Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Hei · Mishná 2 de 5

Naquele dia: o pão de segundo grau que contamina o terceiro

בּוֹ בַּיּוֹם דָּרַשׁ רַבִּי עֲקִיבָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná abre uma série de quatro derashot que foram todas ditas "naquele dia" — o dia em que Rabi Elazar ben Azaria foi elevado à presidência da academia de Yavneh e as portas do bet midrash se abriram a todos os alunos. Embora sem relação direta com o tema da sotá, a Guemará as reúne aqui porque a derasha da mishná anterior, sobre "contaminou-se, contaminou-se", também foi dita naquele mesmo dia memorável.

Naquele dia, expôs Rabi Akiva: "e todo vaso de barro em cujo interior cair algo deles, tudo o que houver em seu interior se contaminará" — não diz "contaminado", mas "se contaminará", para contaminar outros; ensinou sobre o pão de segundo grau, que contamina o terceiro. Disse Rabi Yehoshua: quem tirará o pó de teus olhos, Rabán Yochanan ben Zakai, que costumavas dizer que uma geração futura viria a purificar o pão de terceiro grau, pois não há para ele texto da Torá que o declare impuro? E eis que Akiva, teu discípulo, traz para ele um texto da Torá que o declara impuro, como está dito: "tudo o que houver em seu interior se contaminará".Rabi Akiva examina o versículo sobre a impureza transmitida por um réptil morto que cai dentro de um vaso de barro fechado: tudo o que está dentro do vaso se contamina. A Torá poderia ter dito simplesmente "é impuro", mas emprega o verbo no futuro, "se contaminará" — e Rabi Akiva lê esse detalhe como indicação de que o próprio alimento contaminado, já em segundo grau de impureza, tem o poder de contaminar um terceiro alimento que venha a tocá-lo, ao menos no caso de alimentos sagrados como a teruma. Rabi Yehoshua reage com admiração e emoção: seu próprio mestre, Rabán Yochanan ben Zakai, costumava ensinar o oposto — que a impureza de terceiro grau em alimentos comuns seria eventualmente reconhecida como sem base bíblica, e que uma geração futura mais sábia acabaria por revogar essa restrição por falta de fundamento na Torá. Ao ver que Rabi Akiva, discípulo de seu próprio discípulo, encontrou exatamente o texto que faltava, Rabi Yehoshua expressa contentamento e certa ironia afetuosa: a "geração futura" que traria clareza sobre o assunto já havia chegado, mas em sentido contrário ao que Rabán Yochanan ben Zakai esperava — não para anular a impureza, mas para confirmá-la com base textual explícita.

בּוֹ בַּיּוֹם דָּרַשׁ רַבִּי עֲקִיבָא, וְכָל כְּלִי חֶרֶשׂ אֲשֶׁר יִפֹּל מֵהֶם אֶל תּוֹכוֹ כֹּל אֲשֶׁר בְּתוֹכוֹ יִטְמָא, אֵינוֹ אוֹמֵר טָמֵא אֶלָּא יִטְמָא, לְטַמֵּא אֲחֵרִים, לִמֵּד עַל כִּכָּר שֵׁנִי שֶׁמְּטַמֵּא אֶת הַשְּׁלִישִׁי. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, מִי יְגַלֶּה עָפָר מֵעֵינֶיךָ, רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, שֶׁהָיִיתָ אוֹמֵר, עָתִיד דּוֹר אַחֵר לְטַהֵר כִּכָּר שְׁלִישִׁי, שֶׁאֵין לוֹ מִקְרָא מִן הַתּוֹרָה שֶׁהוּא טָמֵא. וַהֲלֹא עֲקִיבָא תַּלְמִידְךָ מֵבִיא לוֹ מִקְרָא מִן הַתּוֹרָה שֶׁהוּא טָמֵא, שֶׁנֶּאֱמַר, כֹּל אֲשֶׁר בְּתוֹכוֹ יִטְמָא:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A derasha de Rabi Akiva parte diretamente da lei do vaso de barro em Vaicrá, sobre a impureza dos oito répteis rastejantes.

Vaicrá (Levítico) 11:33
וְכָל כְּלִי חֶרֶשׂ אֲשֶׁר יִפֹּל מֵהֶם אֶל תּוֹכוֹ כֹּל אֲשֶׁר בְּתוֹכוֹ יִטְמָא וְאֹתוֹ תִשְׁבֹּרוּ׃
"E todo vaso de barro em cujo interior cair algo deles — tudo o que houver em seu interior se contaminará, e a ele quebrareis."

