Um couro que untaram o curtidor untou com óleo de shevi'it (vedado, pois "ungir" refere-se a pessoa, e não a objetos — ver 8:8): Rabi Eliezer diz: será queimado (pois a santidade de shevi'it não pode ser removida do couro de outro modo). Mas os sábios dizem: come-se o equivalente (a solução comum já vista em 8:8 — gastar valor equivalente em alimento). Disseram diante de Rabi Akiva: "Rabi Eliezer costumava dizer: um couro que untaram com óleo de shevi'it será queimado." Ele lhes disse: "Silêncio! Não vos direi o que Rabi Eliezer dizia sobre isso" (recusando-se a confirmar publicamente uma versão ainda mais estrita da opinião de seu mestre, por razões de disciplina ou prudência haláchica).
A mishná retoma o caso do couro untado (já mencionado em 8:8) para uma controvérsia específica de rigor entre Rabi Eliezer e os sábios, seguida de um episódio biográfico envolvendo Rabi Akiva.
A mesma restrição de "para alimento" que limita o uso da shevi'it a comer, beber e ungir pessoas (e não objetos, ver 8:2 e 8:8) está no centro desta controvérsia: Rabi Eliezer entende que, uma vez que o óleo foi desviado para um uso proibido (untar um objeto inanimado), o couro absorveu a santidade de shevi'it de modo irreversível, exigindo sua queima; os sábios entendem que basta retificar o desvio comendo o equivalente. A disputa entre Rabi Eliezer e os sábios reflete duas leituras possíveis do mesmo princípio: para Rabi Eliezer, quando a shevi'it é desviada para um uso estranho ao seu propósito — mesmo que por engano ou uso indevido —, ela "gruda" de modo permanente no objeto que a recebeu, e apenas a queima (destruição total) pode remover essa impureza funcional. Os sábios, por sua vez, tratam esse desvio como qualquer outro caso de uso indevido do dinheiro ou produto de shevi'it (como em 8:8), corrigível pela retificação comum: gastar o equivalente em alimento consumido com santidade de shevi'it, deixando o couro livre para uso normal. O episódio com Rabi Akiva ilustra a delicadeza de transmitir opiniões minoritárias mais rigorosas de um mestre, especialmente diante de figuras de autoridade — tema que se repete na mishná seguinte.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam. A halachá segue os sábios, contra Rabi Eliezer.
O Rambam decide a halachá segundo a opinião dos sábios, sem sequer mencionar a posição de Rabi Eliezer de queimar o couro — sinal de que a considera rejeitada. A solução prática, portanto, é a mesma dos demais casos de uso indevido de dinheiro ou produto de shevi'it: retificar comendo o equivalente, sem necessidade de destruir o objeto.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Rabi Akiva foi discípulo de Rabi Eliezer, e costumava dizer em seu nome, nesta halachá, que ele era leniente. E quando ouviu que diziam em nome de seu mestre que ele era rigoroso nesta halachá, silenciou-os e disse-lhes: "não digais isso em nome dele, pois não posso explicar-vos a opinião de Rabi Eliezer nesta halachá, de tanto que ele era leniente nela". E este é o sentido de "não vos direi" — isto é, não me é possível dizê-lo.
E a halachá segue os sábios.
"Silêncio! Não vos direi o que Rabi Eliezer diz sobre isso": Rabi Akiva recebeu de Rabi Eliezer, seu mestre, que este era ainda mais leniente quanto à unção do que a versão que relatavam; e quando lhe disseram que Rabi Eliezer dizia "será queimado", ele lhes disse "silêncio", pois não lhe era permitido explicar o quanto Rabi Eliezer era, na verdade, leniente nisso (Rabi Akiva possuía uma tradição diferente e mais branda do próprio Rabi Eliezer, e preferiu calar-se a contradizer publicamente a versão que circulava).
E a halachá segue os sábios.