Carne encontrada no átrio: se em membros, são de holocaustos; e se em pedaços, são de oferendas de pecado. — A forma do corte identifica o tipo de oferenda: holocaustos eram desmembrados articulação por articulação e queimados inteiros, enquanto oferendas de pecado, comidas pelos sacerdotes dentro do átrio, eram cortadas em pedaços menores para o consumo.
Em Jerusalém, são de oferendas pacíficas. — Já a carne achada na cidade em geral, fora do átrio, presume-se de sacrifícios de shelamim, porque esse era o tipo de carne sagrada mais comumente consumido pelos moradores e peregrinos na própria cidade.
Em ambos os casos, aguarda-se que se estrague sua aparência, e sai para a casa da queima. — Como não se pode saber com certeza havia quanto tempo essa carne estava largada, nem se algum dono a comeu enquanto ainda válida, ela é tratada como possivelmente imprópria: deixa-se apodrecer sua aparência antes de ser levada ao local de queima de oferendas desqualificadas, sem desperdiçá-la de imediato.
Se encontrada nas regiões fora de Jerusalém: em membros, são carcaças proibidas; em pedaços, são permitidas. — Fora dos limites da cidade, a lógica se inverte: como não há ali carne sagrada em circulação, membros cortados presumem-se de animais mortos sem abate ritual — proibidos —, enquanto pedaços presumem-se de açougues comuns, e por isso são permitidos.
E na época da festa, quando a carne é abundante, também os membros são permitidos. — Durante os dias de peregrinação, quando a quantidade de carne sacrificada e distribuída em Jerusalém aumenta muito, mesmo membros achados fora da cidade presumem-se provenientes desse abundante comércio sagrado, e não de carcaças, sendo então permitidos.
O versículo de Vayikra, que trata das leis de oferendas pacíficas (zivchei shelamim) e do destino da carne consagrada que se torna imprópria, estabelece o princípio geral por trás desta mishná: carne sagrada de origem duvidosa ou de status incerto não pode ser simplesmente consumida nem descartada sem cuidado — ela deve ser tratada com a cautela devida a algo potencialmente sagrado, "queimada no fogo" quando inválida. É esse mesmo princípio que orienta a mishná a mandar que a carne achada no átrio ou em Jerusalém "aguarde que se estrague sua aparência" antes de seguir para a casa da queima: não se trata de desperdício gratuito, mas do reconhecimento de que aquilo pode ter sido, em algum momento, carne de sacrifício válido.
"Em pedaços, são de oferendas de pecado" — porque no átrio só se come oferendas de pecado e de culpa, cortadas em pedaços para o consumo dos sacerdotes. "E em Jerusalém, são de oferendas pacíficas" — porque a maior parte da carne sagrada consumida na cidade de Jerusalém é de sacrifícios pacíficos, que os próprios donos e seus convidados comem em qualquer lugar dentro dos muros.
"Carne encontrada no átrio" etc.: o holocausto é inteiramente consumido pelo fogo, e por isso não se costuma cortá-lo em pedaços — basta desmembrá-lo em suas articulações, como explicamos no tratado de Tamid. E já se sabe que oferendas pacíficas são comidas em toda Jerusalém, e por isso levamos em conta essa possibilidade quanto à carne ali encontrada.
"Aguarda que se estrague sua aparência" — porque essa carne foi invalidada por descuido de vigilância e está proibida ao consumo, mas não se deve desprezá-la a ponto de queimá-la de imediato: espera-se que sua aparência se deteriore naturalmente antes de levá-la à queima. "Membros são carcaças" — pois é costume cortar carcaças de animais mortos sem abate em membros e jogá-las nas ruas para os cães comerem. "Quando a carne é abundante" — porque nessa época não se costuma cortar a carne em pedaços pequenos, mas cozinhá-la já desmembrada em suas partes maiores.