Seder Tehorot · Massechet Ohalot · Perek Dalet · Mishná 3 de 3

O armário na porta e a base rolante

הָיָה עוֹמֵד בְּתוֹךְ הַפֶּתַח וְנִפְתַּח לַחוּץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecha o Perek Dálet com o armário parado na própria porta da casa, abrindo para fora — onde a regra da impureza se inverte em relação à mishná 4:1 —, e com a base rolante (mukhni) puxada três dedos para dentro, sob as vigas, condicionada a três requisitos que preservam a pureza da casa

Se estava de pé dentro da porta, aberto para fora: [havendo] impureza em seu interior, a casa é pura. [Havendo] impureza na casa, o que está em seu interior é impuro, pois o caminho da impureza é sair, e não é seu caminho entrar. Se sua base rolante estava puxada para trás três dedos, [havendo] impureza ali, alinhada com as vigas, a casa é pura. Quando se diz isso? Quando há ali uma abertura de um palmo, e ela não sai, e o armário vem na medida.

A última mishná do capítulo examina uma terceira posição para o armário: parado exatamente na porta da casa, com sua própria abertura voltada para fora, para o domínio externo. Aqui a regra da mishná 4:1 se inverte: como a abertura do armário está alinhada com a saída natural da casa, havendo impureza dentro do armário, ela simplesmente sai para fora sem jamais entrar na casa, que permanece pura; mas, havendo impureza na casa, ela necessariamente atravessa o interior do armário em seu caminho de saída — pois o próprio armário ocupa o vão da porta, e o caminho da impureza é sair, não entrar por um desvio. A mishná acrescenta então o caso da mukhni, a base rolante sobre a qual o armário se desloca de um lugar a outro: se essa base está puxada para trás do armário, projetando-se três dedos para dentro da casa, sob as vigas do teto, e há impureza precisamente nesse trecho projetado, a casa ainda assim permanece pura, pois essa impureza só poderia sair por uma abertura de um palmo, e a projeção tem apenas três dedos, medida menor. A mishná fecha com três condições cumulativas para essa leniência: que haja ali, no vão da base rolante, uma abertura de um palmo (para que a impureza não fique comprimida, forçando passagem); que a base não se solte por completo do armário; e que o armário venha na medida estipulada — isto é, com capacidade para quarenta se’á em líquido, equivalente a um kor em seco. Com esta mishná, encerra-se o Perek Dálet.

הָיָה עוֹמֵד בְּתוֹךְ הַפֶּתַח וְנִפְתַּח לַחוּץ, טֻמְאָה בְתוֹכוֹ, הַבַּיִת טָהוֹר. טֻמְאָה בַבַּיִת, מַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ טָמֵא, שֶׁדֶּרֶךְ הַטֻּמְאָה לָצֵאת וְאֵין דַּרְכָּהּ לְהִכָּנֵס. הָיְתָה מוּכְנִי שֶׁלּוֹ מְשׁוּכָה לַאֲחוֹרָיו שָׁלשׁ אֶצְבָּעוֹת, טֻמְאָה שָׁם כְּנֶגֶד הַקּוֹרוֹת, הַבַּיִת טָהוֹר. בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִים, בִּזְמַן שֶׁיֶּשׁ שָׁם פּוֹתֵחַ טֶפַח, וְאֵינָהּ יוֹצְאָה, וְהַמִּגְדָּל בָּא בְמִדָּה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Ohalot 4:3
לְפִי שֶׁאָמַר שֶׁאִם הָיְתָה טֻמְאָה בְּתוֹךְ הַמִּגְדָּל…

Já que disse que, se havia impureza dentro do armário, e ele estava nessa posição, a casa era pura, disse [agora] que, se havia impureza também na roda que está nesse armário — chamada mukhni, como já explicamos no capítulo dezoito de Keilim —, e esse mukhni estava puxado para trás do armário, para dentro da casa, três dedos, e essa impureza estava sob as vigas da casa, então a casa é pura, pois essa impureza somente sairia por uma abertura de um palmo, e essa projeção tem apenas três dedos. E condicionou nisso três condições. Uma delas, que a altura do vão do mukhni seja de um palmo, pois não precisamos de uma abertura de um palmo para a saída da impureza a não ser quando ela está dentro de um vão de um palmo; mas, se estivesse em um vão menor que um palmo, esse não seria um lugar que precisasse de saída própria, e a impureza simplesmente sairia e ficaria depositada ali mesmo — e guarda-se isso, pois já ampliamos sua explicação [em outro lugar]. A segunda condição, que esse mukhni não possa se separar do armário como um todo a ponto de se tornar impuro por trás dele, mas que, por sua própria construção, o que se afasta dali para a saída seja menos de um palmo, como explicamos. A terceira condição, que o armário venha na medida estipulada — isto é, que comporte quarenta se’á em líquido, que equivalem a um kor em seco, como já explicamos no capítulo dezoito de Keilim —, e, com isso, esse mukhni ligado a ele bloqueia a impureza, como se mencionou; mas, quando é menor que isso, ele se torna impuro como os demais utensílios que recebem impureza, e, havendo impureza dentro da casa, ele se torna impuro. E, do mesmo modo, todo “armário” mencionado nesta seção do tratado só se refere ao ohel do armário que vem na medida estipulada.

