Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Alef · Mishná 6 de 9

Vestes negras e a corda egípcia: a exposição pública da sotá

הָיְתָה מִתְכַּסָּה בִלְבָנִים, מְכַסָּהּ בִּשְׁחוֹרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná descreve o auge da humilhação pública: trocam-se suas vestes por outras que a desfigurem, retiram-se seus adornos, amarra-se-lhe uma corda egípcia, e a cena é aberta a qualquer pessoa — sendo, para as mulheres, obrigatório assistir.

Se ela se cobria com vestes brancas, cobrem-na com vestes negras. Se tinha sobre si joias de ouro, colares, argolas e anéis, removem-nos dela, para desfigurá-la. E depois trazem uma corda egípcia e a amarram acima de seus seios. E todo aquele que quiser vir ver, vem ver, exceto seus servos e suas servas, pois seu ânimo se acostuma com eles. E todas as mulheres são permitidas a vê-la, como está dito: "e todas as mulheres serão advertidas, e não farão conforme sua depravação".A mishná descreve as etapas finais da preparação da sotá antes de beber as águas: se costumava se vestir de branco, agora a vestem de preto; retiram-se todos os seus adornos de ouro — não para poupá-la de vergonha adicional, mas justamente para acentuar sua desfiguração pública; e amarra-se-lhe uma corda egípcia acima dos seios, para que suas vestes rasgadas não caiam por completo, mantendo alguma cobertura mínima em meio à humilhação. A cena então se torna pública: qualquer pessoa pode vir assistir, com a única exceção de seus próprios servos e servas, que, por já terem convívio próximo e familiar com ela, poderiam não sentir o impacto pretendido pela exposição. Para as mulheres, porém, assistir não é apenas permitido — é obrigatório, pois a Torá, no versículo citado do profeta Yechezkel, prevê que o espetáculo sirva de advertência moral a todas elas.

הָיְתָה מִתְכַּסָּה בִלְבָנִים, מְכַסָּהּ בִּשְׁחוֹרִים. הָיוּ עָלֶיהָ כְלֵי זָהָב וְקַטְלָיאוֹת, נְזָמִים וְטַבָּעוֹת, מַעֲבִירִים מִמֶּנָּה כְּדֵי לְנַוְּלָהּ. וְאַחַר כָּךְ מֵבִיא חֶבֶל מִצְרִי וְקוֹשְׁרוֹ לְמַעְלָה מִדַּדֶּיהָ. וְכָל הָרוֹצֶה לִרְאוֹת בָּא לִרְאוֹת, חוּץ מֵעֲבָדֶיהָ וְשִׁפְחוֹתֶיהָ, מִפְּנֵי שֶׁלִּבָּהּ גַּס בָּהֶן. וְכָל הַנָּשִׁים מֻתָּרוֹת לִרְאוֹתָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר (יחזקאל כג) וְנִוַּסְּרוּ כָּל הַנָּשִׁים וְלֹא תַעֲשֶׂינָה כְּזִמַּתְכֶנָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A obrigatoriedade de todas as mulheres assistirem ao procedimento é derivada de um versículo do profeta Yechezkel, na denúncia da infidelidade simbólica de Israel.

Yechezkel (Ezequiel) 23:48
וְנִוַּסְּרוּ כָּל הַנָּשִׁים וְלֹא תַעֲשֶׂינָה כְּזִמַּתְכֶנָה
E todas as mulheres serão advertidas, e não farão conforme sua depravação.

Rambam observa que, embora este versículo pertença ao profeta Yechezkel, e não à própria Torá, a tradição rabínica o adota como base para transformar a presença feminina no espetáculo da sotá de mera permissão em obrigação: as mulheres presentes na região devem comparecer, precisamente para que a advertência moral do procedimento cumpra seu propósito dissuasório mais amplo. Para os homens, por outro lado, a mishná trata a presença como opcional — "todo aquele que quiser vir ver, vem ver" —, sem qualquer obrigação formal.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica por que se retiram os adornos em vez de mantê-los, e detalha os termos técnicos dos objetos removidos.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 1:6
ופירוש קטליות ענקים והם חרוזי זהב מכניסין אותם לחוט ועונקים בהם הצואר. נזמים הם תכשיטי האף. טבעת ידוע. וניוול הוא לפי הלשון הגיעול והגנאי

