Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Tet · Mishná 5 de 5 · Última mishná do tratado

"E navalha não subirá sobre sua cabeça" — siyum de Massechet Nazir

נָזִיר הָיָה שְׁמוּאֵל, כְּדִבְרֵי רַבִּי נְהוֹרַאי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do tratado inteiro fecha com um caso aplicado de nazireado bíblico: segundo Rabi Nehorai, o profeta Shmuel foi nazireu, prova extraída por comparação verbal entre o voto que sua mãe Chaná fez por ele e o anúncio angélico sobre o nazireado de Shimshon.

Nazireu foi Shmuel, segundo as palavras de Rabi Nehorai, pois foi dito: "e navalha não subirá sobre sua cabeça" — foi dito a respeito de Shimshon "navalha", e foi dito a respeito de Shmuel "navalha"; assim como a "navalha" dita a respeito de Shimshon é nazireado, também a "navalha" dita a respeito de Shmuel é nazireado.A última mishná do tratado aplica a técnica hermenêutica da guezerá shavá — comparação verbal entre dois textos que compartilham a mesma expressão incomum — para provar que o profeta Shmuel, embora a Torá e os Neviim nunca afirmem explicitamente que ele fez um voto de nazireado, de fato foi nazireu por toda a vida. A base é o voto que sua mãe, Chaná, fez em I Samuel 1:11, prometendo que se tivesse um filho, "navalha não subirá sobre sua cabeça" — exatamente a mesma expressão usada pelo anjo ao anunciar o nascimento de Shimshon em Shoftim 13:5, onde o texto deixa explícito que se trata de nazireado ("pois nazireu de D-us será o rapaz desde o ventre"). Como a mesma palavra incomum, morá, aparece em ambos os contextos, Rabi Nehorai infere que ela carrega o mesmo significado técnico nos dois casos: assim como em Shimshon a expressão certamente designa o voto de nazireado, também em Shmuel ela designa exatamente o mesmo voto — um nazireado vitalício, imposto por sua mãe antes mesmo de seu nascimento.

נָזִיר הָיָה שְׁמוּאֵל, כְּדִבְרֵי רַבִּי נְהוֹרַאי, שֶׁנֶּאֱמַר וּמוֹרָה לֹא יַעֲלֶה עַל רֹאשׁוֹ, נֶאֱמַר בְּשִׁמְשׁוֹן וּמוֹרָה, וְנֶאֱמַר בִּשְׁמוּאֵל וּמוֹרָה, מַה מּוֹרָה הָאֲמוּרָה בְשִׁמְשׁוֹן, נָזִיר, אַף מוֹרָה הָאֲמוּרָה בִשְׁמוּאֵל, נָזִיר.
O tratado se encerra com a réplica de Rabi Yosei, que explora o duplo sentido da mesma palavra hebraica para questionar a prova, e a resposta final de Rabi Nehorai, que resolve a ambiguidade recorrendo a um episódio posterior da vida do próprio Shmuel adulto.

Disse Rabi Yosei: mas não é "morá" senão de carne e sangue? Disse-lhe Rabi Nehorai: mas já não foi dito "e disse Shmuel: como irei, e ouvirá Shaul e me matará" — que já havia sobre ele "morá" de carne e sangue?O tratado inteiro se encerra com uma última réplica engenhosa, que explora a ambiguidade da própria palavra hebraica em jogo: morá pode significar tanto "navalha" (mo-rah, relacionado a tosquiar) quanto "medo" ou "temor" (mo-rah, relacionado a temer). Rabi Yosei desafia a leitura de Rabi Nehorai propondo que, no voto de Chaná, a palavra talvez não signifique "navalha" — uma alusão ao nazireado — mas sim "temor de carne e sangue", isto é, uma bênção de que seu filho jamais temeria autoridade humana alguma, leitura que romperia completamente a comparação verbal com Shimshon e deixaria sem provas a tese de que Shmuel foi nazireu. Rabi Nehorai refuta essa alternativa com um argumento factual decisivo, extraído de I Samuel 16:2: quando D-us ordena a Shmuel que vá ungir Davi em segredo, o próprio profeta responde "como irei? Se Shaul ouvir, me matará" — demonstrando, no relato bíblico explícito, que Shmuel de fato sentiu, ao menos naquele momento, um temor genuíno de uma autoridade humana. Como a alternativa proposta por Rabi Yosei ("nunca teria temor de carne e sangue") se revela historicamente falsa pelo próprio texto bíblico, ela não pode ser a leitura correta do voto de Chaná — confirmando, por eliminação, que a leitura original de Rabi Nehorai estava certa: a palavra morá no voto de Chaná refere-se, de fato, à navalha do nazireado, e Shmuel foi, como Shimshon, um nazireu por toda a vida. É com esse debate sutil e memorável, equilibrando dois sentidos da mesma palavra hebraica, que se encerra Massechet Nazir.

אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, וַהֲלֹא אֵין מוֹרָה אֶלָּא שֶׁל בָּשָׂר וָדָם. אָמַר לוֹ רַבִּי נְהוֹרַאי, וַהֲלֹא כְבָר נֶאֱמַר וַיֹּאמֶר שְׁמוּאֵל אֵיךְ אֵלֵךְ וְשָׁמַע שָׁאוּל וַהֲרָגָנִי, שֶׁכְּבָר הָיָה עָלָיו מוֹרָה שֶׁל בָּשָׂר וָדָם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Os dois textos comparados por guezerá shavá — o voto de Chaná e o anúncio a Shimshon — mais o episódio do temor de Shmuel diante de Shaul, invocado por Rabi Nehorai.

I Shmuel (Samuel) 1:11
וְנָתַתָּה לַאֲמָתְךָ זֶרַע אֲנָשִׁים, וּנְתַתִּיו לַיהוָה כָּל יְמֵי חַיָּיו, וּמוֹרָה לֹא יַעֲלֶה עַל רֹאשׁוֹ
E deres a tua serva descendência de homens, eu o darei ao Eterno por todos os dias de sua vida, e navalha não subirá sobre sua cabeça.
Shoftim (Juízes) 13:5
כִּי הִנָּךְ הָרָה וְיֹלַדְתְּ בֵּן, וּמוֹרָה לֹא יַעֲלֶה עַל רֹאשׁוֹ, כִּי נְזִיר אֱלֹהִים יִהְיֶה הַנַּעַר מִן הַבֶּטֶן
Pois eis que estás grávida, e darás à luz um filho, e navalha não subirá sobre sua cabeça, pois nazireu de D-us será o rapaz desde o ventre.
I Shmuel (Samuel) 16:2
וַיֹּאמֶר שְׁמוּאֵל אֵיךְ אֵלֵךְ וְשָׁמַע שָׁאוּל וַהֲרָגָנִי
E disse Shmuel: como irei? E ouvirá Shaul, e me matará.

Rambam observa que o valor prático de saber se Shmuel foi ou não nazireu é limitado — não afeta halachá alguma diretamente —, mas serve a quem deseja, por exemplo, votar "que eu seja como Shmuel" ou narrar episódios de sua vida como precedente para o nazireado, tal como já se havia discutido a respeito de Shimshon em mishnayot anteriores do tratado. Bartenura confirma que a halachá segue Rabi Nehorai: quem diz "eis que sou como Shmuel", ou "como o filho de Elkaná", ou "como aquele que trespassou Agague em Guilgal" — episódio protagonizado pelo próprio Shmuel em I Samuel 15:33 —, torna-se nazireu, encerrando o tratado com essa aplicação viva do voto às figuras bíblicas mais veneradas de Israel.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, encerra seu comentário a Massechet Nazir confirmando a halachá segundo Rabi Nehorai.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 9:5
תועלת ידיעתינו בשמואל אם הוא נזיר או לא למי שאמר הרי כשמואל או שיספר ספור מספוריו כמו שאמרנו בשמשון. והלכה כרבי נהוראי

Rambam explica que a utilidade prática de determinar se Shmuel foi nazireu se manifesta para quem faz um voto invocando seu nome — "eis que sou como Shmuel" —, ou para quem narra episódios de sua biografia como parte da fórmula de um voto, exatamente como já explicado a respeito de Shimshon em mishnayot anteriores. Rambam confirma, encerrando seu comentário ao tratado inteiro, que a halachá segue Rabi Nehorai: Shmuel foi, de fato, nazireu.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará, encerrando o tratado, além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 66a, s.v. מתני' כדרבי רבי נהוראי; מה מורה האמורה בשמשון נזיר
מַתְנִיתִין כְּדִבְרֵי רַבִּי נְהוֹרַאי - כָּךְ דִּבְרֵי רַבִּי נְהוֹרַאי: מַה מּוֹרָה הָאֲמוּרָה בְשִׁמְשׁוֹן נָזִיר - דִּכְתִיב כִּי נְזִיר אֱלֹהִים יִהְיֶה הַנַּעַר מִן הַבֶּטֶן

Rashi, no último comentário do tratado, confirma o texto explícito de Shoftim 13:5, onde a Torá deixa claro, sem ambiguidade, que a palavra morá dita a Shimshon se refere ao nazireado — base sólida sobre a qual Rabi Nehorai constrói sua comparação verbal com o voto de Chaná a respeito de Shmuel, encerrando com esse comentário conciso o perush de Rashi a Massechet Nazir.

