Seder Moed · Massechet Shekalim · Perek ז׳ · Mishná 7 de 7

Os sete decretos de Beit Din (parte 2): sal, lenha, cinzas da vaca vermelha e ninhos inválidos

עַל הַמֶּלַח וְעַל הָעֵצִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o Perek Zayin completando a lista de sete decretos de Beit Din iniciada na mishná anterior: sal e lenha fornecidos aos sacerdotes, a proibição de má-fé quanto às cinzas da vaca vermelha, e ninhos inválidos de aves financiados pelo fundo comunitário, com a opinião de Rabi Yosei sobre a responsabilidade do fornecedor.

Sobre o sal e sobre a lenha, que os sacerdotes usufruam deles; e sobre a vaca, que não haja má-fé quanto às suas cinzas; e sobre os ninhos inválidos, que venham do fundo comunitário.Completando a lista de sete decretos, o Beit Din estabeleceu: que os sacerdotes possam usar livremente o sal e a lenha do Templo mesmo fora do contexto estrito das oferendas; que, apesar de a Torá isentar de má-fé as cinzas da vaca vermelha, os sábios decretaram que elas fossem tratadas como sagradas para evitar uso indevido; e que, quando um par de aves trazido para sacrifício se revela inválido, sua reposição venha do tesouro comunitário, e não do bolso do próprio ofertante.

Rabi Yosei diz: o fornecedor dos ninhos fornece também os inválidos.Rabi Yosei discorda parcialmente: segundo ele, não é o fundo comunitário geral que arca com a reposição, mas sim o próprio comerciante que vendeu os ninhos ao Templo, que assumiu contratualmente a obrigação de repor qualquer ave que se revelasse imprópria entre as que forneceu.

עַל הַמֶּלַח וְעַל הָעֵצִים שֶׁיִּהְיוּ הַכֹּהֲנִים נֵאוֹתִים בָּהֶן, וְעַל הַפָּרָה שֶׁלֹּא יְהוּ מוֹעֲלִין בְּאֶפְרָהּ, וְעַל הַקִּנִּין הַפְּסוּלוֹת שֶׁיְּהוּ בָאוֹת מִשֶּׁל צִבּוּר. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, הַמְסַפֵּק אֶת הַקִּנִּין, מְסַפֵּק אֶת הַפְּסוּלוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 19:9
וְאָסַף אִישׁ טָהוֹר אֵת אֵפֶר הַפָּרָה וְהִנִּיחַ מִחוּץ לַמַּחֲנֶה בְּמָקוֹם טָהוֹר וְהָיְתָה לַעֲדַת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל לְמִשְׁמֶרֶת לְמֵי נִדָּה חַטָּאת הִוא׃
E um homem puro recolherá as cinzas da vaca e as depositará fora do acampamento, em lugar puro; e serão guardadas para a congregação dos filhos de Israel, para as águas de aspersão — é oferenda de pecado.

O versículo de Bamidbar chama as cinzas da pará adumá, a vaca vermelha, de "חַטָּאת" — oferenda de pecado — o que, pela regra geral, tornaria proibido seu uso indevido (meilá). No entanto, a Torá aplica essa proibição apenas à própria vaca antes da queima, e não às suas cinzas já recolhidas, que tecnicamente ficariam permitidas a qualquer uso. Foi precisamente para fechar essa brecha que o Beit Din decretou, como um dos sete decretos enumerados por Rabi Shimon, que a proibição de má-fé se estendesse também às cinzas — pois os sacerdotes, tendo acesso fácil a elas em suas próprias câmaras, corriam o risco de as usarem informalmente, o que desvalorizaria o respeito devido a essa mitsvá essencial para a purificação de todo o povo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura · Shekalim 7:7
שֶׁלֹּא יִהְיוּ מוֹעֲלִין בְּאֶפְרָהּ. דְּמִן הַתּוֹרָה אֵין מוֹעֲלִין בְּאֶפְרָהּ, דִּכְתִיב (במדבר יט) חַטָּאת הִיא, בָּהּ מוֹעֲלִין וְאֵין מוֹעֲלִין בְּאֶפְרָהּ. כֵּיוָן דְּחָזוּ דְּקָא מְזַלְזְלֵי בָּהּ, גָּזְרוּ בָּהּ מְעִילָה:

