Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Zayin · Mishná 1 de 4

Abrindo o Perek Zayin: o Sumo Sacerdote e o nazireu diante do morto sem quem o enterre

כֹּהֵן גָּדוֹל וְנָזִיר אֵינָן מִטַּמְּאִין לִקְרוֹבֵיהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Zayin, a mishná estabelece o princípio geral: tanto o Sumo Sacerdote quanto o nazireu, apesar da santidade elevada de ambos, não podem se impurificar mesmo pelos parentes mais próximos — mas ambos têm o dever de se impurificar pelo met mitzvá, o morto abandonado sem ninguém que o enterre.

O Sumo Sacerdote e o nazireu não se impurificam por seus parentes, mas se impurificam pelo met mitzvá.O Perek Vav encerrou-se tratando da impureza que anula ou não anula os dias já cumpridos do nazireado; o Perek Zayin abre com um tema correlato, mas distinto: quem, dentre os que têm restrições especiais quanto à impureza, é obrigado a enterrar um morto que ninguém mais pode enterrar. A Torá proíbe explicitamente tanto o Sumo Sacerdote quanto o nazireu de se impurificarem por seus parentes mais próximos — pai, mãe, irmão, irmã —, ao contrário do cohen comum, que tem o dever de se impurificar por esses mesmos parentes. Essa restrição, porém, cede diante do met mitzvá: um cadáver encontrado sem ninguém disponível para cuidar de seu sepultamento, caso em que a obrigação de dar dignidade ao morto — considerada fundamental na Torá — prevalece até mesmo sobre as restrições de santidade mais rigorosas.

כֹּהֵן גָּדוֹל וְנָזִיר אֵינָן מִטַּמְּאִין לִקְרוֹבֵיהֶן, אֲבָל מִטַּמְּאִין לְמֵת מִצְוָה.
A mishná examina o caso em que os dois se encontram juntos diante de um met mitzvá no caminho — situação em que apenas um deles precisa se impurificar, gerando a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre qual dos dois deve fazê-lo.

Estavam caminhando pelo caminho e encontraram um met mitzvá — Rabi Eliezer diz: que se impurifique o Sumo Sacerdote, e não se impurifique o nazireu. E os sábios dizem: que se impurifique o nazireu, e não se impurifique o Sumo Sacerdote.O caso concreto que a mishná examina é o de um Sumo Sacerdote e um nazireu que caminham juntos e deparam-se com um met mitzvá: já que ambos têm o dever de se impurificar por ele, mas apenas um precisa efetivamente fazê-lo (não há necessidade de que ambos se contaminem para enterrar um único corpo), surge a questão de qual dos dois deve ceder e se tornar impuro. Rabi Eliezer sustenta que deve ser o Sumo Sacerdote quem se impurifica, poupando o nazireu; os sábios sustentam exatamente o oposto — que deve ser o nazireu quem se impurifica, poupando o Sumo Sacerdote.

הָיוּ מְהַלְּכִין בַּדֶּרֶךְ וּמָצְאוּ מֵת מִצְוָה, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, יִטַּמָּא כֹהֵן גָּדוֹל וְאַל יִטַּמָּא נָזִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יִטַּמָּא נָזִיר וְאַל יִטַּמָּא כֹהֵן גָּדוֹל.
A mishná registra os argumentos de ambos os lados: Rabi Eliezer compara o custo da impureza — sem sacrifício para o cohen, com sacrifício para o nazireu —, e os sábios respondem comparando a duração da santidade de cada um.

