Seder Tehorot · Massechet Ohalot · Perek Alef · Mishná 1 de 8

Dois, três e quatro impuros por meio de um morto

שְׁנַיִם טְמֵאִים בְּמֵת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre o tratado com a cadeia de transmissão da impureza a partir de um cadáver: em cada elo, quem toca diretamente fica impuro por sete dias, e o elo seguinte, apenas até a tarde

Dois são impuros por meio de um morto: um é impuro com impureza de sete dias, e um é impuro com impureza de véspera. Três são impuros por meio de um morto: dois são impuros com impureza de sete dias, e um é impuro com impureza de véspera. Quatro são impuros por meio de um morto: três são impuros com impureza de sete dias, e um é impuro com impureza de véspera. Como assim, dois? A pessoa que toca no morto é impura com impureza de sete dias; e a pessoa que toca nela é impura com impureza de véspera.

A mishná de abertura de todo o tratado — e, com ele, de toda a Seder Tehorot — lança o princípio organizador de todo o Perek Alef: a partir do cadáver (met), a impureza se propaga em cadeia, mas perde intensidade a cada elo. Quem toca diretamente no morto recebe a impureza mais grave, de sete dias (tumat shivá); quem toca nesse primeiro contaminado recebe apenas a impureza mais leve, até a tarde (tumat erev) — e a cadeia não avança mais, pois essa impureza de véspera não se transmite adiante a uma terceira pessoa. A mishná anuncia, em três frases paralelas e crescentes, que a mesma estrutura de “o penúltimo elo é grave, o último é leve” se repete quando a cadeia envolve dois, três ou quatro elos — mas só explica de imediato o caso mais simples, o de dois: pergunta retoricamente “como assim, dois?” e responde com o caso da pessoa. As mishnayot seguintes explicarão os casos de três e quatro elos, que envolvem também utensílios.

שְׁנַיִם טְמֵאִים בְּמֵת, אֶחָד טָמֵא טֻמְאַת שִׁבְעָה וְאֶחָד טָמֵא טֻמְאַת עָרֶב. שְׁלשָׁה טְמֵאִין בְּמֵת, שְׁנַיִם טְמֵאִין טֻמְאַת שִׁבְעָה וְאֶחָד טָמֵא טֻמְאַת עָרֶב. אַרְבָּעָה טְמֵאִין בְּמֵת, שְׁלשָׁה טְמֵאִין טֻמְאַת שִׁבְעָה וְאֶחָד טָמֵא טֻמְאַת עָרֶב. כֵּיצַד שְׁנַיִם. אָדָם הַנּוֹגֵעַ בְּמֵת, טָמֵא טֻמְאַת שִׁבְעָה. וְאָדָם הַנּוֹגֵע בּוֹ, טָמֵא טֻמְאַת עָרֶב:

Fontes bíblicas · מִן הַתּוֹרָה

Bemidbar (Números) 19:11 e 19:22
הַנֹּגֵעַ בְּמֵת לְכָל נֶפֶשׁ אָדָם וְטָמֵא שִׁבְעַת יָמִים · וְהַנֶּפֶשׁ הַנֹּגַעַת תִּטְמָא עַד הָעָרֶב

“O que tocar no morto, em qualquer pessoa que morrer, ficará impuro sete dias” (19:11) — é a fonte da impureza grave, de sete dias, para quem toca diretamente no cadáver. “E a pessoa que tocar ficará impura até a tarde” (19:22) — é a fonte da impureza leve, de véspera, para quem toca em quem já está contaminado pelo morto. Rambam e Bartenura citam ambos os versículos como base direta desta mishná: o primeiro grau (que toca no próprio morto) é chamado av hatumá, pai da impureza, pois o morto em si é avi avot hatumá, pai dos pais da impureza; o segundo grau é chamado valad hatumá, filho da impureza, e todo filho da impureza carrega apenas impureza de véspera.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Ohalot 1:1
אמר ה' בטומאת מת (במדבר יט:כב) והנפש הנוגעת תטמא עד הערב…

Rambam explica: disse o Eterno, sobre a impureza do morto (Bemidbar 19:22), “e a pessoa que tocar ficará impura até a tarde”. E disseram no Sifrei: que pessoa recebe impureza do morto a ponto de contaminar seu companheiro com impureza de sete dias? Ensina o versículo “e a pessoa que tocar ficará impura até a tarde” — mas a pessoa que tocou no próprio morto é impura com impureza de sete dias, pois assim diz a linguagem do mesmo texto: “o que tocar no morto, em qualquer pessoa que morrer, ficará impuro sete dias”.

E esta lei — que a segunda pessoa da cadeia tem apenas impureza de véspera — é lei da Torá; mas é dito dos escribas [dos Sábios] que, quando alguém tocou no morto e, antes de se afastar do morto, tocou em outra pessoa, também essa segunda pessoa fica impura por sete dias — por decreto rabínico. Saiba isto.

Bartenura · Ohalot 1:1
שְׁנַיִם טְמֵאִים בְּמֵת אֶחָד טָמֵא טֻמְאַת שִׁבְעָה. כֻּלַּהּ מַתְנִיתִין מְפָרֵשׁ לַהּ וְאָזֵיל…

Sobre “dois são impuros por meio de um morto, um é impuro com impureza de sete dias”: toda a mishná se explicará a si mesma, prosseguindo.

Sobre “a pessoa que toca no morto é impura com impureza de sete dias”: pois está escrito (Bemidbar 19) “o que tocar no morto, em qualquer pessoa que morrer, ficará impuro sete dias”, porquanto ela se torna av hatumá (pai da impureza), já que o morto é avi avot hatumá (pai dos pais da impureza).

Sobre “a pessoa que toca nela é impura com impureza de véspera”: pois está escrito (ibidem) “e a pessoa que tocar ficará impura até a tarde”, porquanto ela se torna valad hatumá (filho da impureza), e todo filho da impureza não carrega senão impureza de véspera. Mas os Sábios decretaram que quem toca no impuro por morto, enquanto este ainda está unido ao próprio morto [antes de dele se afastar], fica impuro por sete dias.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Ohalot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste capítulo.