Seder Zeraim · Massechet Maasrot · Perek Bet · Mishná 3

"Quem leva frutas da Galileia à Judeia"

הַמַּעֲלֶה פֵרוֹת מִן הַגָּלִיל לִיהוּדָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O viajante que transporta frutas entre regiões, ou sobe a Jerusalém, come delas ocasionalmente durante toda a viagem, até alcançar seu destino final — Rabi Meir diferindo quanto ao momento exato (o lugar de descanso do shabat); os mascates que percorrem as cidades comem até o lugar onde pernoitam, sendo que Rabi Yehudá considera fixadora já a primeira casa que encontrarem

Quem leva frutas da Galileia à Judeia, ou sobe a Jerusalém (para lá vendê-las ou consumi-las), come delas (ocasionalmente, durante toda a viagem) até chegar ao lugar aonde vai (seu destino final, mesmo que pernoite pelo caminho), e assim também na Judeia (se o percurso for inverso, da Judeia à Galileia, a mesma regra se aplica). Rabi Meir diz: até que chegue ao lugar de descanso (o local onde pretende passar o shabat, que já fixaria a obrigação antes mesmo de chegar ao destino final). E os mascates que circulam pelas cidades (vendendo perfumes e cosméticos, levando frutas consigo) comem (ocasionalmente) até chegarem ao lugar de pernoite (onde passarão a noite). Rabi Yehudá diz: a primeira casa (que encontrarem na cidade onde pernoitam) é sua casa (já fixando a obrigação, mesmo que decidam pernoitar em outra parte da mesma cidade).

הַמַּעֲלֶה פֵרוֹת מִן הַגָּלִיל לִיהוּדָה, אוֹ עוֹלֶה לִירוּשָׁלַיִם, אוֹכֵל מֵהֶם עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְמָקוֹם שֶׁהוּא הוֹלֵךְ, וְכֵן בִּיהוּדָה. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לִמְקוֹם הַשְּׁבִיתָה. וְהָרוֹכְלִין הַמְּחַזְּרִין בָּעֲיָרוֹת, אוֹכְלִים עַד שֶׁמַּגִּיעִים לִמְקוֹם הַלִּינָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הַבַּיִת הָרִאשׁוֹן הוּא בֵיתוֹ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Prossegue-se aqui a aplicação do princípio de que a "entrada na casa" fixa a obrigação, agora no caso do viajante, cujo destino final de viagem equivale, para efeito de dízimo, à entrada na própria casa.

Devarim (Deuteronômio) 26:13
בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת.
"Removi o consagrado da casa" (Devarim 26:13) — o mesmo princípio que fixa a obrigação do dízimo pela entrada "na casa" é aqui aplicado ao viajante: enquanto ele ainda está a caminho, mesmo pernoitando ao longo do percurso em casas ou pousadas alheias, sua produção não se fixa, pois seu propósito declarado (sua "casa", no sentido funcional) é o destino final da viagem — seja a Judeia, seja Jerusalém. Só ao alcançar esse destino, onde pretende permanecer e usar da fruta, ela se equipara à entrada "na casa" e passa a exigir o dízimo completo antes de ser consumida além do ocasional.

Por que o "lugar de destino" substitui a "casa" para o viajante? Esta mishná estende o princípio da "kevi'á" (fixação) ao caso do viajante e do comerciante ambulante, que não têm, durante o percurso, uma casa fixa onde parar. Nesses casos, a tradição estabelece que a obrigação se fixa não pela entrada física em qualquer casa ao longo do caminho — pois estas são passageiras e alheias ao propósito da viagem —, mas pela chegada ao destino final pretendido, que cumpre a mesma função de "casa": ali a pessoa pretende permanecer e usar dos frutos com regularidade, encerrando o caráter ocasional de seu consumo. Rabi Meir refina esse critério: para ele, o que fixa a obrigação não é o destino comercial ou pessoal da viagem, mas o "lugar de descanso" — onde o viajante planeja passar o shabat —, pois a chegada do shabat é, por si mesma, um dos seis fatores que fixam a obrigação do dízimo (como se verá adiante nesta massechet), de modo que, mesmo antes de chegar ao destino final, o shabat já fixaria as frutas em seu poder. Já para os mascates, que não têm destino fixo, mas percorrem cidade após cidade, a mishná estabelece o critério do "lugar de pernoite" — cada noite passada em algum lugar já encerra o caráter ocasional daquele trecho da jornada; Rabi Yehudá, ainda mais rigoroso, considera que basta a primeira casa que encontrarem na cidade de pernoite, mesmo que decidam efetivamente dormir em outra, pois psicologicamente já "chegaram" àquele povoado.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Maasser, no capítulo dedicado ao quintal e aos casos do viajante e do mascate ambulante.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 4:11
הַמּוֹלִיךְ פֵּרוֹתָיו מִמָּקוֹם לְמָקוֹם אַף עַל פִּי שֶׁהוּא נִכְנָס בָּהֶן לְבָתִּים וְלַחֲצֵרוֹת בַּדֶּרֶךְ לֹא נִקְבְּעוּ אֶלָּא אוֹכֵל עַרְאַי עַד שֶׁיַּגִּיעַ לְמָקוֹם שֶׁהוּא סוֹף מְגַמָּתוֹ.
"Quem leva suas frutas de um lugar a outro, ainda que entre com elas em casas e quintais pelo caminho, não se fixam, mas come ocasionalmente até chegar ao lugar que é o fim de seu propósito" (o Rambam codifica diretamente esta mishná, esclarecendo que casas e quintais de passagem, alheios ao propósito da viagem, não fixam a obrigação — apenas o destino final o faz).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 4:12
הָרוֹכְלִין הַמַּחְזִירִין בַּעֲיָרוֹת שֶׁהֵן נִכְנָסִין מֵחָצֵר לְחָצֵר אוֹכְלִין עַרְאַי עַד שֶׁמַּגִּיעִין לְבַיִת שֶׁלָּנִין בּוֹ.
"Os mascates que percorrem as cidades, que entram de quintal em quintal, comem ocasionalmente até chegarem à casa em que pernoitam" (o Rambam decide a halachá conforme os sábios, contra Rabi Yehudá, adotando o critério do lugar de pernoite efetivo, e não da primeira casa encontrada).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 2:3
מקום השביתה הוא מקום שהוא שובת בו ביום השבת: הרוכלים המחזרים בעיירות. עם הבשמים ההולכים מעיר אל עיר ומכפר אל כפר ואמר בכאן שהם רשאים לאכול כל היום מה שנותנים שם מן הפירות אע"פ שהם נכנסין בבתים עד שיגיעו למקום הלינה ואין הלכה כר' מאיר ולא כר' יהודה.

