ponto de proibir o consumo casual (akhilat ar'ai) — o equivalente ao "granário" da tebuá bíblica

Qual é o granário para os dízimos? (isto é, o ponto equivalente, para cada produto, ao momento em que o grão na eira se torna proibido ao consumo casual). Os pepinos e as abóboras, desde que se remove a penugem (a fina camada de pelos que os cobre quando ainda jovens). E se não remove a penugem, desde que se faz um monte (empilhando-os juntos, sinal de que o processo de colheita terminou). A melancia, desde que se lava (removendo a sujeira que a cobre). E se não a lava, até que se faça o "muktzê" (alinhando-as lado a lado no local designado, já que melancias não se empilham). O vegetal amarrado, desde que se amarra (em molhos, como costuma ser vendido). Se não amarra, até que se encha o utensílio (o cesto ou recipiente que pretende usar). E se não enche o utensílio, até que colha tudo o que deseja colher. O cesto, até que se cubra (com folhas ou ramos, como é costume ao final da colheita). Se não vai cobri-lo, até que se encha o utensílio. E se não enche o utensílio, até que colha tudo o que deseja colher. Quando se aplica isso? Quando se leva ao mercado (para vender). Mas quando se leva para sua própria casa, come-se dele casualmente até que chegue à sua casa (pois, sendo a intenção do dono determinante, e não havendo ainda decisão final sobre venda, permite-se o consumo casual até a entrada efetiva em casa).

אֵיזֶהוּ גָּרְנָן לַמַּעַשְׂרוֹת. הַקִּשּׁוּאִים וְהַדְּלוּעִים, מִשֶּׁיְּפַקְסוּ. וְאִם אֵינוֹ מְפַקֵּס, מִשֶּׁיַּעֲמִיד עֲרֵמָה. אֲבַטִּיחַ, מִשֶּׁיְּשַׁלֵּק. וְאִם אֵינוֹ מְשַׁלֵּק, עַד שֶׁיַּעֲשֶׂה מֻקְצֶה. יָרָק הַנֶּאֱגָד, מִשֶּׁיֹּאגַד. אִם אֵינוֹ אוֹגֵד, עַד שֶׁיְּמַלֵּא אֶת הַכְּלִי. וְאִם אֵינוֹ מְמַלֵּא אֶת הַכְּלִי, עַד שֶׁיְּלַקֵּט כָּל צָרְכּוֹ. כַּלְכָּלָה, עַד שֶׁיְּחַפֶּה. וְאִם אֵינוֹ מְחַפֶּה, עַד שֶׁיְמַלֵּא אֶת הַכְּלִי. וְאִם אֵינוֹ מְמַלֵּא אֶת הַכְּלִי, עַד שֶׁיְּלַקֵּט כָּל צָרְכּוֹ. בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִים, בְּמוֹלִיךְ לַשּׁוּק. אֲבָל בְּמוֹלִיךְ לְבֵיתוֹ, אוֹכֵל מֵהֶם עֲרַאי עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְבֵיתוֹ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Com esta mishná inicia-se a segunda metade do Perek Alef, dedicada não mais a quando o produto se torna "alimento" em princípio, mas a quando ele se torna efetivamente "fixado" (kavúa) ao dízimo, encerrando a permissão de comer casualmente.

Devarim (Deuteronômio) 26:13
בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת, וְגַם נְתַתִּיו לַלֵּוִי וְלַגֵּר לַיָּתוֹם וְלָאַלְמָנָה.
"Removi o que é sagrado da casa, e também o dei ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva" (Devarim 26:13) — a expressão "da casa" ensina que o produto agrícola (tevel) só se obriga plenamente ao dízimo quando "vê a face da casa" — isto é, quando entra efetivamente na residência do dono com a intenção de ali permanecer. Até esse momento, mesmo depois de "granado" no campo, permite-se o consumo casual daquele que leva o produto para sua própria casa, pois a fixação plena da obrigação depende da chegada final ao lar.

Por que a mishná distingue entre levar ao mercado e levar para casa? Levar ao mercado implica, desde o processamento final do produto (a colheita, o descascamento, o empilhamento), que ele já está pronto para ser vendido tal como está — não depende mais da vontade do dono, mas de encontrar comprador; por isso a fixação ocorre assim que o processo de acabamento (o "gorem") se completa. Já quando o dono leva o produto para sua própria casa, o destino do produto ainda depende inteiramente de sua intenção — ele pode ainda mudar de ideia sobre quanto colher ou como processar —, e por isso a Torá, ao dizer "da casa", estabelece que só a entrada física na residência fixa definitivamente a obrigação, permitindo até então o consumo casual mesmo após a colheita completa.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Maasser, no capítulo dedicado aos "seis fatores que fixam" o produto ao dízimo (a casa, a compra, o fogo, o sal, a teruma e o shabat).