Rambam identifica cada adorno mencionado na mishná: as "katlaiot" são colares de contas de ouro enfiadas em um fio e presas ao redor do pescoço; os "nezamim" são adornos usados no nariz; e as "tabaot" são simplesmente anéis. Sobre o propósito de removê-los, explica que a palavra usada pela mishná — "nivul" — carrega o sentido de repugnância e desfiguração: retirar os adornos não é um ato de compaixão, mas parte deliberada do processo de humilhação, pois deixá-los sobre ela, junto às vestes já rasgadas, seria incongruente com o objetivo de expô-la em sua condição mais desfavorável.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 7b), além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 7b, s.v. וקטליאות; חבל המצרי; וקושר למעלה מדדיה
וְקַטְלָיאוֹת - תַּכְשִׁיט הוּא כְּמִין חֲצִי עִגּוּל פָּתוּחַ וְסוֹגֶרֶת בּוֹ אֶת חֲלוּקָהּ וּמַקִּיף אֶת גְּרוֹנָהּ מִן הַצְּדָדִין: חֶבֶל הַמִּצְרִי - עָשׂוּי מִצּוֹרִי דֶּקֶל מְסִיב הַגָּדֵל סְבִיב הַדֶּקֶל וְכָרוּךְ עָלָיו: וְקוֹשֵׁר לְמַעְלָה מִדַּדֶּיהָ - כְּדֵי שֶׁלֹּא יִשָּׁמְטוּ בְגָדֶיהָ לָאָרֶץ

Rashi descreve fisicamente o colar mencionado na mishná — um adorno em forma de meio-círculo aberto, com o qual se fecha a gola da veste, contornando o pescoço pelos lados. Sobre a corda egípcia, explica que era feita das fibras que crescem envolvendo o tronco da tamareira, entrelaçadas. E confirma o propósito prático de amarrá-la acima dos seios: evitar que, com as vestes já rasgadas e soltas pelo procedimento, elas caiam completamente ao chão, deixando-a sem cobertura alguma.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 1:6
ומה שאמר הרוצה לראות ר"ל האנשים אבל הנשים מחוייבות בהכרח שיהיו מצויות שם... וענין לבה גס בהן רגיל שהיא יש לה נחת רוח כשהיא רואה למי שמכרת

Rambam confirma que a expressão "quem quiser ver" refere-se especificamente aos homens, enquanto as mulheres presentes na região são obrigadas a comparecer. Explica também a exceção dos servos e servas da própria mulher: a expressão "seu ânimo se acostuma com eles" significa que ela sente certo conforto ao ver rostos familiares e conhecidos em meio à multidão — conforto esse que anularia o efeito de humilhação e vergonha que o procedimento busca produzir, motivo pelo qual eles são especificamente excluídos da plateia.

Bartenura · רע״ב
Sotá 1:6
נְזָמִים וְטַבָּעוֹת מַעֲבִירִים מִמֶּנָּה. מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא דְּלֹא תֵימָא שֶׁיָּנִיחוּ לָהּ... חֶבֶל מִצְרִי. מְפָרֵשׁ בַּיְרוּשַׁלְמִי, לְפִי שֶׁעָשְׂתָה מַעֲשֵׂה מִצְרַיִם

Bartenura explica que a Guemará precisa esclarecer expressamente que os adornos são removidos, para que não se pense o contrário — que talvez fosse mantê-los sobre ela mesmo depois de rasgadas as vestes e exposto o peito, pois isso poderia parecer, à primeira vista, uma vergonha ainda maior, à semelhança de alguém nu que caminha calçado, o que soa mais indecoroso do que caminhar descalço; a mishná esclarece que não é esse o caso, e os adornos são de fato removidos. Sobre a corda especificamente egípcia, cita o Talmud Yerushalmi: ela alude ao fato de que o povo de Israel, segundo a tradição, praticou atos de infidelidade à semelhança dos costumes do Egito — e por isso a corda usada no procedimento evoca simbolicamente essa terra.