Bartenura · רע״ב
Nazir 9:5
נָזִיר הָיָה שְׁמוּאֵל. וְהָאוֹמֵר הֲרֵינִי כִשְׁמוּאֵל, אוֹ כְּבֶן אֶלְקָנָה, אוֹ כְּמִי שֶׁשִּׁסֵּף אֲגַג בַּגִּלְגַּל, הָוֵי נָזִיר לְדִבְרֵי רַבִּי נְהוֹרַאי, וְכֵן הֲלָכָה: אֵין מוֹרָה אֶלָּא שֶׁל בָּשָׂר וָדָם. שֶׁלֹּא תְהֵא מָרוּת וְאֵימַת אָדָם עָלָיו

Bartenura, encerrando seu comentário ao tratado inteiro, confirma que a halachá segue Rabi Nehorai e lista três fórmulas equivalentes que produzem nazireado por alusão a Shmuel: invocar seu nome diretamente, invocar sua filiação ("filho de Elkaná"), ou invocar seu ato mais célebre, a execução do rei amalekita Agague em Guilgal. Sobre a objeção de Rabi Yosei, Bartenura explica que a leitura alternativa proposta seria a de uma bênção de coragem — "que autoridade e temor humano jamais se imponham sobre ele" —, leitura que a réplica final de Rabi Nehorai afasta definitivamente ao demonstrar, com o próprio texto bíblico, que Shmuel de fato temeu Shaul.

סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת נָזִיר
Aqui se conclui Massechet Nazir — o quarto tratado de Seder Nashim, com nove perakim e sessenta mishnayot. O Perek Tet, último do tratado, com cinco mishnayot, abriu definindo quem tem capacidade jurídica para o voto de nazireado — não os gentios, mas mulheres e escravos, com a comparação detalhada entre o rigor sobre cada um deles e a disputa sobre o escravo fugitivo (9:1); tratou da impureza do abismo, que não anula os dias já cumpridos quando descoberta depois da tosquia de pureza, ilustrada pelo caso da caverna (9:2); examinou quando um campo se torna reconhecidamente "vizinhança de sepulturas", exigindo verificação sistemática da área (9:3); estendeu o princípio de presunção às dúvidas sobre lesões de pele, aos sete modos de verificar o zav, e ao caso do agressor cuja vítima piora depois de melhorar (9:4); e fechou com a prova de que o profeta Shmuel foi nazireu, por comparação verbal com o anúncio do nazireado de Shimshon, resolvendo a última réplica do tratado com o próprio temor que Shmuel expressou diante do rei Shaul (9:5).

Massechet Nazir percorreu, em seus nove perakim, o arco inteiro das leis do nazireado: os Perakim Alef e Bet estabeleceram as expressões que constituem o voto e sua duração padrão de trinta dias; os Perakim Guimel e Dalet trataram da nazireado da mulher e da autoridade do pai e do marido para anulá-lo, e dos nazireados contados em sucessão; o Perek Hei explorou os votos condicionais e por engano; o Perek Vav expôs as três proibições centrais — vinho, corte de cabelo, impureza por morto — e encerrou com o precedente histórico de Miriam a Tarmodita; o Perek Zayin tratou das prioridades entre o Sumo Sacerdote e o nazireu diante do met mitzvá e catalogou as impurezas maiores e menores; o Perek Chet examinou os casos de dupla dúvida, entre dois nazireus e entre impureza e lepra; e o Perek Tet, finalmente, fechou o tratado com as leis de capacidade jurídica, presunção e o caso vivo do profeta Shmuel. Por possuir Guemará completa no Talmud Bavli, cada mishná do tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud, sempre que disponível para a mishná específica.

Com o encerramento de Massechet Nazir — o quarto tratado de Seder Nashim a se completar, depois de Massechet Yevamot, Massechet Ketubot e Massechet Nedarim —, prosseguem em construção os demais tratados da ordem: Sotá, Guitin e Kidushin, somando-se a Seder Zeraim e Seder Moed, já concluídas anteriormente.