Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Guimel · Mishná 5 de 8

Rabi Shimon e Rabi: o mérito adia ou impede o castigo?

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין זְכוּת תּוֹלָה בַמַּיִם הַמָּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná registra uma controvérsia direta sobre o próprio princípio do mérito que adia introduzido na mishná anterior: Rabi Shimon o rejeita por completo, com um argumento de política pública; Rabi o aceita, mas com uma ressalva severa quanto ao destino final da mulher.

Rabi Shimon diz: o mérito não suspende as águas amargas. E se dizes que o mérito suspende as águas que amaldiçoam, enfraqueces as águas diante de todas as mulheres que bebem, e dás má fama às puras que beberam, pois dizem: "são impuras, mas o mérito lhes suspendeu." Rabi diz: o mérito suspende as águas que amaldiçoam, mas ela não dá à luz nem floresce, mas vai definhando, até que ao final morre da mesma morte.Rabi Shimon rejeita totalmente o princípio do mérito que adia, apresentado como consenso na mishná anterior, e o faz não por uma leitura textual diferente, mas por uma preocupação com as consequências práticas da própria doutrina: se as pessoas passarem a acreditar que o mérito pode neutralizar o efeito das águas amargas, o próprio instrumento perde sua força dissuasória — as mulheres deixarão de temê-lo, confiando em seus méritos acumulados. Pior ainda, argumenta Rabi Shimon, essa crença lança uma sombra de suspeita sobre toda mulher que bebeu e sobreviveu: em vez de ser reconhecida como inocente, ela passa a ser vista como uma culpada cujo mérito apenas adiou o inevitável, difamando injustamente as mulheres verdadeiramente puras. Rabi, por sua vez, aceita o princípio do mérito, mas o reformula de um jeito que neutraliza a objeção de Rabi Shimon: o mérito não impede definitivamente o castigo, apenas o adia — durante esse período de adiamento, a mulher não volta a ter filhos nem prospera fisicamente, mas definha progressivamente, e ao final da vida morre da mesma morte violenta que teria sofrido de imediato. Dessa forma, ninguém pode confundir a sobrevivência aparente com verdadeira inocência: o sofrimento visível da mulher ao longo dos anos seguintes já denuncia sua condição, preservando o poder dissuasório e a reputação das mulheres realmente puras.

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין זְכוּת תּוֹלָה בַמַּיִם הַמָּרִים. וְאִם אַתָּה אוֹמֵר, הַזְּכוּת תּוֹלָה בַמַּיִם הַמְאָרְרִים, מַדְהֶה אַתָּה אֶת הַמַּיִם בִּפְנֵי כָל הַנָּשִׁים הַשּׁוֹתוֹת, וּמוֹצִיא אַתָּה שֵׁם רַע עַל הַטְּהוֹרוֹת שֶׁשָּׁתוּ, שֶׁאוֹמְרִים טְמֵאוֹת הֵן אֶלָּא שֶׁתָּלְתָה לָהֶן זְכוּת. רַבִּי אוֹמֵר, הַזְּכוּת תּוֹלָה בַמַּיִם הַמְאָרְרִים, וְאֵינָהּ יוֹלֶדֶת וְאֵינָהּ מַשְׁבַּחַת, אֶלָּא מִתְנַוְּנָה וְהוֹלֶכֶת, לְסוֹף הִיא מֵתָה בְּאוֹתָהּ מִיתָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A controvérsia entre Rabi Shimon e Rabi é uma leitura divergente do mesmo par de versículos já citado na mishná anterior, sobre o efeito das águas e a condição da mulher pura.

Bamidbar (Números) 5:27-28
וְצָבְתָ֣ה בִטְנָ֔הּ וְנָפְלָ֖ה יְרֵכָ֑הּ וְהָיְתָ֧ה הָאִשָּׁ֛ה לְאָלָ֖ה בְּקֶ֥רֶב עַמָּֽהּ׃ וְאִם־לֹ֤א נִטְמְאָה֙ הָֽאִשָּׁ֔ה וּטְהֹרָ֖ה הִ֑וא וְנִקְּתָ֖ה וְנִזְרְעָ֥ה זָֽרַע׃
E seu ventre inchará e sua coxa cairá, e a mulher será por maldição no meio de seu povo. Mas se a mulher não se contaminou, e é pura, ficará livre e será fecundada com semente.

Para Rabi, é justamente da promessa positiva "será fecundada com semente" — reservada explicitamente à mulher pura — que se infere, por oposição, que a mulher culpada cujo castigo foi adiado por mérito jamais experimentará essa bênção: ela pode sobreviver ao efeito imediato da água, mas não voltará a gerar filhos nem a prosperar, definhando até a morte. Rabi Shimon, em contraste, entende que a Torá descreve um efeito automático e binário — ou a mulher é culpada e morre imediatamente, ou é pura e é abençoada — sem espaço textual para um estado intermediário de mérito que adia; e sustenta essa posição não apenas por leitura literal, mas por uma preocupação com a integridade pública de todo o sistema das águas amargas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Nem o Perush HaMishná de Rambam nem o comentário de Rashi sobre esta mishná específica foram localizados no material disponível; a halachá é apresentada aqui com base em Bartenura, rotulado honestamente como única fonte encontrada.

Bartenura · Sotá 3:5 (única fonte localizada para esta mishná)
מַדְהֶה אַתָּה אֶת הַמַּיִם. מְחַסֵּר וּמַחְשִׁיךְ. הַגָּוֶן הֶחָסֵר נִקְרָא דִּהָה בִּלְשׁוֹן מִשְׁנָה: מִתְנַוְּנָה וְהוֹלֶכֶת. נֶחֱלֵית וְהוֹלֶכֶת

Bartenura esclarece dois termos-chave da mishná. "Enfraqueces [madhe] as águas" significa literalmente diminuir e escurecer — a mesma raiz usada na linguagem da Mishná para uma tonalidade desbotada, sem brilho — descrevendo como a crença no mérito reduziria o poder de intimidação das águas amargas diante de todas as mulheres que as bebem. "Vai definhando" [mitnavá vehoolechet] significa que ela adoece progressivamente — não uma doença qualquer, mas um declínio contínuo e visível de saúde, que Rabi entende como o efeito real do castigo adiado até a morte final.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi não comenta explicitamente esta mishná no texto disponível (o material de Sotá 22b sobre a Guemará adjacente trata de outros temas). Apresenta-se aqui apenas Bartenura, rotulado honestamente como comentador único desta seção.

Bartenura · רע״ב
Sotá 3:5 (único mefaresh localizado para esta mishná)
מַדְהֶה אַתָּה אֶת הַמַּיִם. מְחַסֵּר וּמַחְשִׁיךְ. הַגָּוֶן הֶחָסֵר נִקְרָא דִּהָה בִּלְשׁוֹן מִשְׁנָה: מִתְנַוְּנָה וְהוֹלֶכֶת. נֶחֱלֵית וְהוֹלֶכֶת

Bartenura concentra sua explicação nos dois termos técnicos da disputa, deixando implícita a lógica argumentativa já clara no próprio texto da mishná: Rabi Shimon teme que o próprio conceito de "mérito que suspende" mine a credibilidade do sistema das águas amargas como instrumento dissuasório e como prova pública de inocência; Rabi aceita o conceito, mas o esvazia de qualquer benefício real para a mulher culpada — ela não recupera fertilidade nem prosperidade, apenas definha lentamente rumo à mesma morte, o que preserva, na prática, o caráter definitivo do julgamento divino mesmo quando adiado no tempo.