Nazireu que tinha dúvida de impureza e dúvida de estar confirmado leproso — come de coisas sagradas depois de sessenta dias, e bebe vinho e se impurifica por mortos depois de cento e vinte dias, pois a tosquia da lesão afasta a tosquia do nazireado quando é certa, mas quando é em dúvida não afasta. — A última mishná do Perek Chet examina um caso de dupla incerteza sobreposta: um nazireu sobre quem paira, ao mesmo tempo, dúvida de ter contraído impureza por contato com um morto e dúvida de ter sido diagnosticado como leproso confirmado (metzorá muchlat) — condição que, segundo a Torá, exige duas tosquias sucessivas separadas por sete dias, além de sacrifícios próprios antes de poder comer de coisas sagradas. Como cada uma dessas duas condições tem seu próprio processo de purificação, com suas próprias tosquias e seus próprios prazos, e como nenhuma tosquia realizada sob uma condição substitui a tosquia devida à outra, o nazireu precisa passar por um processo cumulativo de sucessivas tosquias de dúvida — primeiro a de sessenta dias, que resolve apenas sua permissão de comer coisas sagradas (relacionada à dúvida da lepra), e depois, somente aos cento e vinte dias, a permissão mais ampla de beber vinho e se impurificar por mortos, que depende também da resolução da dúvida sobre seu nazireado. A mishná fecha com o princípio que resume toda a lógica do caso: a tosquia da lepra só tem o poder de afastar (substituir) a tosquia do nazireado quando a condição de lepra é certa e confirmada — nunca quando ela mesma é apenas duvidosa, pois uma dúvida não pode servir de base para dispensar uma obrigação certa.
Os dois processos que se sobrepõem nesta mishná têm fontes distintas na Torá: a dupla tosquia do leproso confirmado, e a proibição absoluta de tosquiar o nazireu antes do prazo.
Rambam explica que a Torá descreve o processo do metzorá muchlat (leproso confirmado) como exigindo duas tosquias distintas — a primeira quando ele é curado de sua lepra, a segunda sete dias depois, antes de trazer seus sacrifícios finais e poder comer coisas sagradas —, e que os dias entre essas duas tosquias (yemei sofro) e os dias de sua confirmação inicial (yemei gomro) não contam para o nazireado, tal como já estabelecido no Perek Zayin. Ao mesmo tempo, a proibição absoluta de tosquiar o nazireu antes do fim de seu voto — "navalha não passará sobre sua cabeça" — impede que ele seja tosquiado por dúvida antes que o prazo mínimo se complete, pois talvez seja, afinal, um nazireu puro. É dessa colisão entre dois processos de tosquia, cada um com sua própria exigência temporal e ambos em estado de dúvida, que nasce a estrutura complexa de prazos acumulados desta mishná.
Rambam, no Perush HaMishná, decompõe o raciocínio completo por trás dos prazos de sessenta e de cento e vinte dias.
Rambam decompõe o raciocínio em seis princípios prévios necessários e explica que, sendo o nazireado padrão de trinta dias, e havendo quatro combinações possíveis de dúvida (impuro-e-confirmado, impuro-e-não-confirmado, confirmado-e-não-impuro, ou nenhum dos dois), o nazireu precisa, no total, passar por quatro tosquias sucessivas — cada uma separada por um novo período de trinta dias —, somando cento e vinte dias antes de estar plenamente liberado de todas as restrições. A permissão intermediária de comer coisas sagradas, porém, chega mais cedo, depois de apenas sessenta dias (duas tosquias), pois essa permissão depende apenas de resolver a dúvida sobre a lepra confirmada, não sobre o nazireado em si.
Perush de Rashi sobre a Guemará, encerrando o Perek Chet, além de Rambam e Bartenura.
Rashi remete o leitor de volta ao Perek Zayin, onde já foi explicada a lógica das tosquias e seus prazos, e confirma a regra geral que resume esta mishná: o nazireu com dupla dúvida tosquia ao todo quatro vezes, cada tosquia separada por um período completo do nazireado original — trinta em trinta dias, se seu voto era de duração mínima, ou ano a ano, se havia votado um nazireado de duração mais longa.
Rambam destaca dois dos seis princípios que sustentam toda a mishná: primeiro, que a impureza contraída em qualquer momento do nazireado — mesmo no último dia — anula tudo o que já foi contado, exigindo recomeço completo; segundo, o princípio central expresso explicitamente na própria mishná, de que a tosquia da lepra só substitui a tosquia do nazireado quando a condição de leproso confirmado é certa, nunca quando é apenas duvidosa — pois uma obrigação certa (a tosquia do nazireado) não pode ser dispensada por uma condição incerta.
Bartenura esclarece a razão prática por trás da liberação mais rápida para comer coisas sagradas: enquanto a dúvida sobre ser leproso confirmado não é resolvida, ele está na categoria de quem ainda não trouxe sua expiação completa (mechusar kapparah), condição que por si só já proíbe comer coisas sagradas — independentemente de qualquer dúvida relacionada ao nazireado. Por isso, assim que essa dúvida específica se resolve, aos sessenta dias, essa proibição particular cai, ainda que as restrições mais amplas do nazireado — vinho e impureza — continuem em vigor até os cento e vinte dias completos, encerrando assim o Perek Chet com o caso mais intricado de sobreposição de dúvidas em todo o tratado.