Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Chet · Mishná 1 de 7

Abrindo o Perek Chet: o sacerdote ungido para a guerra

מְשׁוּחַ מִלְחָמָה כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Chet, a mishná passa das assembleias solenes do Templo para o cenário da guerra — descrevendo o discurso do sacerdote ungido para a guerra ao exército de Israel antes da batalha.

O ungido para a guerra, no momento em que fala ao povo, falava na língua sagrada, como está dito: "E será, quando vos aproximardes da guerra, que o sacerdote se chegará" — este é o sacerdote ungido para a guerra — "e falará ao povo", na língua sagrada. E lhes dirá: "Ouve, Israel, vós vos aproximais hoje da guerra contra vossos inimigos" — contra vossos inimigos, e não contra vossos irmãos: não Judá contra Shimon, nem Shimon contra Binyamin, que se caísseis em suas mãos, teriam misericórdia de vós, como está dito: "E levantaram-se os homens designados por nome, e tomaram os cativos, e a todos os que dentre eles estavam nus vestiram do despojo, e os vestiram, e os calçaram, e lhes deram de comer e de beber, e os ungiram, e a todos os que enfraqueceram conduziram sobre jumentos, e os trouxeram a Jericó, cidade das palmeiras, junto a seus irmãos; e voltaram a Samaria." Contra vossos inimigos vós ides, que se caísseis em suas mãos, não teriam misericórdia de vós. "Não se amoleça vosso coração, não temais, nem vos apresseis" etc. "Não se amoleça vosso coração" — por causa do relincho dos cavalos e do polimento das espadas. "Não temais" — por causa do bater dos escudos e do tumulto dos soldados. "Não vos apresseis" — pelo som das trombetas. "Não vos assusteis" — por causa do som dos gritos. "Pois o Eterno, vosso Deus, é quem vai convosco": eles vêm com a vitória de carne e sangue, e vós vindes com a vitória do Onipresente. Os filisteus vieram com a vitória de Golias — qual foi seu fim? No fim caiu pela espada, e caíram com ele. Os filhos de Amon vieram com a vitória de Shovach — qual foi seu fim? No fim caiu pela espada, e caíram com ele. Mas vós não sois assim: "Pois o Eterno, vosso Deus, é quem vai convosco, para lutar por vós" etc. — este é o acampamento da Arca.Abrindo o Perek Chet, a mishná desloca-se do cenário do Templo para o campo de batalha, mas mantém o mesmo eixo teológico: assim como no Hakhel o rei lia a Torá diante de todo o povo reunido, aqui o sacerdote ungido para a guerra dirige-se ao exército na língua sagrada, marcando o combate como um ato religioso, não meramente militar. O discurso ensina primeiro um princípio ético fundamental — a guerra de Israel nunca é contra "irmãos" no sentido amplo, e mesmo entre tribos rivais a Torá exige compaixão, ilustrada pelo episódio de Chizquiyahu e a devolução generosa dos cativos de Judá. Em seguida, o sacerdote desmonta, um a um, os quatro instrumentos psicológicos do medo — relincho de cavalos, bater de escudos, som de trombetas, gritos de guerra — contrapondo a cada um a mesma verdade: os inimigos confiam em "carne e sangue", campeões humanos como Golias ou Shovach, cujo destino inevitável é a queda; Israel, ao contrário, confia na presença do próprio Eterno, simbolizada pela Arca da Aliança que acompanha o acampamento à guerra.

