Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Guimel · Mishná 7

"O que costuma ser contado"

אֶת שֶׁדַּרְכּוֹ לִמָּנוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná central do capítulo: generaliza-se aqui o princípio implícito nas disputas das mishnayot 1-2 e 6 — Rabi Meir afirma que todo objeto "que costuma ser contado" (em vez de medido ou pesado) proíbe a mistura inteira, em qualquer quantidade; os Sábios discordam da generalização e restringem essa regra a uma lista fechada de apenas seis itens específicos, e Rabi Akiva acrescenta um sétimo — com a conclusão de que cada categoria de proibição (orlá, kilei hakerem) segue a lista correspondente ao seu próprio domínio

Pois Rabi Meir costumava dizer: aquilo cujo costume é ser contado (itens vendidos por unidade — "dez nozes", "cinco romãs" —, e não por peso ou volume, como grãos ou líquidos), santifica (termo técnico para "proíbe a mistura inteira", em qualquer proporção, sem possibilidade de anulação). E os Sábios dizem: não santifica, exceto seis coisas apenas (os Sábios rejeitam a generalização de Rabi Meir e limitam a regra estrita a uma lista fechada e específica). E Rabi Akiva diz: sete (Rabi Akiva aceita a lista dos Sábios, mas acrescenta um sétimo item). E estes são eles: nozes de Perech, romãs de Badan, e barris fechados, e folhas de acelga, e repolhos [inteiros], e abóbora grega (seis itens específicos — nomeados por sua qualidade excepcional ou origem geográfica reconhecida — que, por serem vendidos e valorizados individualmente, proíbem a mistura inteira mesmo em quantidade mínima). Rabi Akiva diz: também as fôrmas de pão do dono da casa (o sétimo item de Rabi Akiva: pães grandes, feitos para uso doméstico — e não os pães pequenos e padronizados do padeiro profissional). O que é apto para orlá, é orlá; o que é apto para kilei hakerem, é kilei hakerem (conclusão importante: a lista de seis ou sete itens não é uma lista única aplicável a qualquer proibição, mas se divide entre os dois domínios — cada item "santifica" apenas dentro da categoria de proibição à qual pertence por sua própria natureza).

שֶׁהָיָה רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, אֶת שֶׁדַּרְכּוֹ לִמָּנוֹת, מְקַדֵּשׁ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵינוֹ מְקַדֵּשׁ אֶלָּא שִׁשָּׁה דְבָרִים בִּלְבָד. וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, שִׁבְעָה. וְאֵלּוּ הֵם, אֱגוֹזֵי פֶרֶךְ, רִמּוֹנֵי בָדָן, וְחָבִיּוֹת סְתוּמוֹת, וְחֻלְפוֹת תְּרָדִין, וְקֻלְסֵי כְרוּב, וּדְלַעַת יְוָנִית. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אַף כִּכָּרוֹת שֶׁל בַּעַל הַבָּיִת. הָרָאוּי לְעָרְלָה, עָרְלָה. לְכִלְאֵי הַכֶּרֶם, כִּלְאֵי הַכָּרֶם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná generaliza o princípio de proibições vedadas em proveito — orlá e kilei hakerem — já fundamentado nas mishnayot anteriores, agora aplicando-o a uma lista fechada de itens excepcionais que não se submetem à proporção padrão.

Devarim (Deuteronômio) 22:9
לֹא תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם, פֶּן תִּקְדַּשׁ הַמְלֵאָה הַזֶּרַע אֲשֶׁר תִּזְרָע וּתְבוּאַת הַכָּרֶם.
A mesma fonte de kilei hakerem já citada na mishná 6, cuja expressão "פֶּן תִּקְדַּשׁ" (para que não se torne consagrada/proibida) é a origem textual do próprio verbo técnico "מְקַדֵּשׁ" (santifica, proíbe) usado nesta mishná. A tradição rabínica lê essa palavra como fonte de uma categoria de proibições que, ao contrário da regra geral de anulação por proporção, tornam proibida — "consagram" no sentido de vedar — toda a mistura, em qualquer quantidade, quando se trata de itens individualmente valorizados e reconhecíveis.