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 3:2-3
בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים בְּגוֹמֵר פֵּרוֹתָיו לְמָכְרָן בַּשּׁוּק. אֲבָל אִם הָיְתָה כַּוָּנָתוֹ לְהוֹלִיכָן בַּבַּיִת הֲרֵי זֶה מֻתָּר לֶאֱכל מֵהֶן עַרְאַי אַחַר שֶׁנִּגְמְרָה מְלַאכְתָּן עַד שֶׁיִּקָּבְעוּ לְמַעֲשֵׂר. אֶחָד מִשִּׁשָּׁה דְּבָרִים קוֹבֵעַ הַפֵּרוֹת לְמַעַשְׂרוֹת. הֶחָצֵר. וְהַמִּקָּח. וְהָאֵשׁ. וְהַמֶּלַח. וְהַתְּרוּמָה. וְהַשַּׁבָּת.
"A que se refere isso? A quem termina o processamento de seus frutos para vendê-los no mercado. Mas se sua intenção era levá-los para casa, é permitido comer deles casualmente após o término do processamento, até que se fixem ao dízimo. Um entre seis fatores fixa os frutos ao dízimo: o pátio [da casa], a compra, o fogo, o sal, a teruma, e o shabat" (o Rambam sistematiza os fatores de fixação em uma lista de seis, dos quais o "pátio" — isto é, a entrada na casa — é o que esta mishná desenvolve em detalhe, com o critério específico para cada tipo de produto).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 1:5
גרנן למעשרו' כמו מלה מושאלת והכוונה ששאל התנא אימתי יהיו הפירות כמו התבואה כשהיא בגורן שאסור לאכול ממנה אכילת עראי לפי שכבר נקבעה למעשר כי קודם גרנן של מעשרות אף על פי שהגיעו לעונת המעשרות מותר לאכול מהם אכילת עראי ודרך הקשואים והדלועין שיעלה עליהם כמו שער או כמו קוץ דק מאד והוא נקרא פקס וכן יעלה על האבטיחים כמו שער ויקרא שלק ואמרם משיפקסו ומשישלקו רוצים בו מעת שיפול מהם אותו השער כשיקנחם בידו: עד שיעשה מוקצה. ענינו עד שישטח אותם ויסדר אותם והמקום ששוטחין בו הפירות נקרא מוקצה כי האבטיחין אין עושין מהם ערימה לפי שהם מתחברים זה עם זה: משיחפה. פי' משיכסה כמו שדרך בני אדם האוספים את הפירות שמכסין אותן בעלי האילן ודומיהן: במה דברים אמורים. שכשיגיעו לעת הזאת שקבעו למעשרות אסור לאכול מהם עראי במוליך לשוק למכור אבל במוליך לביתו אוכל עראי עד שהוא מגיע לבית וכבר קדם לך זה העיקר בפרק שמיני ממסכת תרומות כי הטבל אינו מתחייב במעשרות עד שהוא רואה פני הבית שנאמר (דברים כו) בערתי הקדש מן הבית:

"O granário para os dízimos" é uma expressão emprestada, e a intenção do Tanna é perguntar: quando os frutos se tornam como o grão que já está na eira, quando é proibido comer dele casualmente, pois já se fixou ao dízimo? Pois antes do "granário dos dízimos", ainda que os frutos tenham chegado ao tempo dos dízimos, é permitido comer deles casualmente. E é costume dos pepinos e das abóboras que sobre eles cresça algo como pelo ou como espinho muito fino, chamado pikkus; e igualmente cresce sobre as melancias algo como pelo, chamado shilluk. E quando dizem "desde que se remove o pikkus" e "desde que se remove o shilluk", referem-se ao momento em que esse pelo cai delas ao serem limpas com a mão.

"Até que se faça o muktzê": significa até que se estenda e organize as melancias, e o lugar onde se estendem os frutos se chama muktzê, pois as melancias não se empilham, já que se ligam umas às outras (rolando, ao contrário de pepinos e abóboras que se empilham). "Desde que se cobre": isto é, desde que se cobre, como é costume das pessoas que colhem os frutos, cobri-los com folhas de árvore e semelhantes.

"Quando se aplica isso?" Que ao chegar a este momento que fixa ao dízimo, é proibido comer deles casualmente — isso se aplica a quem leva ao mercado para vender. Mas quem leva para sua casa come casualmente até chegar à casa. E já te precedeu este princípio no oitavo capítulo de Massechet Terumot: que o produto obrigado (tevel) não se obriga plenamente ao dízimo até que "veja a face da casa", conforme está dito (Devarim 26): "removi o que é sagrado da casa".