"Que não haja má-fé quanto às suas cinzas" — porque, pela Torá, não há proibição de má-fé quanto às cinzas da vaca, pois está escrito "é oferenda de pecado" (Bamidbar 19), o que ensina que a proibição vale para a vaca em si, mas não para suas cinzas. Porém, ao verem que as pessoas as tratavam com desprezo, os sábios decretaram que a proibição se estendesse também às cinzas, para preservar sua santidade.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 7:7
עַל הַמֶּלַח וְעַל הָעֵצִים כוּ': דִּין הַתּוֹרָה, אֵין מוֹעֲלִין בְּאֵפֶר הַפָּרָה. אָמַר בַּסִּפְרֵי: חַטָּאת הִיא, מְלַמֵּד שֶׁמּוֹעֲלִין בָּהּ וְאֵין מוֹעֲלִין בְּאֶפְרָהּ. אֲבָל לְפִי שֶׁהָיוּ הַכֹּהֲנִים מִשְׁתַּמְּשִׁין בְּאֶפְרָהּ בַּחֲבוּרוֹתֵיהֶן, גָּזְרוּ שֶׁיִּהְיוּ מוֹעֲלִין בְּאֶפֶר.

"Sobre o sal e sobre a lenha" etc.: pela lei da Torá, não há má-fé nas cinzas da vaca. Ensina-se no Sifrei: "é oferenda de pecado" — ensina que a proibição de má-fé vale para a vaca em si, e não para suas cinzas. Mas como os sacerdotes costumavam usar as cinzas em seus grupos de purificação de modo informal, os sábios decretaram que passasse a haver proibição de má-fé também sobre elas.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 7:7
שֶׁיִּהְיוּ הַכֹּהֲנִים נֵאוֹתִים בָּהֶן. דַּוְקָא לַאֲכִילַת הַקָּרְבָּנוֹת. וְעַל הַקִּנִּין הַפְּסוּלוֹת. הַמְּחֻיָּבִין קִנִּין מְבִיאִין מָעוֹת וְנוֹתְנִים לַשּׁוֹפָר, וּבֵית דִּין לוֹקְחִין הַמָּעוֹת וְקוֹנִים בָּהֵן קִנִּין, וְהַבְּעָלִים הוֹלְכִים לָהֶם. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר. אוֹתוֹ שֶׁהוּא רָגִיל לְסַפֵּק אֶת הַקִּנִּין, שֶׁפָּסַק דָּמִים עִם הַגִּזְבָּרִים לִמְכֹּר לָהֶם כָּל הַקִּנִּים הַצְּרִיכִים, הוּא חַיָּב לְהַחְלִיף כָּל שֶׁיִּמָּצֵא בָּהֶם פָּסוּל.

"Que os sacerdotes usufruam deles" — especificamente para o consumo das oferendas, e não para uso pessoal comum. "E sobre os ninhos inválidos" — os obrigados a trazer um par de aves depositam o dinheiro no shofar de coleta, o Beit Din toma esse dinheiro e compra com ele os ninhos, e os donos vão embora sem precisar acompanhar o processo; se algum dos pares se revelar inválido, a reposição vem do fundo comunitário. "Rabi Yosei diz" — aquele que costuma fornecer os ninhos ao Templo, tendo fixado um preço com os tesoureiros para vender-lhes todos os ninhos necessários, fica obrigado a repor, às próprias custas, qualquer par que se revele inválido entre os que forneceu.

Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.
סְלִיקָא לֵיהּ פֶּרֶק שְׁבִיעִי

Aqui termina o Perek Zayin de Massechet Shekalim.