Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Guimel · Mishná 4

"Um guisado cozido com cascas de orlá"

תַּבְשִׁיל שֶׁבִּשְּׁלוֹ בִקְלִפֵּי עָרְלָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná retorna ao tema de orlá, mas passa do tingimento de tecido (mishnayot 1-2) ao uso de cascas de orlá como combustível para cozinhar — um guisado cozido sobre lenha de orlá absorve o sabor da madeira proibida e deve ser queimado; notavelmente, aqui não há disputa de Rabi Meir, e todos concordam que a mistura de guisados se anula na proporção padrão de um e duzentos

Um guisado que o cozinhou com cascas de orlá (usando as cascas — ou a madeira — de um fruto de orlá como combustível sob a panela, de modo que o sabor da queima se transmite ao guisado), será queimado (pois há "vantagem de lenha" no guisado: a fumaça e o calor da combustão da madeira proibida efetivamente temperam e melhoram o prato, transmitindo-lhe proveito proibido). Se se misturou com outros (o guisado contaminado se misturou, sem identificação, com outros guisados permitidos), sobe em um e duzentos (diferentemente das mishnayot 1-2, aqui não há menção de disputa entre Rabi Meir e os Sábios: todos concordam que um guisado — substância líquida e fungível, não um objeto individualizável como uma roupa — se anula pela proporção padrão).

תַּבְשִׁיל שֶׁבִּשְּׁלוֹ בִקְלִפֵּי עָרְלָה, יִדָּלֵק. נִתְעָרֵב בַּאֲחֵרִים, יַעֲלֶה בְּאֶחָד וּמָאתָיִם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mesma proibição bíblica de proveito de orlá, agora aplicada ao uso de sua madeira como combustível de cozinha.

Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, שָׁלֹשׁ שָׁנִים יִהְיֶה לָכֶם עֲרֵלִים, לֹא יֵאָכֵל.
A mesma proibição de proveito discutida nas mishnayot anteriores, aplicada aqui a um novo modo de contaminação indireta: não o tingimento de tecido, mas o uso da madeira ou casca de orlá como lenha, cujo calor e fumaça transmitem "vantagem" (shevach) ao alimento cozido sobre ela — considerado, pela tradição rabínica, proveito suficiente para proibir o resultado.

Por que a mishná não repete a disputa de Rabi Meir e os Sábios, presente nas duas mishnayot anteriores? A resposta, explicada pelo Bartenura abaixo, é que o critério de Rabi Meir — "objeto que costuma ser contado" — aplica-se apenas a itens individualizáveis e duráveis, como uma roupa tingida ou um fio tecido. Um guisado, por ser uma substância fungível que se mistura por completo com outros guisados, não se enquadra nesse critério excepcional mesmo segundo Rabi Meir; por isso a mishná registra consenso, sem menção de opiniões divergentes. Essa observação prepara, silenciosamente, a distinção mais explícita que a mishná 7 fará entre itens "que costumam ser contados" e os demais.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica este caso, junto ao da mishná seguinte (o forno), em Hilchot Maachalot Assurot, capítulo 16, halachá 20.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 16:20
וְכֵן תַּבְשִׁיל שֶׁבִּשְּׁלוֹ בִּקְלִפֵּי עָרְלָה וּפַת שֶׁאֲפָאָהּ בִּקְלִפֵּי עָרְלָה אוֹ בְּכִלְאֵי הַכֶּרֶם יִדָּלֵק. נִתְעָרֵב בַּאֲחֵרִים יַעֲלֶה בְּאֶחָד וּמָאתָיִם.
E, do mesmo modo, um guisado que o cozinhou com cascas de orlá, e um pão que o assou com cascas de orlá ou com kilei hakerem, será queimado. Se se misturou com outros, sobe em um e duzentos (o Rambam une, numa única halachá, o caso do guisado desta mishná e o do pão da mishná seguinte, tratando-os com a mesma regra — refletindo que ambos compartilham a mesma lógica de "vantagem de lenha ou combustível" transmitida ao alimento).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, notando o consenso incomum entre Rabi Meir e os Sábios.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 3:4
זֶה מְבֹאָר לְפִי שֶׁשֶּׁבַח עָרְלָה בַּתַּבְשִׁיל.

Isto é evidente, porque há vantagem de orlá no guisado (o Rambam é conciso: o princípio já foi suficientemente estabelecido nas mishnayot anteriores — a lenha de orlá transmite "vantagem" (shevach) mensurável ao alimento cozido sobre ela, tornando desnecessária uma explicação extensa).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 3:4
יִדָּלֵק. דְּיֵשׁ שְׁבַח עֵצִים בַּתַּבְשִׁיל, וְכֵן בַּפַּת: יַעֲלֶה בְּאֶחָד וּמָאתָיִם. וּבְהָא מוֹדֶה רַבִּי מֵאִיר, דְּאֵין זֶה מֵעֲשָׂרָה דְבָרִים דְּחָשֵׁיב רַבִּי מֵאִיר דִּמְקַדְּשִׁים, כִּדְמוּכָח בַּיְרוּשַׁלְמִי.

"Será queimado": porque há vantagem da lenha no guisado, e assim também no pão (o Bartenura confirma o mecanismo: não é o sabor do fruto que se transmite, mas o calor e a fumaça da própria madeira queimada, que "melhoram" o cozimento). "Sobe em um e duzentos": e nisto concorda Rabi Meir, pois isto não está entre as [dez] coisas que Rabi Meir considera que santificam [em qualquer quantidade], como fica demonstrado no Talmud Yerushalmi (o Bartenura confirma explicitamente que a ausência de disputa nesta mishná não é uma omissão editorial, mas um consenso real: mesmo Rabi Meir, o mais rigoroso nas mishnayot anteriores, concorda aqui que a proporção padrão se aplica — porque guisado e pão não se enquadram na lista fechada de itens excepcionais que ele mesmo define na mishná 7; a referência ao Yerushalmi, não ao Bavli, reafirma que este tratado carece de Guemará babilônica).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.