Naquele dia, expôs Rabi Akiva: "e todo vaso de barro em cujo interior cair algo deles, tudo o que houver em seu interior se contaminará" — não diz "contaminado", mas "se contaminará", para contaminar outros; ensinou sobre o pão de segundo grau, que contamina o terceiro. Disse Rabi Yehoshua: quem tirará o pó de teus olhos, Rabán Yochanan ben Zakai, que costumavas dizer que uma geração futura viria a purificar o pão de terceiro grau, pois não há para ele texto da Torá que o declare impuro? E eis que Akiva, teu discípulo, traz para ele um texto da Torá que o declara impuro, como está dito: "tudo o que houver em seu interior se contaminará". — Rabi Akiva examina o versículo sobre a impureza transmitida por um réptil morto que cai dentro de um vaso de barro fechado: tudo o que está dentro do vaso se contamina. A Torá poderia ter dito simplesmente "é impuro", mas emprega o verbo no futuro, "se contaminará" — e Rabi Akiva lê esse detalhe como indicação de que o próprio alimento contaminado, já em segundo grau de impureza, tem o poder de contaminar um terceiro alimento que venha a tocá-lo, ao menos no caso de alimentos sagrados como a teruma. Rabi Yehoshua reage com admiração e emoção: seu próprio mestre, Rabán Yochanan ben Zakai, costumava ensinar o oposto — que a impureza de terceiro grau em alimentos comuns seria eventualmente reconhecida como sem base bíblica, e que uma geração futura mais sábia acabaria por revogar essa restrição por falta de fundamento na Torá. Ao ver que Rabi Akiva, discípulo de seu próprio discípulo, encontrou exatamente o texto que faltava, Rabi Yehoshua expressa contentamento e certa ironia afetuosa: a "geração futura" que traria clareza sobre o assunto já havia chegado, mas em sentido contrário ao que Rabán Yochanan ben Zakai esperava — não para anular a impureza, mas para confirmá-la com base textual explícita.
A derasha de Rabi Akiva parte diretamente da lei do vaso de barro em Vaicrá, sobre a impureza dos oito répteis rastejantes.
Rashi explica que o vaso de barro é primeiro grau de impureza por ter recebido o réptil morto diretamente, e o alimento em seu interior torna-se segundo grau por ter sido contaminado pelo vaso. Rabi Akiva lê a expressão "יִטְמָא" — no futuro, e não "טָמֵא", no presente — como um chamado à leitura ampliada: o próprio alimento de segundo grau, ao tocar em outro alimento, ainda "contaminará" esse terceiro, criando uma cadeia que a leitura simples do versículo não indicaria.
Rambam fixa o alcance prático da lei — segundo grau contamina terceiro apenas em teruma, não em alimento comum — e explica a expressão recorrente "naquele dia"; Bartenura confirma e localiza cada termo.
Rambam fixa a halachá final: embora Rabi Akiva, em sua leitura mais ampla, sustentasse que mesmo em alimento comum o segundo grau contamina o terceiro, essa não é a lei aceita — o efeito de "segundo contaminando terceiro" vale apenas para a teruma, oferenda sagrada de padrão de pureza mais rigoroso, e não para o alimento comum do dia a dia. Rambam também esclarece, de uma vez por todas, a expressão recorrente "naquele dia": trata-se sempre do dia em que Rabi Elazar ben Azaria foi nomeado presidente da academia, e as derashot reunidas aqui foram todas proferidas nessa mesma sessão histórica.
Bartenura explica por que essas quatro derashot, sem qualquer relação temática com a sotá, aparecem justamente aqui: como a própria derasha da mishná anterior — "contaminou-se, contaminou-se" — também foi proferida naquele dia célebre em Yavneh, os editores da mishná aproveitaram para reunir, na sequência, todas as demais derashot marcantes ditas na mesma ocasião, ainda que pertencentes a outros assuntos por completo.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 27b), Rambam e Bartenura.
Rashi confirma que "naquele dia" designa sempre o dia da nomeação de Rabi Elazar ben Azaria, e explica a cadeia de impureza passo a passo: o vaso de barro é primeiro grau por ter recebido o réptil, e o pão em seu interior torna-se segundo grau por causa do vaso. A leitura de "יִטְמָא" em vez de "טָמֵא" ensina que esse mesmo pão, já contaminado, é capaz de contaminar um terceiro alimento. Rashi observa que, até então, essa impureza de terceiro grau só tinha base para a teruma por um cálculo lógico — um kal vachomer que os próprios sábios haviam formulado, sem apoio textual direto —, mas Rabi Akiva localizou um versículo explícito que a sustenta mesmo para alimento comum, embora a halachá final restrinja seu efeito à teruma.
Rambam detalha o mecanismo técnico: o réptil morto é fonte primária de impureza (av hatumá), e basta cair no espaço interno do vaso de barro — mesmo sem tocar suas paredes — para contaminá-lo, uma regra específica dos vasos de barro que os distingue de outros materiais. O vaso contaminado é então primeiro grau, e o alimento em seu interior, segundo grau. Rambam reafirma que a extensão de Rabi Akiva ao alimento comum não é a halachá aceita, limitando o princípio à teruma.
Bartenura resume a cadeia técnica de impureza — vaso como primeiro grau, alimento interno como segundo — e confirma que a palavra "יִטְמָא" é lida como capacidade de contaminar terceiros. Bartenura destaca a emoção do episódio: Rabán Yochanan ben Zakai já esperava que uma "geração futura" viesse purificar o pão de terceiro grau por falta de base bíblica, mas foi o próprio neto espiritual de seu ensino, Rabi Akiva, quem trouxe o texto que confirma a impureza — encerrando explicitamente que a halachá segue a posição restrita: segundo contamina terceiro apenas em teruma, não em alimento comum.