Disse-lhes Rabi Eliezer: que se impurifique o cohen, que não traz sacrifício por sua impureza, e não se impurifique o nazireu, que traz sacrifício por sua impureza. Disseram-lhe: que se impurifique o nazireu, cuja santidade não é santidade eterna, e não se impurifique o cohen, cuja santidade é santidade eterna.Rabi Eliezer defende sua posição com um argumento de custo prático: tornar-se impuro é, para o Sumo Sacerdote, uma consequência mais leve, pois ele não precisa trazer nenhum sacrifício especial por essa impureza; já para o nazireu, a mesma impureza acarreta a obrigação de trazer sacrifícios de purificação e recomeçar a contagem — um ônus mais pesado, que Rabi Eliezer prefere evitar. Os sábios respondem com um argumento diferente, baseado na natureza da santidade de cada um: a santidade do nazireado é temporária, limitada aos dias do voto, e cessa naturalmente quando eles se completam; a santidade do Sumo Sacerdote, ao contrário, é permanente, vinculada ao cargo enquanto ele vive. Por isso, para os sábios, é preferível que seja interrompida — ainda que temporariamente, pela impureza — a santidade que de todo modo é passageira, preservando intacta a santidade que dura para sempre.

אָמַר לָהֶם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, יִטַּמָּא כֹהֵן שֶׁאֵינוֹ מֵבִיא קָרְבָּן עַל טֻמְאָתוֹ, וְאַל יִטַּמָּא נָזִיר שֶׁהוּא מֵבִיא קָרְבָּן עַל טֻמְאָתוֹ. אָמְרוּ לוֹ, יִטַּמָּא נָזִיר שֶׁאֵין קְדֻשָּׁתוֹ קְדֻשַּׁת עוֹלָם, וְאַל יִטַּמָּא כֹהֵן שֶׁקְּדֻשָּׁתוֹ קְדֻשַּׁת עוֹלָם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A proibição do nazireu quanto aos parentes está em Bemidbar; a proibição paralela do Sumo Sacerdote, formulada em termos ainda mais estritos, está em Vaikrá.

Bemidbar (Números) 6:6-7
כָּל יְמֵי הַזִּירוֹ לַיהוָה עַל נֶפֶשׁ מֵת לֹא יָבֹא. לְאָבִיו וּלְאִמּוֹ לְאָחִיו וּלְאַחֹתוֹ לֹא יִטַּמָּא לָהֶם בְּמֹתָם, כִּי נֵזֶר אֱלֹהָיו עַל רֹאשׁוֹ
Todos os dias de seu nazireado ao Eterno, não se aproximará de um morto. Por seu pai, e por sua mãe, por seu irmão e por sua irmã, não se impurificará por eles em sua morte, pois a coroa de seu Deus está sobre sua cabeça.
Vaikrá (Levítico) 21:11
וְעַל כָּל נַפְשֹׁת מֵת לֹא יָבֹא, לְאָבִיו וּלְאִמּוֹ לֹא יִטַּמָּא
E a nenhuma alma morta se aproximará; por seu pai e por sua mãe não se impurificará.

A Torá menciona explicitamente "seu pai e sua mãe" tanto a respeito do nazireu quanto a respeito do Sumo Sacerdote — repetição que, segundo a leitura talmúdica citada por Rambam, não vem para restringir ainda mais a proibição, mas para ensinar por comparação (guezerá shavá) que, assim como o Sumo Sacerdote se impurifica pelo met mitzvá apesar da proibição quanto a seus parentes, também o nazireu se impurifica pelo met mitzvá apesar de sua própria proibição idêntica. É esse fundamento comum, extraído da mesma expressão nos dois textos, que fixa o princípio geral com que a mishná abre o Perek Zayin, antes de examinar o caso em que os dois deveres colidem.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, situa a base textual da impureza pelo met mitzvá e confirma que a halachá segue os sábios.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 7:1
לשון התורה בנזיר על נפש מת לא יבא לאביו ולאמו לאחיו ולאחותו לא יטמא להם במותם והלשון בכהן גדול על כל נפשות מת לא יבא לאביו ולאמו לא יטמא וכבר בארנו בפרק שקודם זה שהנזיר מטמא למת מצוה והביאו ראיה על זה ממה שכתוב לאביו ולאמו וכן כ"ג מטמא למת מצוה שנאמר לאביו ולאמו. והלכה כחכמים

