Complementando o caso anterior, a mishná trata de uma árvore quase totalmente arrancada, mas que ainda mantém uma raiz ligada ao solo: essa continuidade mínima já basta para isentá-la de recontar os anos de orlá, e a mishná fixa a medida mínima dessa raiz
Árvore que foi arrancada, e ficou nela uma raiz (ainda ligada ao solo, não desprendida por completo), fica isenta (não recomeça a contagem dos anos de orlá, pois a continuidade da raiz basta para considerá-la como não tendo sido arrancada). E qual é a medida da raiz [mínima para isentar]? Rabán Gamliel diz, em nome de Rabi Elazar ben Yehudá, homem de Bartota (um sábio conhecido por transmitir medidas precisas de tradições antigas): como uma agulha de tecelão (a espessura mínima da raiz remanescente, comparada à agulha fina usada pelos tecelões para esticar o tecido depois de tecido).
אִילָן שֶׁנֶּעֱקַר וְנִשְׁתַּיֵּר בּוֹ שֹׁרֶשׁ, פָּטוּר. וְכַמָּה יְהֵא הַשֹּׁרֶשׁ, רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן יְהוּדָה אִישׁ בַּרְתּוֹתָא, כְּמַחַט שֶׁל מִתּוּן:
O mesmo princípio de continuidade do plantio, derivado de Vayikrá 19:23, orienta este caso: a pergunta não é se a árvore foi fisicamente perturbada, mas se seu vínculo original com a terra persiste.
Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, שָׁלֹשׁ שָׁנִים יִהְיֶה לָכֶם עֲרֵלִים.
"E quando entrardes na terra e plantardes toda árvore frutífera, considerareis seu fruto como incircunciso: três anos ele será para vós como incircunciso" — a contagem dos três anos se liga ao ato original de plantio. Enquanto uma raiz, por menor que seja, mantiver a árvore tecnicamente enraizada no mesmo local, a mishná a trata como se nunca tivesse sido arrancada, e a contagem original permanece válida.
Por que a mishná recorre a uma tradição transmitida em nome de um sábio específico, Rabi Elazar ben Yehudá Ish Bartota, para fixar a medida da "agulha de tecelão"? Medidas halachicas mínimas (shiurim) frequentemente não são deriváveis diretamente do texto bíblico — dependem de tradição recebida (halachá leMoshe miSinai ou costume transmitido de geração em geração). Ao citar a cadeia de transmissão — Rabán Gamliel recebendo de Rabi Elazar ben Yehudá — a mishná documenta a fonte de autoridade para uma medida que, de outro modo, pareceria arbitrária: a espessura de uma raiz capaz de manter viva a ligação jurídica entre a árvore e seu plantio original.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica esta lei em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 10, halachá 12, imediatamente após o caso da mishná anterior.
Rambam · Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 10:12
וְכֵן אִילָן שֶׁנֶּעֱקַר וְנִשְׁאַר מִמֶּנּוּ שֹׁרֶשׁ אֶחָד, אֲפִלּוּ כְּמַחַט שֶׁמְּלַפְּפִין עָלָיו הָרוֹקְמִין אֶת הַשָּׁנִי, וְהֶחֱזִירוֹ לִמְקוֹמוֹ וְנָטַע, פָּטוּר, מִפְּנֵי שֶׁיָּכוֹל לִחְיוֹת.
E do mesmo modo, árvore que foi arrancada e restou dela uma única raiz, mesmo que seja como a agulha na qual os bordadores enrolam o fio [de duas cores] (uma medida fina, comparável à da mishná, usada aqui pelo Rambam com uma imagem paralela — a agulha de bordar em vez da agulha de tecer), e a devolveu ao seu lugar e a plantou, fica isenta, porque pode sobreviver (a presença dessa raiz mínima, ainda viva e ligada ao solo, é suficiente para que a árvore continue sendo considerada a mesma plantação original, sem reiniciar a contagem).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 1:4
אֵצֶל הָאוֹרְגִים קָנֶה אוֹ עֵץ בִּשְׁתֵּי קְצוֹתָיו שְׁנֵי בַרְזְלִים אֲרֻכִּים, וְיֵשׁ לְכָל אֶחָד מֵהֶם כְּמוֹ שִׁנַּיִם דַּקִּים כְּמַחַט, וּמוֹתְחִין בּוֹ רֹחַב הַבֶּגֶד כְּשֶׁאוֹרְגִין אוֹתוֹ. נִקְרָא כָּל שֵׁן מֵאוֹתָם הַשִּׁנַּיִם שֶׁהֵם כְּמוֹ מַחֲטִין, מַחַט שֶׁל מִתּוּן, וְיֵשׁ שֶׁגּוֹרְסִין מִתּוּחַ, וְהוּא לְשׁוֹן הַמְּתִיחָה שֶׁמּוֹתְחִים בּוֹ הַבֶּגֶד.
Entre os tecelões, [existe] uma vara ou madeira com dois pedaços de ferro compridos em suas duas extremidades, e cada um deles tem algo como dentes finos como agulha, e com isso se estica a largura do tecido quando o tecem. Cada um desses dentes, que são como pequenas agulhas, chama-se "agulha de mitun" (o instrumento usado para esticar o tecido), e há quem leia "mituach", que é a expressão de esticar com a qual se estica o tecido (o Rambam esclarece a variante textual e a etimologia do termo técnico, confirmando que se trata de um utensílio de tecelagem, não de costura comum).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 1:4
וְנִשְׁתַּיֵּר בּוֹ שֹׁרֶשׁ. מְחֻבָּר לַקַּרְקַע שֶׁלֹּא נֶעֱקַר. כְּמַחַט שֶׁל מִתּוּחַ. גָּרְסִינַן, כְּלוֹמַר שִׁעוּר עֳבִי הַשֹּׁרֶשׁ כְּמַחַט שֶׁהָאוֹרְגִים מוֹתְחִים בּוֹ הַבֶּגֶד אַחַר שֶׁאֲרָגוּהוּ, לְהַפְשִׁיטוֹ וּלְהַרְחִיבוֹ.
"E ficou nela uma raiz": [uma raiz] ligada ao solo, que não foi arrancada. "Como uma agulha de mituach": lemos [o termo] assim, isto é, a medida da espessura da raiz é como a agulha com a qual os tecelões esticam o tecido depois de tecê-lo, para soltá-lo e alargá-lo (o Bartenura confirma a mesma leitura técnica do Rambam, fixando a espessura mínima da raiz pela comparação com o instrumento de tecelagem).
Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.