Rashi explica que o vaso de barro é primeiro grau de impureza por ter recebido o réptil morto diretamente, e o alimento em seu interior torna-se segundo grau por ter sido contaminado pelo vaso. Rabi Akiva lê a expressão "יִטְמָא" — no futuro, e não "טָמֵא", no presente — como um chamado à leitura ampliada: o próprio alimento de segundo grau, ao tocar em outro alimento, ainda "contaminará" esse terceiro, criando uma cadeia que a leitura simples do versículo não indicaria.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam fixa o alcance prático da lei — segundo grau contamina terceiro apenas em teruma, não em alimento comum — e explica a expressão recorrente "naquele dia"; Bartenura confirma e localiza cada termo.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 5:2
הָרֵי לָמַד עַל כִּכָּר שֵׁנִי שֶׁהוּא מְטַמֵּא אֶת הַשְּׁלִישִׁי, וּלְדַעַת רַבִּי עֲקִיבָא שֵׁנִי עוֹשֶׂה שְׁלִישִׁי בְּחֻלִּין, וְאֵינָהּ הֲלָכָה, אֶלָּא אֵין שֵׁנִי עוֹשֶׂה שְׁלִישִׁי בְּחֻלִּין אֶלָּא בִּתְרוּמָה. וּבְכָל מָקוֹם שֶׁאוֹמֵר בַּמִּשְׁנָה בּוֹ בַיּוֹם, רְצוֹנוֹ לוֹמַר בּוֹ בַיּוֹם שֶׁהוֹשִׁיבוּ אֶת רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה בַּיְשִׁיבָה

Rambam fixa a halachá final: embora Rabi Akiva, em sua leitura mais ampla, sustentasse que mesmo em alimento comum o segundo grau contamina o terceiro, essa não é a lei aceita — o efeito de "segundo contaminando terceiro" vale apenas para a teruma, oferenda sagrada de padrão de pureza mais rigoroso, e não para o alimento comum do dia a dia. Rambam também esclarece, de uma vez por todas, a expressão recorrente "naquele dia": trata-se sempre do dia em que Rabi Elazar ben Azaria foi nomeado presidente da academia, e as derashot reunidas aqui foram todas proferidas nessa mesma sessão histórica.

Bartenura · Sotá 5:2
בּוֹ בַּיּוֹם דָּרַשׁ. כָּל הֵיכִי דִּתְנִינַן בּוֹ בַיּוֹם, בַּיּוֹם שֶׁהוֹשִׁיבוּ אֶת רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה לִנְשִׂיאוּת, שֶׁנִּתְרַבּוּ הַתַּלְמִידִים, שֶׁנָּתְנוּ רְשׁוּת לַכֹּל לִכָּנֵס. וּמִשּׁוּם דְּהַךְ דְּרָשָׁה דְנִטְמְאָה וְנִטְמָאָה נַמִּי בּוֹ בַיּוֹם נִדְרְשָׁה, נַקְטִינְהוּ לְכָל הָנָךְ הָכָא

Bartenura explica por que essas quatro derashot, sem qualquer relação temática com a sotá, aparecem justamente aqui: como a própria derasha da mishná anterior — "contaminou-se, contaminou-se" — também foi proferida naquele dia célebre em Yavneh, os editores da mishná aproveitaram para reunir, na sequência, todas as demais derashot marcantes ditas na mesma ocasião, ainda que pertencentes a outros assuntos por completo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 27b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 27b, sobre a mishná e a Guemará
בּוֹ בַיּוֹם דָּרַשׁ - בְּמַסֶּכֶת בְּרָכוֹת אָמְרִינַן דְּכָל הֵיכָא דְּתָנֵי בּוֹ בַיּוֹם הוּא יוֹם שֶׁהוֹשִׁיבוּ אֶת רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה לַנְּשִׂיאוּת שֶׁנִּתְרַבּוּ תַלְמִידִים שֶׁנָּתְנוּ רְשׁוּת לִיכָּנֵס לְכָל: כְּלִי חֶרֶשׂ הוּא רִאשׁוֹן שֶׁנִּטְמָא מִן הַשֶּׁרֶץ, וְהָאוֹכֵל שֶׁבְּתוֹכוֹ שֵׁנִי שֶׁנִּטְמָא בַּכְּלִי: אֵינוֹ אוֹמֵר טָמֵא - כֹּל אֲשֶׁר בְּתוֹכוֹ טָמֵא, אֶלָּא יִטְמָא, לִמְדֹּרשׁ נַמִּי יִטְמָא שֶׁמְּטַמֵּא אֲחֵרִים: לִמֵּד עַל כִּכָּר שֵׁנִי - לְהָכִי נָקַט כִּכָּר, לְפִי שֶׁהוּא מָצוּי בַּתַּנּוּר שֶׁהוּא כְּלִי חֶרֶשׂ: שֶׁמְּטַמֵּא אֶת הַשְּׁלִישִׁי - בִּתְרוּמָה, וַאֲפִלּוּ בְּחֻלִּין דִּקְרָא סְתָמָא כְתִיב: עָתִיד דּוֹר אַחֵר - מִן הָעֲתִידִין לָבֹא שֶׁיְּטַהֵר אֶת הַשְּׁלִישִׁי אַף בִּתְרוּמָה, שֶׁאֵין לוֹ מִקְרָא מִן הַתּוֹרָה, וַאֲנַן הוּא דִמְטַמְּאִינַן לֵיהּ בִּתְרוּמָה מִקַּל וָחֹמֶר: וְרַבִּי עֲקִיבָא תַּלְמִידְךָ מֵבִיא מִקְרָא שֶׁהוּא טָמֵא - אַף בְּחֻלִּין

