Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Bet · Mishná 2 de 10

"Disse esta vaca: sou nazireia se eu me levantar"

אָמְרָה פָרָה זוֹ הֲרֵינִי נְזִירָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de quem, diante de uma vaca deitada que se recusa a levantar-se, ou de uma porta trancada que resiste a abrir-se, projeta sobre o animal ou o objeto um voto imaginário e, a partir dele, formula seu próprio voto de nazireado, condicionado ao desfecho.

Disse: "esta vaca disse: sou nazireia se eu ficar de pé". Disse: "esta porta disse: sou nazireu se eu me abrir". Bet Shamai dizem: é nazireu; e Bet Hilel dizem: não é nazireu. Disse Rabi Yehudá: mesmo quando Bet Shamai disseram isso, não o disseram senão de quem diz "eis que esta vaca é para mim oferenda se ficar de pé".O caso pressupõe alguém diante de uma vaca deitada que resiste a levantar-se, ou de uma porta trancada que resiste a abrir-se: a pessoa, imaginando que o animal ou a porta "pensa" não se mover nunca, projeta sobre eles essa suposta intenção e diz "esta vaca disse: sou nazireia se eu ficar de pé" — ou seja, "eu mesmo serei nazireu a partir dela, se ela ficar de pé". Depois disso, a vaca se levanta ou a porta se abre, seja por si mesma, seja pela ação de terceiros, e não pela ação da própria pessoa que fez o voto. Bet Shamai, seguindo o mesmo princípio da mishná anterior, dizem que ela se torna nazireu, pois sua intenção era apenas que ela mesma não conseguisse mover o animal ou a porta; Bet Hilel dizem que não se torna nazireu, pois esse não é um voto na forma costumeira de quem se torna nazireu. Rabi Yehudá volta a restringir a posição de Bet Shamai: mesmo eles só concordam que há alguma consequência quando a pessoa tencionava tornar a vaca, e não a si mesma, uma oferenda proibida caso ficasse de pé.

אָמַר, אָמְרָה פָרָה זוֹ הֲרֵינִי נְזִירָה אִם עוֹמֶדֶת אָנִי. אָמַר, הַדֶּלֶת הַזֶּה הֲרֵינִי נָזִיר אִם נִפְתָּח אָנִי. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, נָזִיר, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, אֵינוֹ נָזִיר. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, אַף כְּשֶׁאָמְרוּ בֵית שַׁמַּאי, לֹא אָמְרוּ אֶלָּא בְאוֹמֵר הֲרֵי פָרָה זוֹ עָלַי קָרְבָּן אִם עוֹמֶדֶת הִיא:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Como na mishná anterior, a disputa gira em torno de quando a linguagem do nazireado, formulada de modo indireto, ainda corresponde ao voto que a Torá reconhece.

Bemidbar (Números) 6:2
כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר לְהַזִּיר לַה׳
Quando alguém, homem ou mulher, fizer o voto especial de nazireu, para se consagrar ao Eterno.

Bet Shamai e Bet Hilel discordam sobre até onde vai a validade de um voto formulado de modo indireto, atribuído a um animal ou objeto inanimado. Bet Shamai, seguindo o princípio de que "ninguém profere palavras em vão", entendem que, por trás da linguagem figurada, a pessoa realmente pretendia assumir sobre si o nazireado se não conseguisse fazer o animal levantar-se ou a porta abrir-se; como o animal ou a porta se moveram sem a intervenção da própria pessoa, a condição se cumpriu e o nazireado recai sobre ela. Bet Hilel consideram que essa não é a forma costumeira do voto de nazireado, e por isso não há nazireado algum.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá segue Bet Hilel: nesse caso, a pessoa não se torna nazireu.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 2:2
בית שמאי אומרים אחר שלא העמידה בידיו ולא פתח הדלת בעצמו חל עליו הדבור... ובית הלל אמנם לדעתינו ואפי' אמר בפירוש הריני נזיר מבשרה אינו נזיר

Rambam explica que Bet Shamai entendem que a intenção real da pessoa era condicionar seu próprio nazireado ao fato de ela mesma não conseguir levantar a vaca ou abrir a porta; como isso se confirmou — a vaca se levantou ou a porta se abriu sem a ação dela —, o nazireado recai sobre a pessoa. Bet Hilel replicam que mesmo que a pessoa tivesse dito explicitamente "sou nazireu a partir da carne desta vaca", ainda assim não se tornaria nazireu, pois não existe nazireado vinculado a um animal; a fortiori, a linguagem indireta usada aqui também não gera nazireado algum.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre a mishná.

Rashi · רש״י
Nazir 10a, s.v. מתני' אמרה פרה
בגמרא מתרצינן כגון שהיתה פרה רבוצה לפניו ואמר כמדומה לי כסבורה פרה שאינה עומדת לעולם ע"י אדם הריני נזיר ממנה מבשרה אם נתקיים מחשבתה שתהא עומדת מאליה אלא אני אלך ואעמידנה

Rashi precisa o cenário concreto por trás da linguagem figurada da mishná: uma vaca está deitada diante da pessoa, resistindo a levantar-se por ação humana, e ela diz, em essência, "parece-me que esta vaca pensa que nunca se levantará por meio de alguém; pois bem, serei nazireu a partir de sua carne se sua própria suposição se confirmar — isto é, se ela ficar de pé sozinha, sem que eu vá levantá-la". A "fala" atribuída à vaca é, portanto, apenas uma forma poética de expressar a condição real: o nazireado da pessoa depende de o animal se levantar por conta própria, e não por sua própria intervenção.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 2:2
אמנם לדעתינו ואפי' אמר בפירוש הריני נזיר מבשרה אינו נזיר אלא לפי דבריכם לאיזה דבר אתם מחייבים אותו בנזירות

Rambam descreve a réplica de Bet Hilel a Bet Shamai: mesmo que a pessoa tivesse dito de modo totalmente explícito "sou nazireu a partir da carne desta vaca", isso não bastaria para gerar nazireado, porque não existe voto de nazireado vinculado a um animal; sendo assim, pela própria lógica de Bet Shamai, não haveria motivo para obrigá-la ao nazireado nesse caso indireto — pois sua intenção nunca foi tornar-se nazireu incondicionalmente, mas apenas caso não conseguisse mover o animal, e o animal se moveu.

Bartenura · רע"ב
Nazir 2:2
בית שמאי אומרים הרי זה נזיר. דאזלי לטעמייהו... ואף על פי שעמדה הבהמה ונפתחה הדלת, לא היתה דעתו אלא שיעמידנה או יפתחנה הוא בעצמו

Bartenura esclarece que Bet Shamai seguem aqui a mesma lógica da mishná anterior: mesmo que não exista nazireado vinculado literalmente a um animal ou a uma porta, a intenção real da pessoa era condicionar seu voto ao fato de que ela mesma não conseguisse mover o objeto — e como o animal se levantou ou a porta se abriu sem a intervenção direta dela, a condição se cumpriu, tornando-a nazireu. Bet Hilel concordam que, se o animal não tivesse se movido de modo algum, também eles admitiriam que não haveria nazireado; a disputa real, segundo Rabi Yehudá, restringe-se ao caso em que a pessoa pretendia tornar o animal uma oferenda proibida, e não a si mesma nazireu.