Seder Zeraim · Massechet Maasrot · Perek Heh · Mishná 6

"Quem faz o tamad"

הַמְתַמֵּד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Retoma-se o tema do bagaço de uva (zag), já visto na mishná 4, agora sob o ângulo de um costume comum: aguar o bagaço já espremido para extrair dele um vinho fraco (tamad), e a questão de saber se o líquido resultante conta como vinho verdadeiro, sujeito ao dízimo

Quem faz o tamad (põe água sobre o bagaço de uva já espremido, para extrair dele um vinho fraco, residual) e coloca água por medida, e encontra a mesma medida (ao coar o líquido resultante), está isento do dízimo (pois presume-se que toda a água simplesmente absorveu o sabor residual do bagaço, sem que se tenha formado vinho verdadeiro adicional). Rabi Yehudá o obriga (pois considera que uma parte da água necessariamente se perde ou se mistura, e o que se obtém já é vinho diluído, sujeito à obrigação). Se encontrou mais do que a sua medida, deve separar dízimo (sobre o excedente) de outro lugar, na devida proporção (pois o volume adicional, além da água originalmente colocada, só pode ser vinho verdadeiro que ainda restava no bagaço, e por isso é plenamente obrigado).

הַמְתַמֵּד וְנָתַן מַיִם בַּמִּדָּה וּמָצָא כְדֵי מִדָּתוֹ, פָּטוּר. רַבִּי יְהוּדָה מְחַיֵּב. מָצָא יוֹתֵר עַל מִדָּתוֹ, מוֹצִיא כְדֵי מִדָּתוֹ, וְהוֹלֵךְ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná aplica ao tamad — o vinho fraco extraído da água posta sobre o bagaço — o mesmo princípio já visto quanto à extração de líquidos residuais de gefet e zag: a obrigação do dízimo recai sobre o vinho ou azeite verdadeiro, e não sobre a água que meramente absorveu sabor.

Devarim (Deuteronômio) 14:23
וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ... מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"E comerás perante o Eterno teu Deus... o dízimo de teu grão, de teu vinho (tirosh) e de teu azeite" (Devarim 14:23) — a obrigação bíblica do dízimo sobre o vinho recai especificamente sobre o tirosh, o vinho propriamente dito, produzido a partir do suco da uva. O tamad — líquido obtido ao verter água sobre o bagaço de uva já espremido — não é vinho no sentido pleno, mas apenas água que absorveu resíduo de sabor (kiyuha), e por isso a mishná discute em que medida, se alguma, ele se equipara ao vinho verdadeiro para efeitos do dízimo. O critério prático adotado é a medida: se a quantidade de líquido coado corresponde exatamente à quantidade de água originalmente vertida, presume-se que não se formou vinho adicional algum; apenas o excedente sobre essa medida — que só pode vir do próprio suco residual da uva — é considerado vinho verdadeiro e plenamente obrigado.