Bartenura · Ohalot 4:3
הָיָה. הַמִּגְדָּל עוֹמֵד כֻּלּוֹ בְּתוֹךְ הַבַּיִת…

Sobre “estava [de pé]”: o armário está de pé inteiramente dentro da casa, mas a abertura da caixa dá para fora.

Sobre “havendo impureza em seu interior, a casa é pura”: pois, por que motivo haveria de se tornar impura? A impureza [ali] não é uma questão, já que há nela uma abertura de um palmo e ela não fica oculta; e também não se torna impura por causa da saída da impureza, pois sua saída não dá para dentro da casa.

Sobre “havendo impureza na casa, o que está em seu interior [é puro]”: pois não é caminho da impureza entrar ali. (Assim registra a edição impressa consultada; note-se que o texto da própria mishná, seguido nesta tradução, dá aqui a conclusão oposta — impuro —, pela razão explicada no comentário acima: a impureza da casa, ao sair, atravessa necessariamente a abertura do armário voltada para fora.)

Sobre “mukhni”: a roda feita para o armário, destinada a transportá-lo de um lugar a outro.

Sobre “puxada para trás”: afastada da parte de trás do armário para o lado da casa. Pois o armário está de pé na porta, e o mukhni está puxado, por trás dele, para o lado de dentro da casa; e há impureza ali, dentro do mukhni, alinhada com as vigas da casa, ainda que a casa faça sombra sobre ele.

Sobre “a casa é pura”: pois o mukhni é considerado como o próprio armário, e o armário está de pé na porta e se abre para fora. E o motivo de mencionar “três dedos” é para excluir o caso em que a projeção fosse maior que três dedos, pois então não seria considerada como parte do armário — já que não é costume afastar o mukhni do armário além dessa medida.

Sobre “quando há ali uma abertura de um palmo”: que o vão do mukhni, onde está a impureza, tenha uma abertura de um palmo, para que a impureza não fique comprimida, forçando passagem e subindo [pela casa].

Sobre “e ela não sai”: que o mukhni não se solte por completo do armário.

Sobre “e o armário vem na medida”: que comporta quarenta se’á em líquido, que equivalem a um kor em seco. Pois, quando está nessa medida, ele não recebe impureza, e bloqueia a impureza; mas, em medida menor que essa, ele é como os demais utensílios que recebem impureza, e não bloqueia a impureza. E todo “armário” que se ensina neste capítulo refere-se ao armário que vem nessa medida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Ohalot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste capítulo.
וְהַמִּגְדָּל בָּא בְמִדָּה

Com esta terceira mishná, encerra-se o Perek Dálet de Massechet Ohalot, dedicado ao armário de madeira (migdal) e às suas três posições possíveis diante da casa.

O capítulo abriu (4:1) com o armário parado ao ar livre, cujas próprias paredes têm um vão oco em sua espessura, examinando a relação recíproca entre a impureza no vão interno e na espessura das paredes — com a divisão meio a meio proposta por Rabi Yosei —, e prosseguiu com o mesmo armário dentro da casa, fixando a regra dos utensílios situados nos interstícios entre ele e o chão, a parede ou as vigas. A mishná 4:2 aplicou a lógica do biv de 3:7 à pequena caixa guardada dentro do armário, com a divergência prática de Rabi Yosei, que a declara pura porque sua impureza pode ser retirada aos poucos ou queimada em seu próprio lugar. E esta última mishná fechou o capítulo com o armário parado na própria porta da casa e aberto para fora — invertendo a regra da primeira mishná —, e com o caso da base rolante (mukhni) puxada três dedos para dentro, sob três condições cumulativas: abertura de um palmo no vão da base, base que não se solta do armário, e armário que vem na medida estipulada de quarenta se’á.

O estudo de Massechet Ohalot prossegue agora para o Perek Hê, que continuará a explorar, ao longo dos catorze perakim que ainda restam, as inúmeras ramificações da impureza transmitida por ohel.