Seder Zeraim · Massechet Maasrot · Perek Guimel · Mishná 2

"Quem tira seus trabalhadores para o campo"

הַמּוֹצִיא פּוֹעֲלָיו לַשָּׂדֶה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continua o tema do direito do trabalhador: aqui, trabalhadores levados ao campo para outro serviço qualquer — não para a colheita — e que, tendo sustento contratado, só podem comer figo por figo, diretamente da árvore, jamais reunindo-os em quantidade, pois reunir equivaleria a "fixar" a fruta à obrigação

Quem tira seus trabalhadores para o campo (para outro serviço, não para colher frutos), quando não têm sobre ele sustento, comem e estão isentos (pois o que recebem é como dom, que não fixa a obrigação). E se têm sobre ele sustento, comem um a um (diretamente) da figueira, mas não do cesto, nem da canastra, nem do monte reunido (pois juntar as frutas em quantidade equivaleria a fixá-las à obrigação, tornando proibido comê-las sem dizimar).

הַמּוֹצִיא פּוֹעֲלָיו לַשָּׂדֶה, בִּזְמַן שֶׁאֵין לָהֶם עָלָיו מְזוֹנוֹת, אוֹכְלִין וּפְטוּרִין. וְאִם יֶשׁ לָהֶם עָלָיו מְזוֹנוֹת, אוֹכְלִין אַחַת אַחַת מִן הַתְּאֵנָה, אֲבָל לֹא מִן הַסַּל וְלֹא מִן הַקֻּפָּה וְלֹא מִן הַמֻּקְצֶה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mesma base bíblica da mishná anterior aqui se especifica: mesmo o trabalhador sem direito bíblico de comer (pois não colhe frutos, mas realiza outro serviço) pode, quando não há sustento contratado, receber frutas como dom — e o dom, por definição, não fixa a obrigação do dízimo.

Devarim (Deuteronômio) 23:25-26
כִּי תָבֹא בְּכֶרֶם רֵעֶךָ וְאָכַלְתָּ עֲנָבִים כְּנַפְשְׁךָ שָׂבְעֶךָ, וְאֶל כֶּלְיְךָ לֹא תִתֵּן. כִּי תָבֹא בְּקָמַת רֵעֶךָ וְקָטַפְתָּ מְלִילֹת בְּיָדֶךָ, וְחֶרְמֵשׁ לֹא תָנִיף עַל קָמַת רֵעֶךָ.
"Quando entrares na vinha do teu próximo... quando entrares na seara do teu próximo..." (Devarim 23:25-26) — a tradição limita este direito ao trabalhador contratado especificamente para a colheita daquele produto. Por isso, quem foi levado ao campo para outro serviço — capinar, lavrar, ou qualquer tarefa que não seja colher os figos — não tem, em relação aos figos, o direito bíblico do "sachir"; o que come, come apenas por permissão do patrão, equivalente a um dom, que não fixa a obrigação do dízimo enquanto não há sustento contratado envolvido.