Por que a mishná limita a regra de Rabi Meir a uma lista tão específica e aparentemente arbitrária de seis ou sete itens? A resposta, explicada pelo Rambam no perush abaixo, está no critério de exceção: a regra padrão da Torá e da tradição rabínica é a anulação por proporção (1:100 ou 1:200, conforme o Perek Bet). Rabi Meir propõe uma exceção ampla — qualquer item "que costuma ser contado" —, mas os Sábios, temendo que essa exceção ampla acabe por esvaziar a regra geral de anulação, a restringem a uma lista curta e taxativa de itens cuja individualidade é inquestionável: nozes e romãs de qualidade excepcional, vendidas por unidade a preços altos; barris fechados de vinho, cujo conteúdo não é visível nem misturável até a abertura; e vegetais grandes e valiosos, vendidos peça a peça. A mishná termina fixando que essa lista não é universal, mas se aplica separadamente a cada domínio — orlá ou kilei hakerem —, conforme a natureza de cada item.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lista, seguindo a posição de Rabi Akiva (halachá, segundo o Perush HaMishná), em Hilchot Maachalot Assurot, capítulo 16.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 16:4, 16:9
כֵּיצַד. רִמּוֹן אֶחָד מֵרִמּוֹנֵי בְּדַן שֶׁהָיָה עָרְלָה וְנִתְעָרֵב בְּכַמָּה אֲלָפִים רִמּוֹנִים הַכֹּל אָסוּר בַּהֲנָיָה. וְכֵן חָבִית סְתוּמָה שֶׁל יֵין עָרְלָה אוֹ שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם שֶׁנִּתְעָרְבָה... יֵרָאֶה לִי שֶׁכָּל דָּבָר שֶׁהוּא חָשׁוּב אֵצֶל בְּנֵי מָקוֹם מִן הַמְּקוֹמוֹת, כְּגוֹן אֱגוֹזֵי פֶּרֶךְ וְרִמּוֹנֵי בְּדַן בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל בְּאוֹתָן הַזְּמַנִּים, שֶׁהוּא אוֹסֵר בְּכָל שֶׁהוּא לְפִי חֲשִׁיבוּתוֹ בְּאוֹתוֹ מָקוֹם וּבְאוֹתוֹ זְמַן.
Como assim? Uma romã das romãs de Badan, que era de orlá, e se misturou com vários milhares de romãs — tudo é proibido em proveito. E do mesmo modo um barril fechado de vinho de orlá ou de kilei hakerem que se misturou (o Rambam confirma a regra: os itens da lista fechada proíbem a mistura inteira, mesmo em proporção mínima). Parece-me que qualquer coisa que seja importante entre os habitantes de algum lugar — como nozes de Perech e romãs de Badan na Terra de Israel, naqueles tempos — proíbe em qualquer quantidade, segundo sua importância naquele lugar e naquele tempo (o Rambam acrescenta um comentário próprio significativo: a lista da mishná não é fixa e universal para todas as épocas, mas reflete a valorização econômica e social de determinados produtos em seu contexto histórico e geográfico — um princípio que, embora não explícito na mishná, orienta sua aplicação prática).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná central, que fixa a lista de itens que proíbem em qualquer quantidade.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 3:7
אֶת שֶׁדַּרְכּוֹ לִמָּנוֹת מְקַדֵּשׁ. עִנְיָנוֹ שֶׁלֹּא נֶאֱמַר יַעֲלֶה בְּאֶחָד וּמָאתַיִם אֶלָּא כְּשֶׁנִּתְעָרְבוּ מַה שֶּׁאֵין דַּרְכּוֹ לְהִמָּנוֹת, כְּגוֹן שֶׁנִּתְעָרְבוּ חִטִּים שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם בְּחִטִּים שֶׁל חֻלִּין, אוֹ יַיִן שֶׁל עָרְלָה בְּיַיִן שֶׁל חֻלִּין. אֲבָל מַה שֶּׁדַּרְכּוֹ לְהִמָּנוֹת, כְּגוֹן חֲבִילֵי תִלְתָּן, אֲפִלּוּ נִתְעָרְבָה חֲבִילָה אַחַת בְּאֶלֶף יִשָּׂרֵף הַכֹּל, וְזֶהוּ עִנְיַן "תִּקְדַּשׁ", שֶׁנֶּאֱמַר פֶּן תִּקְדַּשׁ הַמְּלֵאָה, וְעִנְיָנוֹ הַשְּׂרֵפָה כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים כִּי שִׁשָּׁה דְבָרִים הֵם בִּלְבַד שֶׁנֶּאֱמַר בָּהֶם תִּקְדַּשׁ וְלֹא תַּעֲלֶה בְּאֶחָד וּמָאתַיִם, וְהוֹסִיף רַבִּי עֲקִיבָא הַשְּׁבִיעִי, וְהוּא יִמְנֶה אוֹתָן לְקַמָּן, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר.