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 1:5
אֵיזֶהוּ גָּרְנָן לַמַּעַשְׂרוֹת. אֵימָתַי הֻקְבְּעוּ הַפֵּרוֹת לַמַּעֲשֵׂר וְאָסוּר לֶאֱכֹל מֵהֶן עֲרַאי, כְּמוֹ הַתְּבוּאָה בַגֹּרֶן. שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁהִגִּיעוּ הַפֵּרוֹת לְעוֹנַת הַמַּעַשְׂרוֹת עֲדַיִן מֻתָּר לֶאֱכֹל מֵהֶן עֲרַאי עַד שֶׁיְּהֵא גָּרְנָן לַמַּעַשְׂרוֹת: מִשֶּׁיְּפָקְסוּ. מִשֶּׁיִּנָּטֵל פֵּיקָס שֶׁלָּהֶם, וְהוּא שֵׂעָר הַצּוֹמֵחַ בָּהֶן כְּשֶׁהֵן קְטַנִּים, וּכְשֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ כָּל צָרְכָּן נוֹשֵׁר: מִשֶּׁיַּעֲמִיד עֲרֵמָה. שֶׁיַּעֲשֶׂה מֵהֶן כְּרִי: מִשֶּׁיְּשַׁלֵּק. שִׁלּוּק לָאֲבַטִּיחַ כְּמוֹ פִקּוּס לַדְּלוּעִים: מֻקְצֶה. לְפִי שֶׁאֵין עוֹשִׂים עֲרֵמָה מִן הָאֲבַטִּיחִים אֶלָּא שׁוֹטְחִים אוֹתָם, וּמָקוֹם שֶׁשּׁוֹטְחִים בּוֹ הַפֵּרוֹת קָרוּי מֻקְצֶה: יָרָק הַנֶּאֱגָד. שֶׁדַּרְכּוֹ לְמָכְרוֹ אֲגֻדּוֹת: וְאִם אֵינוֹ מְמַלֵּא אֶת הַכְּלִי. כְּגוֹן שֶׁרוֹצֶה לְמַלֹּאת שְׁנַיִם אוֹ שְׁלֹשָׁה כֵלִים, אוֹכֵל מִכָּל אֶחָד עֲרַאי עַד שֶׁיְּמַלֵּא אֶת הָאַחֲרוֹן: כַּלְכָּלָה. הַמְלַקֵּט יָרָק לְתוֹךְ הַכַּלְכָּלָה דְּהַיְנוּ סַל: מִשֶּׁיְּחַפֶּה. אֶת הַיָּרָק בְּהוּצִין אוֹ בְעָלִין שֶׁדַּרְכָּן לְכַסּוֹת בּוֹ: בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִים. שֶׁזֶּהוּ גָּרְנָן לַמַּעַשְׂרוֹת: בְּמוֹלִיךְ לַשּׁוּק. לִמְכֹּר, דְּלָאו בְּדַעְתּוֹ הַדָּבָר תָּלוּי, שֶׁמָּא יִמְצָא לָקוֹחוֹת וְיִהְיוּ הַפֵּרוֹת טְבוּלִים שֶׁהַמִּקָּח קוֹבֵעַ לַמַּעֲשֵׂר: אֲבָל בְּמוֹלִיךְ לְבֵיתוֹ אוֹכֵל עֲרַאי עַד שֶׁמַּגִּיעַ לְבֵיתוֹ. דִּבְדַעְתּוֹ תָּלוּי הַדָּבָר, וְלֹא יִהְיוּ הַפֵּרוֹת טְבוּלִים עַד שֶׁיַּגִּיעַ לְבֵיתוֹ, שֶׁהַטֶּבֶל אֵינוֹ חַיָּב בַּמַּעֲשֵׂר עַד שֶׁיִּרְאֶה פְּנֵי הַבַּיִת, דִּכְתִיב (דברים כו) בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת:

"Qual é o granário para os dízimos?" Quando os frutos se fixam ao dízimo e é proibido comer deles casualmente, como o grão na eira — pois ainda que os frutos tenham chegado ao tempo dos dízimos, ainda é permitido comer deles casualmente até que tenham seu "granário para os dízimos".

"Desde que se remove a penugem": desde que se remove o pikkus deles, que é o pelo que cresce neles quando pequenos, e quando amadurecem completamente cai. "Desde que se faz um monte": que se faça deles uma pilha. "Desde que se lava": lavagem (shilluk) para a melancia, como o pikkus para as abóboras. "Muktzê": pois não se faz pilha das melancias, mas se estendem, e o lugar onde se estendem os frutos se chama muktzê.

"O vegetal amarrado": cujo costume é vendê-lo em molhos. "E se não enche o utensílio": como quando quer encher dois ou três recipientes, come de cada um casualmente até encher o último. "Cesto": quem colhe vegetais dentro do cesto, que é um recipiente. "Desde que se cobre": os vegetais com ramos ou folhas, como é costume cobrir.

"Quando se aplica isso?" Que este é o granário para os dízimos. "Quando se leva ao mercado": para vender, pois não depende de sua intenção — talvez encontre compradores e os frutos fiquem obrigados (tevel), já que a compra fixa ao dízimo. "Mas quando se leva para sua casa, come-se casualmente até chegar à sua casa": pois o assunto depende de sua intenção, e os frutos não ficam obrigados até que ele chegue à sua casa, pois o produto obrigado (tevel) não se obriga ao dízimo até que "veja a face da casa", conforme está escrito (Devarim 26): "removi o que é sagrado da casa".

Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.