Rabi Shimon diz: o mérito não suspende as águas amargas. E se dizes que o mérito suspende as águas que amaldiçoam, enfraqueces as águas diante de todas as mulheres que bebem, e dás má fama às puras que beberam, pois dizem: "são impuras, mas o mérito lhes suspendeu." Rabi diz: o mérito suspende as águas que amaldiçoam, mas ela não dá à luz nem floresce, mas vai definhando, até que ao final morre da mesma morte. — Rabi Shimon rejeita totalmente o princípio do mérito que adia, apresentado como consenso na mishná anterior, e o faz não por uma leitura textual diferente, mas por uma preocupação com as consequências práticas da própria doutrina: se as pessoas passarem a acreditar que o mérito pode neutralizar o efeito das águas amargas, o próprio instrumento perde sua força dissuasória — as mulheres deixarão de temê-lo, confiando em seus méritos acumulados. Pior ainda, argumenta Rabi Shimon, essa crença lança uma sombra de suspeita sobre toda mulher que bebeu e sobreviveu: em vez de ser reconhecida como inocente, ela passa a ser vista como uma culpada cujo mérito apenas adiou o inevitável, difamando injustamente as mulheres verdadeiramente puras. Rabi, por sua vez, aceita o princípio do mérito, mas o reformula de um jeito que neutraliza a objeção de Rabi Shimon: o mérito não impede definitivamente o castigo, apenas o adia — durante esse período de adiamento, a mulher não volta a ter filhos nem prospera fisicamente, mas definha progressivamente, e ao final da vida morre da mesma morte violenta que teria sofrido de imediato. Dessa forma, ninguém pode confundir a sobrevivência aparente com verdadeira inocência: o sofrimento visível da mulher ao longo dos anos seguintes já denuncia sua condição, preservando o poder dissuasório e a reputação das mulheres realmente puras.
A controvérsia entre Rabi Shimon e Rabi é uma leitura divergente do mesmo par de versículos já citado na mishná anterior, sobre o efeito das águas e a condição da mulher pura.
Para Rabi, é justamente da promessa positiva "será fecundada com semente" — reservada explicitamente à mulher pura — que se infere, por oposição, que a mulher culpada cujo castigo foi adiado por mérito jamais experimentará essa bênção: ela pode sobreviver ao efeito imediato da água, mas não voltará a gerar filhos nem a prosperar, definhando até a morte. Rabi Shimon, em contraste, entende que a Torá descreve um efeito automático e binário — ou a mulher é culpada e morre imediatamente, ou é pura e é abençoada — sem espaço textual para um estado intermediário de mérito que adia; e sustenta essa posição não apenas por leitura literal, mas por uma preocupação com a integridade pública de todo o sistema das águas amargas.
Nem o Perush HaMishná de Rambam nem o comentário de Rashi sobre esta mishná específica foram localizados no material disponível; a halachá é apresentada aqui com base em Bartenura, rotulado honestamente como única fonte encontrada.
Bartenura esclarece dois termos-chave da mishná. "Enfraqueces [madhe] as águas" significa literalmente diminuir e escurecer — a mesma raiz usada na linguagem da Mishná para uma tonalidade desbotada, sem brilho — descrevendo como a crença no mérito reduziria o poder de intimidação das águas amargas diante de todas as mulheres que as bebem. "Vai definhando" [mitnavá vehoolechet] significa que ela adoece progressivamente — não uma doença qualquer, mas um declínio contínuo e visível de saúde, que Rabi entende como o efeito real do castigo adiado até a morte final.
Rashi não comenta explicitamente esta mishná no texto disponível (o material de Sotá 22b sobre a Guemará adjacente trata de outros temas). Apresenta-se aqui apenas Bartenura, rotulado honestamente como comentador único desta seção.
Bartenura concentra sua explicação nos dois termos técnicos da disputa, deixando implícita a lógica argumentativa já clara no próprio texto da mishná: Rabi Shimon teme que o próprio conceito de "mérito que suspende" mine a credibilidade do sistema das águas amargas como instrumento dissuasório e como prova pública de inocência; Rabi aceita o conceito, mas o esvazia de qualquer benefício real para a mulher culpada — ela não recupera fertilidade nem prosperidade, apenas definha lentamente rumo à mesma morte, o que preserva, na prática, o caráter definitivo do julgamento divino mesmo quando adiado no tempo.