"O lugar de descanso" é o lugar onde ele descansa no dia de shabat. "E os mascates que circulam pelas cidades": com perfumes, indo de cidade em cidade e de aldeia em aldeia; e disse aqui que eles têm permissão de comer, durante todo o dia, das frutas que ali lhes dão, ainda que entrem em casas, até chegarem ao lugar de pernoite. E não se decide a halachá conforme Rabi Meir, nem conforme Rabi Yehudá (a lei segue os sábios: o destino final da viagem para o primeiro caso, e o lugar de pernoite efetivo para os mascates).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 2:3
הַמַּעֲלֶה פֵרוֹת מִן הַגָּלִיל. לִקֵּט פֵּרוֹת בַּגָּלִיל כְּדֵי לְמָכְרָן בִּיהוּדָה, לֹא הֻקְבְּעוּ לַמַּעֲשֵׂר אֲפִלּוּ לָן בַּדֶּרֶךְ, עַד שֶׁיַּגִּיעַ לִיהוּדָה שֶׁדַּעְתּוֹ לְמָכְרָם שָׁם: וְכֵן בַּחֲזָרָה. אִם קֹדֶם שֶׁהִגִּיעַ לִיהוּדָה נִמְלַךְ לְהַחֲזִירָן לַגָּלִיל, אוֹכֵל מֵהֶן עֲרַאי בַּדֶּרֶךְ עַד שֶׁיַּגִּיעַ לַגָּלִיל: עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לִמְקוֹם הַשְּׁבִיתָה. לַמָּקוֹם שֶׁהוּא רוֹצֶה לָנוּחַ שָׁם בַּשַּׁבָּת, וּמִיָּד כְּשֶׁיַּגִּיעַ שָׁם הֻקְבְּעוּ פֵרוֹתָיו לַמַּעֲשֵׂר אַף עַל פִּי שֶׁעֲדַיִן לֹא הִגִּיעָה שַׁבָּת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר: וְהָרוֹכְלִין הַמְחַזְּרִין בָּעֲיָרוֹת. לִמְכֹּר בְּשָׂמִים וְתַמְרוּקֵי הַנָּשִׁים, וּמוֹלִיכִין עִמָּהֶם פֵּרוֹת, אוֹכְלִים מֵהֶן עֲרַאי עַד שֶׁיַּגִּיעוּ לִמְקוֹם הַלִּינָה, וּכְשֶׁמַּגִּיעִים שָׁם הֻקְבְּעוּ הַפֵּרוֹת לַמַּעֲשֵׂר: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר בַּיִת רִאשׁוֹן. שֶׁבָּעִיר שֶׁהוּא לָן שָׁם, קוֹבֵעַ לַמַּעֲשֵׂר, וַאֲפִלּוּ הוּא לָן בַּקָּצֶה הָאַחֵר שֶׁל הָעִיר, לְפִי שֶׁאָדָם רוֹצֶה לְפַנּוֹת כֵּלָיו בְּבַיִת רִאשׁוֹן שֶׁהוּא פּוֹגֵעַ כְּדֵי לָלוּן שָׁם. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"Quem leva frutas da Galileia": colheu frutas na Galileia a fim de vendê-las na Judeia — não se fixam à obrigação do dízimo, ainda que pernoite pelo caminho, até que chegue à Judeia, onde tem a intenção de vendê-las ali. "E assim na volta": se, antes de chegar à Judeia, mudou de ideia e decidiu devolvê-las à Galileia, come delas ocasionalmente durante o caminho até chegar à Galileia. "Até que chegue ao lugar de descanso": ao lugar onde deseja descansar no shabat, e assim que ali chegar, suas frutas se fixam à obrigação do dízimo, ainda que o shabat ainda não tenha começado. E não se decide a halachá conforme Rabi Meir. "E os mascates que circulam pelas cidades": para vender perfumes e cosméticos de mulheres, e levam frutas consigo, comem delas ocasionalmente até chegarem ao lugar de pernoite, e quando ali chegam, as frutas se fixam à obrigação do dízimo. "Rabi Yehudá diz: a primeira casa": da cidade onde ele pernoita, fixa a obrigação do dízimo, mesmo que pernoite na outra extremidade da cidade, pois o homem costuma esvaziar seus utensílios na primeira casa que encontra, a fim de ali pernoitar. E não se decide a halachá conforme Rabi Yehudá.

Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. A halachá segue os sábios em ambas as disputas: nem a opinião de Rabi Meir (lugar de descanso do shabat) nem a de Rabi Yehudá (primeira casa) são adotadas como lei.