Fermento de alimento comum que caiu dentro de uma massa e a fez fermentar (diferente da mishná anterior, aqui o processo de fermentação já se completou inteiramente por causa do fermento comum, antes de qualquer outro fermento entrar em cena), e depois caiu fermento de trumá, ou fermento de kilei hakerem, e há nele o suficiente para fermentar (o fermento proibido chega numa massa que já está, tecnicamente, pronta — já fermentada), é proibido (a posição dos Sábios, mantendo a mesma lógica de 2:8: mesmo chegando depois, o fermento proibido tem capacidade de agir e por isso proíbe). Rabi Shimon permite (Rabi Shimon discorda: uma vez que a massa já estava fermentada antes da chegada do fermento proibido, este último não pode ser considerado "causa" da fermentação — sua ação, chegando tarde, no máximo prejudica o sabor, sem alterar o status halachico da massa).
A disputa entre os Sábios e Rabi Shimon gira em torno da definição halachica de "causa", sem introduzir nova fonte bíblica além do princípio geral de proibição de proveito de orlá, kilei hakerem e trumá.
Por que Rabi Shimon distingue este caso do de 2:8, onde ele concordou (implicitamente) com a proibição? Como explica o Bartenura, a diferença está exatamente na ordem temporal e na natureza da causalidade. Em 2:8, o fermento comum e o proibido caíram em momentos próximos, ambos ainda "em processo" de fermentar a massa — por isso Rabi Shimon não discordou, e ambos são vistos como causas concorrentes e simultâneas. Aqui, em 2:9, a massa já estava fermentada — o processo já tinha terminado — antes da chegada do fermento proibido. Para Rabi Shimon, um fermento que chega depois do processo concluído não pode ser "causa" de algo que já aconteceu; no máximo, ele acrescenta um sabor residual, que os Sábios discordam ser suficiente para proibir, mas que Rabi Shimon considera irrelevante porque, tecnicamente, "piora" (torna menos saboroso) em vez de "causar" a fermentação.
O Rambam decide a halachá como os Sábios, contra Rabi Shimon, na linha geral estabelecida em Hilchot Maachalot Assurot 16:2.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná e a disputa entre os Sábios e Rabi Shimon.
Rabi Shimon diz: já que [a massa] fermentou, a ação [do segundo fermento] não é manifesta, e sua lei é que sobe [se anula] em sua proporção [normal] (o Rambam explica a lógica de Rabi Shimon: como o efeito do segundo fermento não pode ser distinguido — a massa já estava fermentada —, ele perde o status de "ação manifesta" que justificava a proibição em qualquer quantidade, voltando a ser regido pela proporção comum, que aqui a anularia). E os Sábios dizem que, já que há nele o suficiente para fermentar — se a massa precisasse fermentar [ainda], ele é proibido (a resposta dos Sábios: o teste correto não é "o que já aconteceu de fato", mas "o fermento teria capacidade de causar o efeito, se fosse necessário" — um teste hipotético de capacidade, que não depende da ordem cronológica real). E a halachá é como os Sábios.
"E Rabi Shimon permite": na primeira parte [mishná 2:8], Rabi Shimon não discordou, pois o fermento de trumá caiu antes de a massa fermentar com o de alimento comum [ambos ainda em processo] (o Bartenura esclarece precisamente por que Rabi Shimon concorda em 2:8 mas discorda aqui: em 2:8, o fermento proibido chegou enquanto o processo de fermentação ainda estava em curso, sendo por isso uma causa genuína e simultânea). Mas na segunda parte [2:9], já que a massa já havia fermentado com o de alimento comum, quando volta a cair o de trumá, ele apenas piora [o sabor] (aqui, a massa já estava pronta; o fermento de trumá, chegando depois, não pode mais ser causa de nada — no máximo, adiciona um sabor residual que prejudica, e não aperfeiçoa, o produto já formado).