מְשׁוּחַ מִלְחָמָה, בְּשָׁעָה שֶׁמְּדַבֵּר אֶל הָעָם, בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ הָיָה מְדַבֵּר, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים כ) וְהָיָה כְּקָרָבְכֶם אֶל הַמִּלְחָמָה וְנִגַּשׁ הַכֹּהֵן, זֶה כֹּהֵן מְשׁוּחַ מִלְחָמָה, וְדִבֶּר אֶל הָעָם, בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. וְאָמַר אֲלֵיהֶם (שם) שְׁמַע יִשְׂרָאֵל אַתֶּם קְרֵבִים הַיּוֹם לַמִּלְחָמָה עַל אֹיְבֵיכֶם, וְלֹא עַל אֲחֵיכֶם, לֹא יְהוּדָה עַל שִׁמְעוֹן, וְלֹא שִׁמְעוֹן עַל בִּנְיָמִין, שֶׁאִם תִּפְּלוּ בְיָדָם יְרַחֲמוּ עֲלֵיכֶם, כְּמָה שֶׁנֶּאֱמַר (דה"ב כח) וַיָּקֻמוּ הָאֲנָשִׁים אֲשֶׁר נִקְּבוּ בְשֵׁמוֹת וַיַּחֲזִיקוּ בַשִּׁבְיָה וְכָל מַעֲרֻמֵּיהֶם הִלְבִּישׁוּ מִן הַשָּׁלָל וַיַּלְבִּשֻׁם וַיַּנְעִלּוּם וַיַּאֲכִלוּם וַיַּשְׁקוּם וַיְסֻכוּם וַיְנַהֲלוּם בַּחֲמֹרִים לְכָל כּוֹשֵׁל וַיְבִיאוּם יְרֵחוֹ עִיר הַתְּמָרִים אֵצֶל אֲחֵיהֶם וַיָּשׁוּבוּ שֹׁמְרוֹן. עַל אוֹיְבֵיכֶם אַתֶּם הוֹלְכִים, שֶׁאִם תִּפְּלוּ בְיָדָם אֵין מְרַחֲמִין עֲלֵיכֶם. אַל יֵרַךְ לְבַבְכֶם אַל תִּירְאוּ וְאַל תַּחְפְּזוּ וְגוֹ' (דברים כ). אַל יֵרַךְ לְבַבְכֶם, מִפְּנֵי צָהֳלַת סוּסִים וְצִחְצוּחַ חֲרָבוֹת. אַל תִּירְאוּ, מִפְּנֵי הֲגָפַת תְּרִיסִין וְשִׁפְעַת הַקַּלְגַּסִּין. אַל תַּחְפְּזוּ, מִקּוֹל קְרָנוֹת. אַל תַּעַרְצוּ, מִפְּנֵי קוֹל צְוָחוֹת. כִּי ה' אֱלֹהֵיכֶם הַהֹלֵךְ עִמָּכֶם, הֵן בָּאִין בְּנִצְחוֹנוֹ שֶׁל בָּשָׂר וָדָם, וְאַתֶּם בָּאִים בְּנִצְחוֹנוֹ שֶׁל מָקוֹם. פְּלִשְׁתִּים בָּאוּ בְנִצְחוֹנוֹ שֶׁל גָּלְיָת, מֶה הָיָה סוֹפוֹ, לְסוֹף נָפַל בַּחֶרֶב וְנָפְלוּ עִמּוֹ. בְּנֵי עַמּוֹן בָּאוּ בְנִצְחוֹנוֹ שֶׁל שׁוֹבַךְ, מֶה הָיָה סוֹפוֹ, לְסוֹף נָפַל בַּחֶרֶב וְנָפְלוּ עִמּוֹ. וְאַתֶּם אִי אַתֶּם כֵּן. כִּי ה' אֱלֹהֵיכֶם הַהֹלֵךְ עִמָּכֶם לְהִלָּחֵם לָכֶם וְגוֹ', זֶה מַחֲנֵה הָאָרוֹן:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O discurso do sacerdote de guerra baseia-se em Devarim 20; o exemplo de misericórdia entre irmãos vem de II Divrei Hayamim 28.

