Seder Zeraim · Massechet Sheviit · Perek Heh · Mishná 5

"Desde quando é permitido comprar luf"

מֵאֵימָתַי מֻתָּר אָדָם לִקַּח לוּף בְּמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A disputa entre Rabi Yehudá e os sábios sobre desde quando é permitido comprar luf depois do fim do ano sabático

Desde quando é permitido a um homem comprar luf (de outrem, sem suspeita de que seja produto de shevi'it) no ano seguinte à shevi'it? Rabi Yehudá diz: imediatamente (assim que o ano sabático termina, pois o luf, por sua forma de colheita alterada, não costuma ser guardado ilegalmente). E os sábios dizem: desde que se multiplique o novo (quando a nova safra do oitavo ano já se torna abundante no mercado, afastando a suspeita de que se trate ainda de produto do ano sabático).

מֵאֵימָתַי מֻתָּר אָדָם לִקַּח לוּף בְּמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, מִיָּד. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, מִשֶּׁיִּרְבֶּה הֶחָדָשׁ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná encerra o bloco dedicado ao luf, retomando o princípio geral que rege a compra de produtos agrícolas no ano seguinte à shevi'it — quando cessa a presunção de que se trate ainda de fruto sagrado do ano sabático.

Vayikrá (Levítico) 25:6-7
וְהָיְתָה שַׁבַּת הָאָרֶץ לָכֶם לְאָכְלָה... תִּהְיֶה כָל תְּבוּאָתָהּ לֶאֱכֹל.
"E o descanso da terra vos servirá de alimento... será toda a sua produção para comer" (Vayikrá 25:6-7).

A regra geral da compra de produtos após a shevi'it, e a exceção do luf. Como regra geral, os sábios proibiram a compra de vegetais logo após o encerramento do ano sabático, pois receavam que o vendedor estivesse, na verdade, vendendo produto de shevi'it retido ilegalmente — o que violaria as restrições sobre a santidade desses frutos, que não podem ser objeto de comércio comum nem armazenados além do necessário. Essa restrição só se levanta quando "a nova safra já se torna abundante", afastando a suspeita. A pergunta desta mishná é se o luf, por sua natureza peculiar — sendo desenterrado por processo trabalhoso, como já visto na mishná anterior —, deveria ser tratado como exceção a essa regra geral, liberado imediatamente após o fim da shevi'it, uma vez que seria implausível supor que alguém tenha se dado ao trabalho de escavar e guardar clandestinamente uma quantidade de luf de shevi'it apenas para vendê-lo depois.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shemitá veYovel 4:8
מֵאֵימָתַי מוֹתָר אָדָם לִיקַח לוּף בְּמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית מְשֶׁיִּרְבֶּה הֶחָדָשׁ.
Desde quando é permitido a um homem comprar luf no ano seguinte à shevi'it? Desde que se multiplique o novo.

O Rambam decide a halachá conforme os sábios, rejeitando a posição de Rabi Yehudá que permitiria a compra imediata. Assim, mesmo o luf — apesar da peculiaridade de sua colheita, notada por Rabi Yehudá como razão para tratá-lo com mais leniência — permanece sujeito à mesma regra geral que rege os demais vegetais: só se compra livremente quando a nova safra já se tornou abundante no mercado, eliminando qualquer suspeita razoável de que o produto vendido seja, na verdade, fruto retido do ano sabático anterior.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Sheviit 5:5
פֵּרוּשׁ כָּל זֶה מְבֹאָר, וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

A explicação de tudo isto é evidente, e a halachá é conforme os sábios.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sheviit 5:5
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מִיָּד. וְאַף עַל גַּב דְּבִשְׁאָר יְרָקוֹת מוֹדֶה רַבִּי יְהוּדָה דְּאָסוּר עַד שֶׁיַּעֲשֶׂה כַּיּוֹצֵא בּוֹ, בְּלוּף הוֹאִיל וְצָרִיךְ לְעָקְרוֹ לְבֵית שַׁמַּאי בְּמַאֲרוּפוֹת שֶׁל עֵץ וּלְבֵית הִלֵּל בְּקַרְדֻּמּוֹת שֶׁל מַתָּכוֹת, וְאֵין דֶּרֶךְ לְעָקְרוֹ בַּשְּׁבִיעִית אֶלָּא עַל יְדֵי שִׁנּוּי, הִלְכָּךְ בְּמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית לֹא שְׁכִיחַ דְּאִסּוּרָא, וּמִשּׁוּם הָכִי מֻתָּר מִיָּד. אֲבָל יָרָק שֶׁלֹּא גָזְרוּ שֶׁלֹּא לְתָלְשׁוֹ כִּי אוֹרְחֵיהּ, שְׁכִיחַ נַמִּי דְּאִסּוּרָא בַּשְּׁמִינִית, לְפִיכָךְ אָסוּר עַד שֶׁיַּעֲשֶׂה כַּיּוֹצֵא בּוֹ: מִשֶּׁיִּרְבֶּה הֶחָדָשׁ. בַּיְרוּשַׁלְמִי מְפָרֵשׁ דְּהַיְנוּ מִן הַפֶּסַח וְאֵילָךְ. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"Rabi Yehudá diz: imediatamente": e ainda que, quanto aos demais vegetais, Rabi Yehudá concorde que é proibido comprá-los até que se produza algo semelhante à nova safra, quanto ao luf — visto que, para arrancá-lo, é preciso usar, segundo Beit Shamai, enxadas de madeira, e segundo Beit Hilel, machados de metal, e não há costume de arrancá-lo na shevi'it senão por meio de uma alteração no procedimento —, por isso, no ano seguinte à shevi'it, não é comum que haja transgressão, e por essa razão é permitido imediatamente.

Mas o vegetal comum, que os sábios não decretaram que se deixasse de arrancar de seu modo habitual, também é comum que haja transgressão no oitavo ano; por isso é proibido até que se produza algo semelhante à nova safra.

"Desde que se multiplique o novo": no Talmud Yerushalmi se explica que isso é a partir de Pêssach em diante. E a halachá é conforme os sábios.

Massechet Sheviit não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná encerra-se o bloco de mishnayot dedicado ao luf.