A shevi'it foi dada (pela Torá) para comer, para beber e para ungir: comer uma coisa que costuma ser comida, e ungir uma coisa que costuma ser usada para untar. Não se unge com vinho e vinagre, mas unge-se com óleo. E assim também com a teruma, e assim também com o maasser sheni (segundo dízimo — regem-se pelo mesmo princípio). Foi dada maior leniência ao óleo de shevi'it, pois foi dado para acender a lâmpada (um quarto uso, exclusivo do óleo de shevi'it, que nem a teruma nem o maasser sheni possuem).
Continua o Perek Chet detalhando os usos autorizados dos frutos de shevi'it: comer, beber, ungir — e a leniência exclusiva do óleo para acender a lâmpada, derivada da mesma expressão bíblica que rege todo o capítulo.
Da palavra final do versículo — "תהיה" (será) — a tradição oral deriva, por leitura ampliada ("בהוייתה תהא" — em sua existência ela permanecerá, incluindo todos os usos naturais do produto), que os frutos de shevi'it servem não apenas para comer e untar, mas também para acender a lâmpada e para tingir. Enquanto comer, beber e ungir são usos diretos e evidentes do fruto — e por isso compartilhados com a teruma e o maasser sheni, que seguem a mesma restrição de "uso costumeiro" —, o acender da lâmpada é um uso adicional, derivado por uma leitura expansiva da palavra "תהיה", exclusivo da shevi'it. Este é o sentido da "maior leniência" mencionada no fim da mishná: apenas o óleo de shevi'it, e não o de teruma pura nem o de maasser sheni impuro (que têm suas próprias restrições quanto à lâmpada), goza dessa extensão de uso.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam expande a mishná acrescentando o quinto uso — tingir — que a própria mishná não menciona explicitamente nesta passagem, mas que se relaciona ao segundo grande princípio do Perek Zayin (7:1), sobre plantas tintoriais. Ele situa a regra de "uso costumeiro" (comer o que se come, untar o que se unge) como um princípio comum à shevi'it, à teruma e ao maasser sheni — todos frutos de santidade especial que restringem seu uso ao modo natural e não permitem desperdício ou aplicação estranha à sua função própria.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Disse o Versículo a respeito do assunto do ano sabático: "e para o teu animal, e para o animal selvagem que está em tua terra, será toda a sua produção para comer". E disseram no Sifri: "será" — inclui também acender a lâmpada, inclui também tingir com ele cor.
E ainda explicaremos as leis de teruma e maasser sheni em seus respectivos lugares nesta Ordem (de Zeraim).
"Para comer, beber e ungir": trata-se de uvas e azeitonas, pois nelas há comer, beber e untar.
"Comer coisa que costuma ser comida": ainda que a Torá tenha dito "para alimento" e não "para perda", não se obriga a pessoa a comer coisa que não é costume das pessoas comer, como um cozido estragado — e não nos preocupamos se isso se perde. E do mesmo modo, coisa que não é costume das pessoas comer senão depois de preparada, e vem a comê-la como está, sem preparo — como comer acelgas cruas, ou mastigar trigo cru — não se lhe dá ouvidos (não se exige que coma dessa forma).
"E assim também com a teruma, e assim também com o maasser sheni": não foram dados senão para comer, beber e ungir.
"Pois foi dado para acender a lâmpada": o que não ocorre com a teruma pura; mas com a teruma impura, acende-se com ela a lâmpada. E no maasser sheni está escrito "e não removi dele em estado de impureza" — mas em estado de pureza é permitido queimá-lo (gastá-lo dessa forma). E na shevi'it, seja em estado de impureza, seja em estado de pureza, é permitido.