Devarim (Deuteronômio) 20:2-4
וְהָיָה כְּקָרָבְכֶם אֶל הַמִּלְחָמָה וְנִגַּשׁ הַכֹּהֵן וְדִבֶּר אֶל הָעָם... כִּי ה' אֱלֹהֵיכֶם הַהֹלֵךְ עִמָּכֶם לְהִלָּחֵם לָכֶם עִם אֹיְבֵיכֶם לְהוֹשִׁיעַ אֶתְכֶם׃
"E será, quando vos aproximardes da guerra, que o sacerdote se chegará e falará ao povo... pois o Eterno, vosso Deus, é quem vai convosco, para lutar por vós contra vossos inimigos, para vos salvar."
II Divrei Hayamim (Crônicas) 28:15
וַיָּקֻמוּ הָאֲנָשִׁים אֲשֶׁר נִקְּבוּ בְשֵׁמוֹת וַיַּחֲזִיקוּ בַשִּׁבְיָה... וַיְבִיאוּם יְרֵחוֹ עִיר הַתְּמָרִים אֵצֶל אֲחֵיהֶם וַיָּשׁוּבוּ שֹׁמְרוֹן׃
"E levantaram-se os homens designados por nome, e tomaram os cativos... e os trouxeram a Jericó, cidade das palmeiras, junto a seus irmãos; e voltaram a Samaria."

O episódio citado de II Divrei Hayamim ocorreu durante a guerra entre o Reino de Judá (sob o rei Achaz) e o Reino de Israel: o profeta Oded repreendeu os vencedores israelitas por escravizarem seus próprios irmãos de Judá, e estes, comovidos, libertaram os cativos, vestindo, calçando e alimentando-os antes de devolvê-los. A mishná usa este precedente bíblico como fundamento para o princípio de que a guerra entre as tribos de Israel jamais deve ser conduzida com a crueldade reservada aos inimigos externos — mesmo em conflito interno, o vínculo de irmandade permanece.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a derivação da língua sagrada e os termos técnicos do discurso de guerra; Bartenura detalha cada expressão.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 8:1
אָמַר בִּמְשׁוּחַ מִלְחָמָה וְדִבֶּר אֶל הָעָם וְאָמַר מֹשֶׁה יְדַבֵּר וְהָאֱלֹהִים יַעֲנֶנּוּ בְקוֹל מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. וְצִחְצוּחַ חֲרָבוֹת הוּא מְרִיטַת כְּלֵי הַמִּלְחָמָה כְּגוֹן הַסַּיִף וְהָרְמָחִים. וְהַגָּפַת הַתְּרִיסִין הַכָּאַת הַמָּגִנִּים זֶה עִם זֶה. וְשִׁפְעַת הַקַּלְגַּסִּים הַעֲמָדַת הַשַּׁרְבִיטִין שֶׁרָאשֵׁיהֶן עֲקוּמִין וְהֵם מַקְלוֹת מַכִּין בָּהֶם הָאֲבָנִים וְעַל יְדֵי כָךְ קוֹפְצִין וּמַכִּין בַּקַּרְסֹל הָאֲנָשִׁים וְהַסּוּסִים וּמַפִּילִין גְּבוּרָתָן וְכֹחָן

Rambam estabelece a derivação exegética da língua sagrada por analogia verbal: assim como em Shemot 19 "Moshé falava e Deus lhe respondia com voz", onde a fala é em hebraico, também aqui "e falará ao povo" indica que o sacerdote deve dirigir-se ao exército em hebraico. Ele explica ainda os termos técnicos do medo psicológico da batalha: o "polimento das espadas" refere-se ao afiar visível das armas — espadas e lanças; o "bater dos escudos" é o entrechocar intencional dos escudos uns contra os outros para produzir ruído intimidador; e o "tumulto dos soldados" descreve bastões de ponta curva usados para golpear pedras, que saltam e atingem os tornozelos de homens e cavalos, derrubando sua força e coragem — um efeito psicológico de terror calculado antes mesmo do combate direto.

Bartenura · Sotá 8:1
מְשׁוּחַ מִלְחָמָה. וְדִבֶּר אֶל הָעָם בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, נֶאֱמַר כָּאן וְדִבֵּר אֶל הָעָם, וְנֶאֱמַר לְהַלָּן מֹשֶׁה יְדַבֵּר, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ: לְכָל כּוֹשֵׁל. כָּל הַכּוֹשְׁלִים שֶׁאֵינָן יְכוֹלִין לָלֶכֶת בְּרַגְלֵיהֶן: הֲגָפַת תְּרִיסִין. הַכָּאַת הַמָּגִנִּים זוֹ בְּזוֹ לְהַשְׁמִיעַ קוֹל וּלְאַיֵּם: הַקַּלְגַּסִּין. מַקְלוֹת שֶׁרָאשֵׁיהֶן עֲקוּמִים וּמַכִּים בָּהֶם עַל גַּבֵּי אֲבָנִים וְהֵם מְנַתְּזִים עַל הָאוֹיְבִים: שׁוֹבַךְ. שַׂר צָבָא הֲדַדְעֶזֶר בִּשְׁמוּאֵל