"O que costuma ser contado, santifica": seu significado é que não se disse "sobe em um e duzentos" senão quando se misturaram coisas cujo costume não é serem contadas — como quando se misturou trigo de kilei hakerem com trigo comum, ou vinho de orlá com vinho comum. Mas o que costuma ser contado — como feixes de feno-grego — mesmo que apenas um feixe se misture entre mil, tudo será queimado, e este é o significado de "tikdash" [se tornará consagrada/proibida], como está dito "para que não se torne consagrada a plenitude" (o Rambam liga explicitamente o verbo bíblico "tikdash" de Devarim 22:9 ao termo técnico "mekadesh" usado por Rabi Meir nesta mishná — uma única raiz servindo de base textual para toda a categoria), e seu significado é a queima, como já explicamos. E os Sábios dizem que há apenas seis coisas sobre as quais se disse "tikdash" e não "sobe em um e duzentos", e Rabi Akiva acrescentou a sétima, e a enumerará adiante — e não é a halachá segundo Rabi Meir (o Rambam esclarece a estrutura lógica: a regra padrão é a anulação por proporção; a exceção de Rabi Meir seria ampla e geral, mas os Sábios a restringem a uma lista taxativa — e a halachá segue os Sábios, com o acréscimo de Rabi Akiva).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 3:7
שֶׁדַּרְכּוֹ לִמָּנוֹת. שֶׁאֵין אָדָם מוֹכְרוֹ אֶלָּא בְּמִנְיָן מִפְּנֵי חֲשִׁיבוּתוֹ: פֶּרֶךְ וּבָדָן. שְׁמוֹת מְקוֹמוֹת הֵן. וַאֲנִי שָׁמַעְתִּי אֱגוֹזֵי פֶרֶךְ, אֱגוֹזִים שֶׁקְּלִפָּתָן רַכָּה וְנִפְרָכִין: חֻלְפֵי תְרָדִין. עָלִין מִצַּלְעוֹת הַתְּרָדִין: קֻלְסֵי כְרוּב. קִלְחֵי כְרוּב שֶׁבְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, שֶׁהֵם גְּדוֹלִים וְטוֹבִים: שֶׁל בַּעַל הַבָּיִת. שֶׁהֵן גְּדוֹלִים, אֲבָל שֶׁל נַחְתּוֹם קְטַנִּים הֵן: הָרָאוּי לְעָרְלָה. כְּגוֹן אֱגוֹזִים וְרִמּוֹנִים וְחָבִיּוֹת סְתוּמוֹת: וְהָרָאוּי לְכִלְאֵי הַכֶּרֶם. כְּגוֹן חֻלְפֵי תְרָדִין וְקֻלְסֵי כְרוּב וּדְלַעַת יְוָנִית. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר וְלֹא כְרַבִּי עֲקִיבָא.

"O que costuma ser contado": aquilo que a pessoa não vende senão por unidade, por causa de sua importância (o Bartenura define o critério econômico de fundo: não o tipo de produto em si, mas o modo costumeiro de sua venda no mercado). "Perech" e "Badan": são nomes de lugares. E eu ouvi [outra explicação]: "nozes de Perech" são nozes cuja casca é mole e se esfarela facilmente (o Bartenura apresenta duas tradições interpretativas: uma toponímica, outra descritiva da qualidade física do fruto). "Folhas de acelga": folhas das nervuras da acelga. "Repolhos": talos de repolho da Terra de Israel, que são grandes e bons (explicando por que esse item específico, e não repolhos em geral, mereceu menção na lista — sua qualidade excepcional). "Do dono da casa": que são grandes, mas os do padeiro são pequenos (o Bartenura esclarece por que Rabi Akiva especifica "fôrmas do dono da casa": apenas os pães grandes, feitos para consumo doméstico, têm o valor individual suficiente para justificar a inclusão na lista — os pães pequenos e padronizados do padeiro profissional, vendidos em maior quantidade, não se qualificam). "O apto para orlá": como nozes, romãs e barris fechados. "E o apto para kilei hakerem": como folhas de acelga, repolhos e abóbora grega. E não é a halachá segundo Rabi Meir nem segundo Rabi Akiva (o Bartenura confirma explicitamente a divisão funcional da lista entre os dois domínios de proibição, e nota que a halachá final segue a posição intermediária dos Sábios — seis itens —, rejeitando tanto a generalização de Rabi Meir quanto o sétimo item de Rabi Akiva).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.