Nazireu foi Shmuel, segundo as palavras de Rabi Nehorai, pois foi dito: "e navalha não subirá sobre sua cabeça" — foi dito a respeito de Shimshon "navalha", e foi dito a respeito de Shmuel "navalha"; assim como a "navalha" dita a respeito de Shimshon é nazireado, também a "navalha" dita a respeito de Shmuel é nazireado. — A última mishná do tratado aplica a técnica hermenêutica da guezerá shavá — comparação verbal entre dois textos que compartilham a mesma expressão incomum — para provar que o profeta Shmuel, embora a Torá e os Neviim nunca afirmem explicitamente que ele fez um voto de nazireado, de fato foi nazireu por toda a vida. A base é o voto que sua mãe, Chaná, fez em I Samuel 1:11, prometendo que se tivesse um filho, "navalha não subirá sobre sua cabeça" — exatamente a mesma expressão usada pelo anjo ao anunciar o nascimento de Shimshon em Shoftim 13:5, onde o texto deixa explícito que se trata de nazireado ("pois nazireu de D-us será o rapaz desde o ventre"). Como a mesma palavra incomum, morá, aparece em ambos os contextos, Rabi Nehorai infere que ela carrega o mesmo significado técnico nos dois casos: assim como em Shimshon a expressão certamente designa o voto de nazireado, também em Shmuel ela designa exatamente o mesmo voto — um nazireado vitalício, imposto por sua mãe antes mesmo de seu nascimento.
Disse Rabi Yosei: mas não é "morá" senão de carne e sangue? Disse-lhe Rabi Nehorai: mas já não foi dito "e disse Shmuel: como irei, e ouvirá Shaul e me matará" — que já havia sobre ele "morá" de carne e sangue? — O tratado inteiro se encerra com uma última réplica engenhosa, que explora a ambiguidade da própria palavra hebraica em jogo: morá pode significar tanto "navalha" (mo-rah, relacionado a tosquiar) quanto "medo" ou "temor" (mo-rah, relacionado a temer). Rabi Yosei desafia a leitura de Rabi Nehorai propondo que, no voto de Chaná, a palavra talvez não signifique "navalha" — uma alusão ao nazireado — mas sim "temor de carne e sangue", isto é, uma bênção de que seu filho jamais temeria autoridade humana alguma, leitura que romperia completamente a comparação verbal com Shimshon e deixaria sem provas a tese de que Shmuel foi nazireu. Rabi Nehorai refuta essa alternativa com um argumento factual decisivo, extraído de I Samuel 16:2: quando D-us ordena a Shmuel que vá ungir Davi em segredo, o próprio profeta responde "como irei? Se Shaul ouvir, me matará" — demonstrando, no relato bíblico explícito, que Shmuel de fato sentiu, ao menos naquele momento, um temor genuíno de uma autoridade humana. Como a alternativa proposta por Rabi Yosei ("nunca teria temor de carne e sangue") se revela historicamente falsa pelo próprio texto bíblico, ela não pode ser a leitura correta do voto de Chaná — confirmando, por eliminação, que a leitura original de Rabi Nehorai estava certa: a palavra morá no voto de Chaná refere-se, de fato, à navalha do nazireado, e Shmuel foi, como Shimshon, um nazireu por toda a vida. É com esse debate sutil e memorável, equilibrando dois sentidos da mesma palavra hebraica, que se encerra Massechet Nazir.
Os dois textos comparados por guezerá shavá — o voto de Chaná e o anúncio a Shimshon — mais o episódio do temor de Shmuel diante de Shaul, invocado por Rabi Nehorai.
Rambam observa que o valor prático de saber se Shmuel foi ou não nazireu é limitado — não afeta halachá alguma diretamente —, mas serve a quem deseja, por exemplo, votar "que eu seja como Shmuel" ou narrar episódios de sua vida como precedente para o nazireado, tal como já se havia discutido a respeito de Shimshon em mishnayot anteriores do tratado. Bartenura confirma que a halachá segue Rabi Nehorai: quem diz "eis que sou como Shmuel", ou "como o filho de Elkaná", ou "como aquele que trespassou Agague em Guilgal" — episódio protagonizado pelo próprio Shmuel em I Samuel 15:33 —, torna-se nazireu, encerrando o tratado com essa aplicação viva do voto às figuras bíblicas mais veneradas de Israel.
Rambam, no Perush HaMishná, encerra seu comentário a Massechet Nazir confirmando a halachá segundo Rabi Nehorai.
Rambam explica que a utilidade prática de determinar se Shmuel foi nazireu se manifesta para quem faz um voto invocando seu nome — "eis que sou como Shmuel" —, ou para quem narra episódios de sua biografia como parte da fórmula de um voto, exatamente como já explicado a respeito de Shimshon em mishnayot anteriores. Rambam confirma, encerrando seu comentário ao tratado inteiro, que a halachá segue Rabi Nehorai: Shmuel foi, de fato, nazireu.
Perush de Rashi sobre a Guemará, encerrando o tratado, além de Rambam e Bartenura.
Rashi, no último comentário do tratado, confirma o texto explícito de Shoftim 13:5, onde a Torá deixa claro, sem ambiguidade, que a palavra morá dita a Shimshon se refere ao nazireado — base sólida sobre a qual Rabi Nehorai constrói sua comparação verbal com o voto de Chaná a respeito de Shmuel, encerrando com esse comentário conciso o perush de Rashi a Massechet Nazir.
Bartenura, encerrando seu comentário ao tratado inteiro, confirma que a halachá segue Rabi Nehorai e lista três fórmulas equivalentes que produzem nazireado por alusão a Shmuel: invocar seu nome diretamente, invocar sua filiação ("filho de Elkaná"), ou invocar seu ato mais célebre, a execução do rei amalekita Agague em Guilgal. Sobre a objeção de Rabi Yosei, Bartenura explica que a leitura alternativa proposta seria a de uma bênção de coragem — "que autoridade e temor humano jamais se imponham sobre ele" —, leitura que a réplica final de Rabi Nehorai afasta definitivamente ao demonstrar, com o próprio texto bíblico, que Shmuel de fato temeu Shaul.