Bartenura confirma a mesma derivação de Rambam para a língua sagrada. Explica "a todos os que enfraqueceram" como todos os cativos incapazes de caminhar por si mesmos; "o bater dos escudos" como o entrechocar deliberado dos escudos para produzir som intimidador; os "kalgasim" como bastões de ponta curva golpeados contra pedras, cujos fragmentos saltam sobre os inimigos, causando pânico; e identifica Shovach, na batalha citada, como o comandante do exército de Hadadezer mencionado no Livro de Shmuel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abrindo o Perek Chet, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 42a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 42a, sobre a mishná
מתני' משוח מלחמה - כהן שנתרבה לכך שנאמר ונגש הכהן וגו' ובגמרא פריך מאי קאמר: לכל כושל - כל הכושלים שבהם שאינן יכולין לילך ברגליהם: צהלת סוסים - צנף סוסים קרוי צהלה בלשון המקרא: קלגסין - חיילות: הגפת תריסין - מגיפין וסוגרין ומדבקין התריסין זה סמוך לזה כדי שינקשו זה על זה והקול נשמע כקול המון לאיים על שכנגדם: שובך - שר צבא הדרעזר

Rashi identifica o sacerdote ungido para a guerra como um kohen especialmente consagrado para esta função, conforme o versículo "e se chegará o sacerdote" — e observa que a Guemará, logo em seguida, questiona a própria lógica da derivação da língua sagrada a partir desse versículo. Sobre "a todos os que enfraqueceram", explica que são todos os cativos incapazes de caminhar por suas próprias pernas. Sobre "relincho de cavalos", esclarece que o relinchar do cavalo é chamado tzahalá na linguagem bíblica. Os kalgasim são simplesmente soldados; e "o bater dos escudos" descreve a ação deliberada de fechar e colar os escudos uns contra os outros, de modo que se choquem, produzindo um som que se ouve como o rugido de uma multidão, destinado a intimidar o exército adversário. Por fim, identifica Shovach como o comandante do exército de Hadadezer.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 8:1
אָמַר בִּמְשׁוּחַ מִלְחָמָה וְדִבֶּר אֶל הָעָם וְאָמַר מֹשֶׁה יְדַבֵּר וְהָאֱלֹהִים יַעֲנֶנּוּ בְקוֹל, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Rambam reafirma a derivação por analogia verbal entre "e falará ao povo" (aqui) e "Moshé falava" (em Shemot), concluindo que ambos referem-se à fala em língua sagrada, e detalha tecnicamente os instrumentos de intimidação psicológica descritos na mishná — o afiar visível de espadas e lanças, o choque deliberado de escudos, e os bastões curvos golpeados contra pedras para espalhar fragmentos sobre homens e cavalos, quebrando-lhes a coragem antes mesmo do confronto físico direto.

Bartenura · רע״ב
Sotá 8:1
מְשׁוּחַ מִלְחָמָה. וְדִבֶּר אֶל הָעָם בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. נֶאֱמַר כָּאן וְדִבֵּר אֶל הָעָם, וְנֶאֱמַר לְהַלָּן מֹשֶׁה יְדַבֵּר, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Abrindo o Perek Chet, Bartenura resume os termos técnicos do discurso de guerra com a mesma clareza pedagógica que marcou o capítulo anterior: a derivação verbal que fixa o hebraico como a língua obrigatória do discurso do sacerdote, o significado de cada expressão de intimidação psicológica, e a identificação histórica de Shovach como o general vencido por Davi — preparando o terreno para as isenções de serviço militar que ocupam o restante do capítulo.