Por que Rabi Yehudá discorda e obriga mesmo quando a medida bate exatamente? A opinião sem atribuição (tanna kama) baseia-se na presunção de que, se a água vertida e o líquido coado têm exatamente a mesma medida, isso prova que nenhum suco residual de uva se dissolveu nela — a água apenas "passou através" do bagaço, absorvendo um leve sabor (kiyuha) sem se tornar vinho de fato. Rabi Yehudá discorda por um motivo físico: ele considera fisicamente impossível que toda a água vertida saia intacta do bagaço — uma parte necessariamente permanece retida nele, sendo substituída, no líquido coado, por suco de uva equivalente. Assim, mesmo quando a medida final bate exatamente com a inicial, Rabi Yehudá presume que o líquido resultante já é uma mistura de água e vinho verdadeiro — comparável ao vinho normalmente diluído para beber — e por isso obriga ao dízimo. A lei não segue Rabi Yehudá.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Ma'aser (Mishné Torá), capítulo 2, decidindo a lei conforme a opinião sem atribuição, contra Rabi Yehudá.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Ma'aser 2:7
שִׁמְרֵי יַיִן שֶׁנָּתַן עֲלֵיהֶם מַיִם וְסִנְּנָן, אִם נָתַן שְׁלֹשָׁה וּמָצָא אַרְבָּעָה, מוֹצִיא מַעֲשֵׂר מִזֶּה הַיֶּתֶר מִמָּקוֹם אַחֵר... מָצָא פָּחוֹת מֵאַרְבָּעָה, אַף עַל פִּי שֶׁמָּצָא יֶתֶר עַל מִדָּתוֹ וְאַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן טַעַם יַיִן, פָּטוּר.
"Sedimentos de vinho sobre os quais se pôs água e depois se coaram: se pôs três (medidas) e encontrou quatro, separa o dízimo referente a este excedente de outro lugar... se encontrou menos de quatro, mesmo que tenha encontrado mais que sua medida original, e mesmo que haja neles sabor de vinho, está isento" (o Rambam explica com precisão numérica o critério da mishná: o excedente sobre a medida exata original é o que determina a obrigação, e não a mera presença de sabor de vinho, decidindo a lei conforme a opinião sem atribuição contra Rabi Yehudá).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 5:6
תֶּמֶד. שֵׁם נוֹפֵל עַל הַזַּגִּים וְהַחַרְצַנִּים הַנִּשְׁאָרִים מִן הָעֲנָבִים אַחַר סְחִיטָתָן וְעַל הַשְּׁמָרִים הַיּוֹרְדִין לְשׁוּלֵי הַכְּלִי. וּמְתַמֵּד הוּא שֶׁנּוֹתְנִים מַיִם עַל הַתֶּמֶד וּמַנִּיחִין אוֹתוֹ עַד שֶׁיֵּצֵא מִמֶּנּוּ כֹּחוֹ בַּמַּיִם וְיִהְיֶה כְּמוֹ יַיִן גָּרוּעַ וְשׁוֹתִים אוֹתוֹ... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Temed: nome que recai sobre o bagaço e as sementes remanescentes das uvas depois de espremidas, e sobre os sedimentos que descem ao fundo do vasilhame. E metamed é quem põe água sobre o temed e o deixa até que saia dele sua força na água, tornando-se como um vinho inferior, e o bebem... E a lei não é conforme Rabi Yehudá.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 5:6
הַמְתַמֵּד. הַנּוֹתֵן מַיִם בַּחַרְצַנִּין וּבַזַּגִּין אוֹ בַשְּׁמָרִים נִקְרָא מְתַמֵּד. וְהָכָא מַיְרֵי בְּנוֹתֵן מַיִם בַּשְּׁמָרִים דַּוְקָא. פָּטוּר. וְאַף עַל גַּב דִּשְׁמָרִים יְהָבֵי בְהוּ טַעַם, פָּטוּר, דְּטַעַם שְׁמָרִים שֶׁל טֶבֶל לֹא חָשִׁיב טַעַם גָּמוּר אֶלָּא קְיוּהָא בְּעַלְמָא. רַבִּי יְהוּדָה מְחַיֵּב. דְּסָבַר אִי אֶפְשָׁר שֶׁיֵּצְאוּ כָל הַמַּיִם לַחוּץ, אֶלָּא נִשְׁאָר חֲצִי כַּד שֶׁל מַיִם בְּתוֹךְ הַשְּׁמָרִים, וְנִמְצָא שֶׁאֵלּוּ הַשָּׁלֹשׁ כַּדּוֹת וָחֵצִי שֶׁיָּצְאוּ יֵשׁ בָּהֶן כַּד אֶחָד שֶׁל יַיִן וּשְׁנַיִם וָחֵצִי מַיִם, וַהֲווֹ כְּיַיִן מָזוּג. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"Quem faz o tamad": quem põe água nas sementes de uva e no bagaço, ou nos sedimentos, chama-se metamed; e aqui trata-se especificamente de pôr água nos sedimentos. "Está isento": e ainda que os sedimentos deem neles algum sabor, está isento, pois o sabor de sedimentos de produto ainda obrigado (tevel) não é considerado sabor pleno, mas apenas um leve travo (kiyuha). "Rabi Yehudá obriga": pois entende que é impossível que toda a água saia para fora; antes, permanece meio jarro de água dentro dos sedimentos, de modo que estes três jarros e meio que saíram contêm um jarro de vinho e dois e meio de água, sendo equivalentes a vinho diluído. E a lei não é conforme Rabi Yehudá.

Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.