Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Bet · Mishná 9

"Fermento comum que já fermentou a massa"

שְׂאֹר שֶׁל חֻלִּין שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסָּה וְחִמְּצָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma variação do caso de 2:8: agora a massa já está completamente fermentada pelo fermento comum antes de o fermento proibido cair. Os Sábios mantêm a proibição, mas Rabi Shimon discorda — introduzindo o princípio de que um fermento que chega depois do processo já concluído apenas "piora" o resultado, sem ser sua causa

Fermento de alimento comum que caiu dentro de uma massa e a fez fermentar (diferente da mishná anterior, aqui o processo de fermentação já se completou inteiramente por causa do fermento comum, antes de qualquer outro fermento entrar em cena), e depois caiu fermento de trumá, ou fermento de kilei hakerem, e há nele o suficiente para fermentar (o fermento proibido chega numa massa que já está, tecnicamente, pronta — já fermentada), é proibido (a posição dos Sábios, mantendo a mesma lógica de 2:8: mesmo chegando depois, o fermento proibido tem capacidade de agir e por isso proíbe). Rabi Shimon permite (Rabi Shimon discorda: uma vez que a massa já estava fermentada antes da chegada do fermento proibido, este último não pode ser considerado "causa" da fermentação — sua ação, chegando tarde, no máximo prejudica o sabor, sem alterar o status halachico da massa).

שְׂאֹר שֶׁל חֻלִּין שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסָּה וְחִמְּצָהּ, וְאַחַר כָּךְ נָפַל שְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה אוֹ שְׂאֹר שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם, וְיֵשׁ בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, אָסוּר. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A disputa entre os Sábios e Rabi Shimon gira em torno da definição halachica de "causa", sem introduzir nova fonte bíblica além do princípio geral de proibição de proveito de orlá, kilei hakerem e trumá.

Vayikrá (Levítico) 19:23 · Devarim (Deuteronômio) 22:9
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ... לֹא תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם.
As mesmas fontes já discutidas nas mishnayot anteriores. A disputa nesta mishná não é sobre a fonte da proibição, mas sobre um princípio de causalidade que a tradição rabínica chama de "sabor que piora" (noten taam lifgam) — quando um elemento proibido, chegando a um processo já concluído, apenas prejudica o resultado em vez de causá-lo, alguns sábios o consideram halachicamente irrelevante.

Por que Rabi Shimon distingue este caso do de 2:8, onde ele concordou (implicitamente) com a proibição? Como explica o Bartenura, a diferença está exatamente na ordem temporal e na natureza da causalidade. Em 2:8, o fermento comum e o proibido caíram em momentos próximos, ambos ainda "em processo" de fermentar a massa — por isso Rabi Shimon não discordou, e ambos são vistos como causas concorrentes e simultâneas. Aqui, em 2:9, a massa já estava fermentada — o processo já tinha terminado — antes da chegada do fermento proibido. Para Rabi Shimon, um fermento que chega depois do processo concluído não pode ser "causa" de algo que já aconteceu; no máximo, ele acrescenta um sabor residual, que os Sábios discordam ser suficiente para proibir, mas que Rabi Shimon considera irrelevante porque, tecnicamente, "piora" (torna menos saboroso) em vez de "causar" a fermentação.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam decide a halachá como os Sábios, contra Rabi Shimon, na linha geral estabelecida em Hilchot Maachalot Assurot 16:2.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 16:2
כֵּיצַד. שְׂאוֹר שֶׁל חִטִּין שֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסַּת חִטִּין שֶׁל חֻלִּין וְיֵשׁ בּוֹ כְּדֵי לְחַמֵּץ הֲרֵי הָעִסָּה כֻּלָּהּ מְדֻמָּע... וְאַף עַל פִּי שֶׁהַשְּׂאוֹר אוֹ הַתַּבְלִין אֶחָד מֵאֶלֶף.
Como? Fermento de trigo de trumá que caiu numa massa de trigo comum, e há nele o suficiente para fermentar — toda a massa fica medumá... ainda que o fermento ou o tempero seja um em mil (o Rambam reafirma, no contexto mais amplo deste capítulo, que a capacidade ativa de fermentar — e não a ordem cronológica ou a "necessidade" da causa — é o critério decisivo; a halachá segue os Sábios, que não fazem esta distinção temporal que Rabi Shimon propõe).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná e a disputa entre os Sábios e Rabi Shimon.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 2:9
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר כֵּיוָן שֶׁחִמְּצָה פְּעֻלָּתוֹ אֵינוֹ מְפֻרְסָם, וְדִינוֹ שֶׁיַּעֲלֶה בְּשִׁעוּרוֹ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים שֶׁכֵּיוָן שֶׁיֵּשׁ בּוֹ כְּדֵי לְחַמֵּץ, אִלּוּ הָיָה צָרִיךְ הַבָּצֵק לַחֲמוֹץ, הֲרֵי הוּא אָסוּר. וְהִלְכְתָא כַּחֲכָמִים.

Rabi Shimon diz: já que [a massa] fermentou, a ação [do segundo fermento] não é manifesta, e sua lei é que sobe [se anula] em sua proporção [normal] (o Rambam explica a lógica de Rabi Shimon: como o efeito do segundo fermento não pode ser distinguido — a massa já estava fermentada —, ele perde o status de "ação manifesta" que justificava a proibição em qualquer quantidade, voltando a ser regido pela proporção comum, que aqui a anularia). E os Sábios dizem que, já que há nele o suficiente para fermentar — se a massa precisasse fermentar [ainda], ele é proibido (a resposta dos Sábios: o teste correto não é "o que já aconteceu de fato", mas "o fermento teria capacidade de causar o efeito, se fosse necessário" — um teste hipotético de capacidade, que não depende da ordem cronológica real). E a halachá é como os Sábios.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 2:9
וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. בְּרֵישָׁא לֹא פָּלֵיג רַבִּי שִׁמְעוֹן, כֵּיוָן דְּנָפַל שְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה קֹדֶם שֶׁנִּתְחַמְּצָה בְּשֶׁל חֻלִּין... אֲבָל בְּסֵיפָא כֵּיוָן דִּכְבָר נִתְחַמְּצָה בְּשֶׁל חֻלִּין, כִּי הָדָר נָפֵיל שֶׁל תְּרוּמָה אֵינוֹ אֶלָּא פּוֹגֵם.

"E Rabi Shimon permite": na primeira parte [mishná 2:8], Rabi Shimon não discordou, pois o fermento de trumá caiu antes de a massa fermentar com o de alimento comum [ambos ainda em processo] (o Bartenura esclarece precisamente por que Rabi Shimon concorda em 2:8 mas discorda aqui: em 2:8, o fermento proibido chegou enquanto o processo de fermentação ainda estava em curso, sendo por isso uma causa genuína e simultânea). Mas na segunda parte [2:9], já que a massa já havia fermentado com o de alimento comum, quando volta a cair o de trumá, ele apenas piora [o sabor] (aqui, a massa já estava pronta; o fermento de trumá, chegando depois, não pode mais ser causa de nada — no máximo, adiciona um sabor residual que prejudica, e não aperfeiçoa, o produto já formado).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.