Seder Moed · Massechet Shekalim · Perek ז׳ · Mishná 3 de 7

Carne encontrada no átrio e em Jerusalém

בָּשָׂר שֶׁנִּמְצָא בָּעֲזָרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Trata da identificação de carne encontrada perdida no átrio do Templo, na cidade de Jerusalém e fora de seus limites, distinguindo pela forma do corte e pelo local, com destinos que vão da queima como oferenda inválida até a permissão total de consumo.

Carne encontrada no átrio: se em membros, são de holocaustos; e se em pedaços, são de oferendas de pecado.A forma do corte identifica o tipo de oferenda: holocaustos eram desmembrados articulação por articulação e queimados inteiros, enquanto oferendas de pecado, comidas pelos sacerdotes dentro do átrio, eram cortadas em pedaços menores para o consumo.

Em Jerusalém, são de oferendas pacíficas.Já a carne achada na cidade em geral, fora do átrio, presume-se de sacrifícios de shelamim, porque esse era o tipo de carne sagrada mais comumente consumido pelos moradores e peregrinos na própria cidade.

Em ambos os casos, aguarda-se que se estrague sua aparência, e sai para a casa da queima.Como não se pode saber com certeza havia quanto tempo essa carne estava largada, nem se algum dono a comeu enquanto ainda válida, ela é tratada como possivelmente imprópria: deixa-se apodrecer sua aparência antes de ser levada ao local de queima de oferendas desqualificadas, sem desperdiçá-la de imediato.

Se encontrada nas regiões fora de Jerusalém: em membros, são carcaças proibidas; em pedaços, são permitidas.Fora dos limites da cidade, a lógica se inverte: como não há ali carne sagrada em circulação, membros cortados presumem-se de animais mortos sem abate ritual — proibidos —, enquanto pedaços presumem-se de açougues comuns, e por isso são permitidos.

E na época da festa, quando a carne é abundante, também os membros são permitidos.Durante os dias de peregrinação, quando a quantidade de carne sacrificada e distribuída em Jerusalém aumenta muito, mesmo membros achados fora da cidade presumem-se provenientes desse abundante comércio sagrado, e não de carcaças, sendo então permitidos.

בָּשָׂר שֶׁנִּמְצָא בָּעֲזָרָה, אֵבָרִים, עוֹלוֹת. וַחֲתִיכוֹת, חַטָאוֹת. בִּירוּשָׁלַיִם, זִבְחֵי שְׁלָמִים. זֶה וָזֶה תְּעֻבַּר צוּרָתוֹ וְיֵצֵא לְבֵית הַשְּׂרֵפָה. נִמְצָא בַּגְּבוּלִין, אֵבָרִים, נְבֵלוֹת. חֲתִיכוֹת, מֻתָּרוֹת. וּבִשְׁעַת הָרֶגֶל שֶׁהַבָּשָׂר מְרֻבֶּה, אַף אֵבָרִים מֻתָּרִין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 7:19
וְהַבָּשָׂר אֲשֶׁר יִגַּע בְּכָל טָמֵא לֹא יֵאָכֵל בָּאֵשׁ יִשָּׂרֵף וְהַבָּשָׂר כָּל טָהוֹר יֹאכַל בָּשָׂר׃
E a carne que tocar em qualquer coisa impura não será comida; será queimada no fogo. Quanto à carne, todo puro poderá comer da carne.

O versículo de Vayikra, que trata das leis de oferendas pacíficas (zivchei shelamim) e do destino da carne consagrada que se torna imprópria, estabelece o princípio geral por trás desta mishná: carne sagrada de origem duvidosa ou de status incerto não pode ser simplesmente consumida nem descartada sem cuidado — ela deve ser tratada com a cautela devida a algo potencialmente sagrado, "queimada no fogo" quando inválida. É esse mesmo princípio que orienta a mishná a mandar que a carne achada no átrio ou em Jerusalém "aguarde que se estrague sua aparência" antes de seguir para a casa da queima: não se trata de desperdício gratuito, mas do reconhecimento de que aquilo pode ter sido, em algum momento, carne de sacrifício válido.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura · Shekalim 7:3
חֲתִיכוֹת חַטָּאוֹת. דְּאֵין אוֹכְלִים בָּעֲזָרָה אֶלָּא חַטָּאוֹת וַאֲשָׁמוֹת: וּבִירוּשָׁלַיִם זִבְחֵי שְׁלָמִים. דְּרֹב בָּשָׂר הַנֶּאֱכָל בִּירוּשָׁלַיִם הֲוֵי שְׁלָמִים:

"Em pedaços, são de oferendas de pecado" — porque no átrio só se come oferendas de pecado e de culpa, cortadas em pedaços para o consumo dos sacerdotes. "E em Jerusalém, são de oferendas pacíficas" — porque a maior parte da carne sagrada consumida na cidade de Jerusalém é de sacrifícios pacíficos, que os próprios donos e seus convidados comem em qualquer lugar dentro dos muros.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 7:3
בָּשָׂר שֶׁנִּמְצָא בָּעֲזָרָה כוּ': הָעוֹלָה הִיא כֻּלָּהּ כָּלִיל לָאִשִּׁים, וּלְפִיכָךְ אֵין חוֹתְכִין אוֹתָהּ חֲתִיכוֹת, וְדַי לָהּ לַעֲשׂוֹתָהּ אֵבָרִים אֵבָרִים, כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ בְּמַסֶּכֶת תָּמִיד. וּכְבָר יָדַעְתָּ כִּי שְׁלָמִים נֶאֱכָלִים בְּכָל יְרוּשָׁלַיִם, וּלְפִיכָךְ נָחוּשׁ בַּבָּשָׂר הַנִּמְצָא שָׁם.

"Carne encontrada no átrio" etc.: o holocausto é inteiramente consumido pelo fogo, e por isso não se costuma cortá-lo em pedaços — basta desmembrá-lo em suas articulações, como explicamos no tratado de Tamid. E já se sabe que oferendas pacíficas são comidas em toda Jerusalém, e por isso levamos em conta essa possibilidade quanto à carne ali encontrada.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 7:3
תְּעֻבַּר צוּרָתָן. לְפִי שֶׁנִּפְסְלוּ בְּהֶסַּח הַדַּעַת וַאֲסוּרִין בָּאֲכִילָה, וְאֵין לְזַלְזֵל בָּהֶן וּלְשָׂרְפָן עַד שֶׁיִּפָּסֵל מַרְאֵיהֶן. אֵבָרִים נְבֵלוֹת. שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ שֶׁחוֹתְכִין הַנְּבֵלוֹת לְאֵבָרִים וּמַשְׁלִיכִין בָּרְחוֹבוֹת שֶׁיֹּאכְלוּם הַכְּלָבִים. שֶׁהַבָּשָׂר מְרֻבֶּה. וְאֵין חוֹתְכִין הַבָּשָׂר לַחֲתִיכוֹת קְטַנּוֹת, אֶלָּא מְבַשְּׁלִים אוֹתוֹ אֵבָרִים.

"Aguarda que se estrague sua aparência" — porque essa carne foi invalidada por descuido de vigilância e está proibida ao consumo, mas não se deve desprezá-la a ponto de queimá-la de imediato: espera-se que sua aparência se deteriore naturalmente antes de levá-la à queima. "Membros são carcaças" — pois é costume cortar carcaças de animais mortos sem abate em membros e jogá-las nas ruas para os cães comerem. "Quando a carne é abundante" — porque nessa época não se costuma cortar a carne em pedaços pequenos, mas cozinhá-la já desmembrada em suas partes maiores.

Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.