Rambam observa que a Torá usa a mesma expressão — "por seu pai e por sua mãe" — tanto na proibição do nazireu quanto na do Sumo Sacerdote, e que dessa repetição comum os sábios já haviam extraído, no capítulo anterior, a prova de que o nazireu se impurifica pelo met mitzvá; a mesma lógica se aplica igualmente ao Sumo Sacerdote. Rambam conclui explicitamente que a halachá segue os sábios — ou seja, diante de um met mitzvá encontrado por ambos juntos, é o nazireu quem deve se impurificar, e não o Sumo Sacerdote.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará, abrindo o Perek Zayin, além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 47a, s.v. מתני' כהן גדול ונזיר אין מיטמאין לקרוביהן
מַתְנִיתִין כֹּהֵן גָּדוֹל וְנָזִיר אֵין מִיטַּמְּאִין לִקְרוֹבֵיהֶן - וּכְדִמְפָרֵשׁ בְּהוּ קְרָאֵי לְטֻמְאָה לְקַמָּן בַּגְּמָרָא:

Rashi assinala, ao abrir o Perek Zayin, que a mishná se apoia em versículos específicos — os mesmos que a própria Guemará irá expor a seguir — para fundamentar a proibição de impureza que recai tanto sobre o Sumo Sacerdote quanto sobre o nazireu quanto a seus parentes.

Rashi · רש״י
Nazir 47b, s.v. גמ' עד כאן לא פליגי
עַד כָּאן לֹא פְּלִיגֵי - רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבָּנָן אֶלָּא בְּכֹהֵן גָּדוֹל וְנָזִיר דְּקָאָזְלֵי בַּהֲדֵי הֲדָדֵי וְאַשְׁכְּחוּ מֵת מִצְוָה הֵי מִינַּיְיהוּ לִיטַּמָּא בְּרֵישָׁא, אֲבָל חַד לְחוֹדֵיהּ כוּ׳

Rashi esclarece o alcance exato da disputa entre Rabi Eliezer e os sábios: ela só existe no caso específico em que o Sumo Sacerdote e o nazireu caminham juntos e encontram um met mitzvá, quando é preciso decidir qual dos dois deve se impurificar primeiro; quando qualquer um deles está sozinho, não há disputa alguma — ambos têm o dever individual de se impurificar pelo met mitzvá, como já estabelece a primeira parte da mishná.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 7:1
לשון התורה בנזיר על נפש מת לא יבא לאביו ולאמו לאחיו ולאחותו לא יטמא להם במותם והלשון בכהן גדול על כל נפשות מת לא יבא לאביו ולאמו לא יטמא

Rambam compara textualmente as duas proibições — a do nazireu em Bemidbar e a do Sumo Sacerdote em Vaikrá — mostrando que, apesar da diferença de linguagem, ambas mencionam explicitamente "pai" e "mãe", base textual comum de que os sábios extraem, por comparação, o dever de ambos de se impurificarem pelo met mitzvá.

Bartenura · רע״ב
Nazir 7:1
כֹּהֵן גָּדוֹל וְנָזִיר אֵינָן מִטַּמְּאִין לִקְרוֹבֵיהֶן. כְּדִכְתִיב בְּפָרָשַׁת אֱמֹר וּבְפָרָשַׁת נָשֹׂא: הָיוּ מְהַלְּכִים בַּדֶּרֶךְ. לָאו דַוְקָא בְּכֹהֵן גָּדוֹל פְּלִיגֵי, דְּהוּא הַדִּין בְּכֹהֵן הֶדְיוֹט נַמִּי פְלִיגֵי, דְּחַד טַעְמָא הוּא

Bartenura remete às duas passagens da Torá — Parashat Emor e Parashat Nasso — como fonte da proibição dupla, e observa que a disputa registrada na mishná não se restringe ao Sumo Sacerdote: o mesmo raciocínio, e portanto a mesma disputa, aplicar-se-ia igualmente a um cohen comum que encontrasse um met mitzvá junto com um nazireu, pois a lógica por trás dos dois argumentos — o custo do sacrifício, de um lado, e a permanência da santidade, de outro — é a mesma em ambos os casos.