Disse: "esta vaca disse: sou nazireia se eu ficar de pé". Disse: "esta porta disse: sou nazireu se eu me abrir". Bet Shamai dizem: é nazireu; e Bet Hilel dizem: não é nazireu. Disse Rabi Yehudá: mesmo quando Bet Shamai disseram isso, não o disseram senão de quem diz "eis que esta vaca é para mim oferenda se ficar de pé". — O caso pressupõe alguém diante de uma vaca deitada que resiste a levantar-se, ou de uma porta trancada que resiste a abrir-se: a pessoa, imaginando que o animal ou a porta "pensa" não se mover nunca, projeta sobre eles essa suposta intenção e diz "esta vaca disse: sou nazireia se eu ficar de pé" — ou seja, "eu mesmo serei nazireu a partir dela, se ela ficar de pé". Depois disso, a vaca se levanta ou a porta se abre, seja por si mesma, seja pela ação de terceiros, e não pela ação da própria pessoa que fez o voto. Bet Shamai, seguindo o mesmo princípio da mishná anterior, dizem que ela se torna nazireu, pois sua intenção era apenas que ela mesma não conseguisse mover o animal ou a porta; Bet Hilel dizem que não se torna nazireu, pois esse não é um voto na forma costumeira de quem se torna nazireu. Rabi Yehudá volta a restringir a posição de Bet Shamai: mesmo eles só concordam que há alguma consequência quando a pessoa tencionava tornar a vaca, e não a si mesma, uma oferenda proibida caso ficasse de pé.
Como na mishná anterior, a disputa gira em torno de quando a linguagem do nazireado, formulada de modo indireto, ainda corresponde ao voto que a Torá reconhece.
Bet Shamai e Bet Hilel discordam sobre até onde vai a validade de um voto formulado de modo indireto, atribuído a um animal ou objeto inanimado. Bet Shamai, seguindo o princípio de que "ninguém profere palavras em vão", entendem que, por trás da linguagem figurada, a pessoa realmente pretendia assumir sobre si o nazireado se não conseguisse fazer o animal levantar-se ou a porta abrir-se; como o animal ou a porta se moveram sem a intervenção da própria pessoa, a condição se cumpriu e o nazireado recai sobre ela. Bet Hilel consideram que essa não é a forma costumeira do voto de nazireado, e por isso não há nazireado algum.
A halachá segue Bet Hilel: nesse caso, a pessoa não se torna nazireu.
Rambam explica que Bet Shamai entendem que a intenção real da pessoa era condicionar seu próprio nazireado ao fato de ela mesma não conseguir levantar a vaca ou abrir a porta; como isso se confirmou — a vaca se levantou ou a porta se abriu sem a ação dela —, o nazireado recai sobre a pessoa. Bet Hilel replicam que mesmo que a pessoa tivesse dito explicitamente "sou nazireu a partir da carne desta vaca", ainda assim não se tornaria nazireu, pois não existe nazireado vinculado a um animal; a fortiori, a linguagem indireta usada aqui também não gera nazireado algum.
Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre a mishná.
Rashi precisa o cenário concreto por trás da linguagem figurada da mishná: uma vaca está deitada diante da pessoa, resistindo a levantar-se por ação humana, e ela diz, em essência, "parece-me que esta vaca pensa que nunca se levantará por meio de alguém; pois bem, serei nazireu a partir de sua carne se sua própria suposição se confirmar — isto é, se ela ficar de pé sozinha, sem que eu vá levantá-la". A "fala" atribuída à vaca é, portanto, apenas uma forma poética de expressar a condição real: o nazireado da pessoa depende de o animal se levantar por conta própria, e não por sua própria intervenção.
Rambam descreve a réplica de Bet Hilel a Bet Shamai: mesmo que a pessoa tivesse dito de modo totalmente explícito "sou nazireu a partir da carne desta vaca", isso não bastaria para gerar nazireado, porque não existe voto de nazireado vinculado a um animal; sendo assim, pela própria lógica de Bet Shamai, não haveria motivo para obrigá-la ao nazireado nesse caso indireto — pois sua intenção nunca foi tornar-se nazireu incondicionalmente, mas apenas caso não conseguisse mover o animal, e o animal se moveu.
Bartenura esclarece que Bet Shamai seguem aqui a mesma lógica da mishná anterior: mesmo que não exista nazireado vinculado literalmente a um animal ou a uma porta, a intenção real da pessoa era condicionar seu voto ao fato de que ela mesma não conseguisse mover o objeto — e como o animal se levantou ou a porta se abriu sem a intervenção direta dela, a condição se cumpriu, tornando-a nazireu. Bet Hilel concordam que, se o animal não tivesse se movido de modo algum, também eles admitiriam que não haveria nazireado; a disputa real, segundo Rabi Yehudá, restringe-se ao caso em que a pessoa pretendia tornar o animal uma oferenda proibida, e não a si mesma nazireu.