Rashi confirma que "naquele dia" designa sempre o dia da nomeação de Rabi Elazar ben Azaria, e explica a cadeia de impureza passo a passo: o vaso de barro é primeiro grau por ter recebido o réptil, e o pão em seu interior torna-se segundo grau por causa do vaso. A leitura de "יִטְמָא" em vez de "טָמֵא" ensina que esse mesmo pão, já contaminado, é capaz de contaminar um terceiro alimento. Rashi observa que, até então, essa impureza de terceiro grau só tinha base para a teruma por um cálculo lógico — um kal vachomer que os próprios sábios haviam formulado, sem apoio textual direto —, mas Rabi Akiva localizou um versículo explícito que a sustenta mesmo para alimento comum, embora a halachá final restrinja seu efeito à teruma.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 5:2
הַשֶּׁרֶץ מֵאֲבוֹת הַטֻּמְאוֹת, וּכְשֶׁנָּפַל לַאֲוִיר כְּלִי חֶרֶס וַאֲפִלּוּ שֶׁלֹּא נָגַע בְּגַבּוֹ נִטְמָא זֶה הַכְּלִי... וְיַחְזֹר זֶה הַכְּלִי רִאשׁוֹן לְטֻמְאָה וְהָאֹכֶל שֶׁבּוֹ שֵׁנִי לְטֻמְאָה מִפְּנֵי שֶׁנִּטְמָא בַּכְּלִי שֶׁהוּא רִאשׁוֹן... הֲרֵי לָמַד עַל כִּכָּר הַשֵּׁנִי שֶׁהוּא מְטַמֵּא אֶת הַשְּׁלִישִׁי, וּלְדַעַת רַבִּי עֲקִיבָא שֵׁנִי עוֹשֶׂה שְׁלִישִׁי בְּחֻלִּין וְאֵינָהּ הֲלָכָה

Rambam detalha o mecanismo técnico: o réptil morto é fonte primária de impureza (av hatumá), e basta cair no espaço interno do vaso de barro — mesmo sem tocar suas paredes — para contaminá-lo, uma regra específica dos vasos de barro que os distingue de outros materiais. O vaso contaminado é então primeiro grau, e o alimento em seu interior, segundo grau. Rambam reafirma que a extensão de Rabi Akiva ao alimento comum não é a halachá aceita, limitando o princípio à teruma.

Bartenura · רע״ב
Sotá 5:2
כְּלִי חֶרֶס. הוּא רִאשׁוֹן, שֶׁנִּטְמָא מִן הַשֶּׁרֶץ שֶׁהוּא אָב. וְהָאֹכֶל שֶׁבְּתוֹכוֹ שֵׁנִי, שֶׁטִּמְּאוֹ הַכְּלִי: אֵינוֹ אוֹמֵר טָמֵא. כָּל אֲשֶׁר בְּתוֹכוֹ טָמֵא. אֶלָּא יִטְמָא, לְמִדְרָשׁ בֵּיהּ נַמִּי יְטַמֵּא, שֶׁמְּטַמֵּא אֶת אֲחֵרִים: לִמֵּד עַל כִּכָּר שֵׁנִי. לְהָכִי נָקַט כִּכָּר, לְפִי שֶׁהוּא מָצוּי בַּתַּנּוּר: שֶׁמְּטַמֵּא אֶת הַשְּׁלִישִׁי. וַאֲפִלּוּ בְּחֻלִּין, דִּקְרָא סְתָמָא כְּתִיב: דּוֹר אַחֵר. מִן הָעֲתִידִים לָבֹא, שֶׁיְּטַהֵר אֶת הַשְּׁלִישִׁי וְאַף בִּתְרוּמָה, שֶׁאֵין לוֹ מִקְרָא מִן הַתּוֹרָה: וַהֲרֵי עֲקִיבָא תַּלְמִידְךָ מֵבִיא לוֹ רְאָיָה מִן הַמִּקְרָא שֶׁהוּא טָמֵא. אַף בְּחֻלִּין, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא, דְּאֵין שֵׁנִי עוֹשֶׂה שְׁלִישִׁי בְּחֻלִּין, אֶלָּא בִּתְרוּמָה

Bartenura resume a cadeia técnica de impureza — vaso como primeiro grau, alimento interno como segundo — e confirma que a palavra "יִטְמָא" é lida como capacidade de contaminar terceiros. Bartenura destaca a emoção do episódio: Rabán Yochanan ben Zakai já esperava que uma "geração futura" viesse purificar o pão de terceiro grau por falta de base bíblica, mas foi o próprio neto espiritual de seu ensino, Rabi Akiva, quem trouxe o texto que confirma a impureza — encerrando explicitamente que a halachá segue a posição restrita: segundo contamina terceiro apenas em teruma, não em alimento comum.