Por que "um a um da figueira", mas não do cesto? Quando o trabalhador tem sustento contratado — isto é, quando o patrão já se obrigou a alimentá-lo como parte do acordo — comer se torna, num certo sentido, quitação de dívida, o que não pode ser feito com tevel. Mas os sábios permitiram, mesmo nesse caso, que ele coma diretamente da árvore, figo por figo, pois esse consumo pontual e disperso não constitui "reunião" (tzeruf) que fixe a fruta à obrigação — é, na prática, equivalente ao consumo ocasional (achilat arai) permitido a qualquer pessoa antes que o processamento se complete. Já comer do cesto, da canastra ou do monte já reunido seria comer de algo que já passou por um princípio de "juntar", ação que os sábios reconheceram como um dos fatores que aproximam a produção da fixação plena — daí a proibição.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata desta distinção entre o trabalhador contratado para colher e o contratado para outro serviço em Hilchot Sechirut, no mesmo capítulo 12.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Sechirut 12:2
אֲבָל מִפְּנֵי הֶשֵּׁב אֲבֵדָה לַבְּעָלִים אָמְרוּ חֲכָמִים שֶׁיִּהְיוּ הַפּוֹעֲלִין אוֹכְלִין בַּהֲלִיכָתָן מֵאֹמֶן לְאֹמֶן וּבַחֲזִירָתָן מִן הַגַּת, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִבָּטְלוּ מִמְּלַאכְתָּן וְיֵשְׁבוּ לֶאֱכל, אֶלָּא אוֹכְלִין בְּתוֹךְ הַמְּלָאכָה כְּשֶׁהֵן מְהַלְּכִין וְאֵינָן מְבַטְּלִין.
"Mas, para evitar prejuízo aos donos, disseram os sábios que os trabalhadores comam enquanto caminham de uma fileira a outra e em seu retorno do lagar, para que não interrompam seu trabalho e se sentem para comer; em vez disso, comem durante o próprio trabalho, enquanto caminham, sem interromper" (esta halachá, embora fale de colheita de uvas, ilustra o princípio geral por trás de "come um a um": o consumo do trabalhador deve ser pontual e integrado ao próprio labor, nunca uma pausa deliberada para reunir e comer em quantidade, o que fixaria a obrigação).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Sechirut 12:4
הַמְנַכֵּשׁ בִּבְצָלִים וּבְשׁוּמִין, אַף עַל פִּי שֶׁתּוֹלְשִׁין קְטַנִּים מִבֵּין הַגְּדוֹלִים וְכָל כַּיּוֹצֵא בָּזֶה, אֵינוֹ אוֹכֵל מִפְּנֵי שֶׁאֵין מַעֲשֵׂיהֶם גְּמַר מְלָאכָה.
"Quem capina entre cebolas e alhos, ainda que arranque os pequenos dentre os grandes e semelhante, não come, pois seus atos não são a conclusão do trabalho" (este é precisamente o fundamento de "quem tira seus trabalhadores para o campo" para outro serviço que não a colheita: sem direito bíblico de comer, o que recebe é apenas concessão do patrão, sujeita às regras do dom, e não da colheita direta).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 3:2
אֵלּוּ הַפּוֹעֲלִים אֵינָם עוֹשִׂים בִּלְקִיטַת הַתְּאֵנִים וּבִשְׁטִיחָתָם, כִּי אִלּוּ הָיוּ עוֹשִׂין כֵּן הָיָה לָהֶם לֶאֱכֹל מִן הַתּוֹרָה, אֲבָל הָיוּ עוֹשִׂין בִּמְלָאכָה אַחֶרֶת בַּחֲרִישָׁה אוֹ קְצִירָה וְכַיּוֹצֵא בָּהֶן.

Estes trabalhadores não estão colhendo nem espalhando os figos (para secar), pois se estivessem fazendo isso, teriam o direito de comer por lei da Torá; mas estavam realizando outro serviço — lavrar, ceifar ou semelhante (daí não terem o direito bíblico do sachir em relação aos figos).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 3:2
הַמּוֹצִיא פּוֹעֲלָיו לַשָּׂדֶה. לִמְלָאכָה אַחֶרֶת וְלֹא לִלְקֹט פֵּרוֹת, דְּהַשְׁתָּא אֵין אוֹכְלִין מִן הַתּוֹרָה: אוֹכְלִין וּפְטוּרִין. אִם נָתַן לָהֶם, דְּמַתָּנָה אֵינָהּ כְּמֶכֶר: וְאִם יֶשׁ לָהֶן עָלָיו מְזוֹנוֹת. שֶׁקָּצַץ לָהֶן: אוֹכְלִין אַחַת אַחַת וְכוּ'. דְּלֹא הֲוֵי קְבַע: וְלֹא מִן הַמֻּקְצֶה. כְּרִי שֶׁל תְּאֵנִים.

"Quem tira seus trabalhadores para o campo": para outro serviço, e não para colher frutos — pois, sendo assim, não comem por direito bíblico. "Comem e estão isentos": se ele lhes deu (as frutas), pois o dom não é como a venda. "E se têm sobre ele sustento": que ele lhes fixou (por contrato). "Comem um a um" etc.: pois isso não constitui reunião (que fixaria a obrigação). "Nem do monte reunido": refere-se à pilha de figos (já amontoados, portanto já com princípio de processamento concluído).

Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.