Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Bet · Mishná 9 de 10

Dois nazireados na mesma pessoa: qual conta primeiro

מַשְׁלִים אֶת שֶׁלּוֹ וְאַחַר כָּךְ מוֹנֶה אֶת שֶׁל בְּנוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de quem assume, na mesma declaração, dois nazireados distintos — um imediato e outro condicionado ao nascimento futuro de um filho — e examina qual dos dois deve ser contado primeiro quando o nascimento ocorre no meio da contagem do primeiro.

"Sou nazireu, e nazireu quando eu tiver um filho" — começou a contar o seu, e depois nasceu-lhe um filho, completa o seu e depois conta o de seu filho. "Sou nazireu quando eu tiver um filho, e nazireu" — começou a contar o seu, e depois nasceu-lhe um filho, deixa o seu e conta o de seu filho, e depois completa o seu.A ordem exata em que a pessoa pronuncia os dois votos determina qual deles tem prioridade quando o nascimento do filho ocorre durante a contagem já iniciada. No primeiro caso, a pessoa disse primeiro "sou nazireu" — um voto imediato e incondicional — e só depois acrescentou a condição referente ao filho; por isso, mesmo que o filho nasça antes de ela completar seus trinta dias, ela continua e completa primeiro seu próprio nazireado, que já estava em curso e tinha prioridade cronológica na declaração, e só depois começa a contar o nazireado do filho. No segundo caso, a ordem das cláusulas é invertida: a pessoa condicionou primeiro seu voto ao nascimento do filho, e só depois — talvez pensando ainda não ter filho algum — acrescentou um segundo voto imediato, "e nazireu". Como o compromisso referente ao filho foi mencionado primeiro na declaração, ele tem prioridade: assim que o filho nasce, mesmo que isso interrompa a contagem já iniciada do voto imediato, a pessoa deve pausar seu próprio nazireado, contar primeiro o do filho por completo, e só depois retomar e completar o que faltava do seu.

הֲרֵינִי נָזִיר, וְנָזִיר כְּשֶׁיִּהְיֶה לִי בֵן, הִתְחִיל מוֹנֶה אֶת שֶׁלּוֹ וְאַחַר כָּךְ נוֹלַד לוֹ בֵן, מַשְׁלִים אֶת שֶׁלּוֹ וְאַחַר כָּךְ מוֹנֶה אֶת שֶׁל בְּנוֹ. הֲרֵינִי נָזִיר כְּשֶׁיִּהְיֶה לִי בֵן וְנָזִיר, הִתְחִיל מוֹנֶה אֶת שֶׁלּוֹ וְאַחַר כָּךְ נוֹלַד לוֹ בֵן, מַנִּיחַ אֶת שֶׁלּוֹ וּמוֹנֶה אֶת שֶׁל בְּנוֹ, וְאַחַר כָּךְ מַשְׁלִים אֶת שֶׁלּוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A mishná depende do princípio de que uma pessoa pode assumir múltiplos votos de nazireado, cada um contado de modo sequencial e distinto, segundo a estrutura de sua própria declaração.

Bemidbar (Números) 6:2
כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר
Quando alguém, homem ou mulher, fizer o voto especial de nazireu.

Nada impede que uma única pessoa assuma sobre si múltiplos votos de nazireado, um após o outro, desde que cada um seja contado por seus próprios trinta dias mínimos, sem sobreposição. A mishná resolve o problema prático de qual nazireado deve ser contado primeiro seguindo a ordem cronológica exata em que os dois compromissos foram pronunciados na fala da pessoa — o voto mencionado primeiro tem prioridade de contagem.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como Rashi não traz glosa independente sobre esta mishná no daf correspondente do Bavli, a halachá é apresentada com base no Perush HaMishná de Rambam, honestamente identificado como fonte principal.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 2:9
זה כולו מבואר. ודע כי כשנטמא בימי הנזירות שחלה עליו כשנולד הבן סותר את הכל לפי שנזירותו ונזירות בנו במדריגת נזירות אחת אנו חושבים אותו

Rambam acrescenta uma nota relevante para a prática: como os dois nazireados da mesma pessoa — o seu e o de seu filho — são tratados, para efeitos de certas leis, como uma única unidade contínua de nazireado, se a pessoa se impurificar por contato com um morto durante os dias do nazireado que recaiu sobre ela quando o filho nasceu, essa impureza anula a contagem inteira, tanto do nazireado do filho quanto do que restava do seu próprio, exigindo reinício.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi não traz glosa independente sobre esta mishná no daf correspondente do Talmud Bavli — a sugiá que discute o tema aparece adiante, ligada a outras questões da Guemará. Por isso o perush aqui se apoia em Rambam e Bartenura, honestamente identificados.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 2:9
זה כולו מבואר. ודע כי כשנטמא בימי הנזירות שחלה עליו כשנולד הבן סותר את הכל לפי שנזירותו ונזירות בנו במדריגת נזירות אחת אנו חושבים אותו

Rambam considera o mecanismo da mishná autoexplicativo — a ordem das cláusulas na declaração determina a ordem da contagem — e acrescenta uma observação sobre suas implicações: como os dois nazireados formam, na prática, uma sequência unificada dentro da mesma pessoa, uma impureza que ocorra durante o período em que o nazireado do filho está sendo contado anula não apenas essa contagem, mas também o que restava do nazireado original da própria pessoa, pois ambos são tratados como uma única cadeia contínua de obrigação.

Bartenura · רע"ב
Nazir 2:9
הרינו נזיר ונזיר לכשיהיה לי בן. מי שקיבל עליו נזירות סתם, ועוד קיבל עליו נזירות אחרת כשיהיה לו בן... מניח את שלו ומונה את של בנו. דכיון שקיבל עליו נזירות בנו תחלה, מיד כשנולד לו בן צריך להניח את שלו ולמנות של בנו, ואחר כך משלים את שלו

Bartenura confirma a leitura estrutural da mishná, explicando cada cláusula em sua ordem: no primeiro caso, a pessoa assumiu primeiro o nazireado simples e só depois o nazireado condicionado ao filho, por isso completa o primeiro antes de começar o segundo. No segundo caso, como a pessoa assumiu primeiro o compromisso referente ao filho — mesmo que ele ainda não tivesse nascido no momento da declaração — esse voto tem prioridade estrutural: assim que o filho nasce, mesmo interrompendo a contagem já em curso do voto imediato, ela precisa pausar e contar primeiro o nazireado do filho, retomando o próprio somente depois.