Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Tet · Mishná 15 de 15

A baraita de Pinchas ben Yair: a escada das virtudes que encerra o tratado

זְרִיזוּת מְבִיאָה לִידֵי נְקִיּוּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Tet — e o tratado Sotá inteiro —, a mishná abre com uma longa lista de sábios cuja morte marcou o desaparecimento de uma virtude ou instituição específica, formando um retrato coletivo do declínio espiritual de gerações sucessivas.

Desde que morreu Rabi Meir, cessaram os narradores de fábulas. Desde que morreu Ben Azai, cessaram os diligentes. Desde que morreu Ben Zomá, cessaram os pregadores. Desde que morreu Rabi Yehoshua, cessou o bem do mundo. Desde que morreu Rabán Shimon ben Gamliel, vieram os gafanhotos e se multiplicaram as aflições. Desde que morreu Rabi Elazar ben Azaryá, cessou a riqueza entre os sábios. Desde que morreu Rabi Akiva, cessou a glória da Torá. Desde que morreu Rabi Chanina ben Dossa, cessaram os homens de ação. Desde que morreu Rabi Yosei Katnutá, cessaram os piedosos — e por que se chamava Katnutá? Porque era o menor dos piedosos. Desde que morreu Rabán Yochanan ben Zakai, cessou o esplendor da sabedoria. Desde que morreu Rabán Gamliel o Velho, cessou a glória da Torá, e morreram a pureza e o ascetismo. Desde que morreu Rabi Yishmael ben Pabi, cessou o esplendor do sacerdócio. Desde que morreu Rabi, cessaram a humildade e o temor do pecado.A mishná final do tratado abre com catorze sentenças, cada uma associando a morte de um sábio específico ao desaparecimento de uma qualidade que, segundo a tradição, ele encarnava de modo único: Rabi Meir levava consigo a arte da fábula; Ben Azai, a diligência incansável no estudo (permaneceu solteiro a vida inteira, dizendo “minha alma anseia pela Torá”); Ben Zomá, a homilética profunda das Escrituras; Rabi Yehoshua, o próprio “bem” do mundo; a morte de Rabán Shimon ben Gamliel é associada a pragas literais de gafanhotos e ao aumento geral de sofrimentos; Rabi Elazar ben Azaryá — ele mesmo homem de grande riqueza — levou consigo a prosperidade material dos sábios; Rabi Akiva, cuja erudição e capacidade de derivar leis de cada detalhe do texto era incomparável, levou a “glória da Torá”; Rabi Chanina ben Dossa, famoso por milagres cotidianos, levou os “homens de ação”; Rabi Yosei Katnutá — apelidado assim por ser, segundo a mishná, “o menor” de uma geração de homens piedosos, o último e mais modesto elo de uma cadeia — encerra com sua morte a era dos chassidim; Rabán Yochanan ben Zakai levou o brilho intelectual da sabedoria; Rabán Gamliel o Velho, cuja morte já havia sido notada como fim de uma era de estudo “de pé”, leva consigo também a pureza ritual e o ascetismo voluntário; Rabi Yishmael ben Pabi, sumo sacerdote, leva o esplendor do próprio sacerdócio; e, por fim, Rabi — Yehudá HaNassi, o redator da Mishná —, cuja morte os próprios discípulos, segundo Bartenura, acrescentaram a este texto, leva consigo a humildade e o temor do pecado.

מִשֶּׁמֵּת רַבִּי מֵאִיר, בָּטְלוּ מוֹשְׁלֵי מְשָׁלִים. מִשֶּׁמֵּת בֶּן עַזַּאי, בָּטְלוּ הַשַּׁקְדָּנִים. מִשֶּׁמֵּת בֶּן זוֹמָא, בָּטְלוּ הַדַּרְשָׁנִים. מִשֶּׁמֵּת רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, פָּסְקָה טוֹבָה מִן הָעוֹלָם. מִשֶּׁמֵּת רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל, בָּא גוֹבַי וְרַבּוּ צָרוֹת. מִשֶּׁמֵּת רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, פָּסַק הָעשֶׁר מִן הַחֲכָמִים. מִשֶּׁמֵּת רַבִּי עֲקִיבָא, בָּטַל כְּבוֹד הַתּוֹרָה. מִשֶּׁמֵּת רַבִּי חֲנִינָא בֶּן דּוֹסָא, בָּטְלוּ אַנְשֵׁי מַעֲשֶׂה. מִשֶּׁמֵּת רַבִּי יוֹסֵי קַטְנוּתָא, פָּסְקוּ חֲסִידִים. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ קַטְנוּתָא, שֶׁהָיָה קַטְנוּתָן שֶׁל חֲסִידִים. מִשֶּׁמֵּת רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, בָּטַל זִיו הַחָכְמָה. מִשֶּׁמֵּת רַבָּן גַּמְלִיאֵל הַזָּקֵן, בָּטַל כְּבוֹד הַתּוֹרָה וּמֵתָה טָהֳרָה וּפְרִישׁוּת. מִשֶּׁמֵּת רַבִּי יִשְׁמָעֵאל בֶּן פָּאבִי, בָּטַל זִיו הַכְּהֻנָּה. מִשֶּׁמֵּת רַבִּי, בָּטְלָה עֲנָוָה וְיִרְאַת חֵטְא
Rabi Pinchas ben Yair descreve, em hebraico, o colapso moral e social que se seguiu à destruição do Templo — um mundo em que a força bruta e a lábia substituem o mérito, e ninguém mais busca conhecimento ou justiça.

Rabi Pinchas ben Yair diz: desde que o Templo Sagrado foi destruído, envergonharam-se os companheiros e os homens livres, e cobriram sua cabeça; e definharam os homens de ação, e prevaleceram os homens de braço forte e os homens de língua; e não há quem busque, e não há quem procure, e não há quem pergunte. Em quem havemos de nos apoiar? Em nosso Pai que está nos céus.Com a voz de Rabi Pinchas ben Yair — que voltará a falar no fecho solene desta mishná —, o tom muda de uma lista seca de perdas para um lamento articulado sobre o mundo pós-destruição. Os “chaverim” (companheiros, um termo técnico para os que observam escrupulosamente as leis de pureza e dízimos) e os “homens livres” (a aristocracia de linhagem e caráter) são humilhados publicamente e cobrem a cabeça em sinal de vergonha e luto, enquanto os “homens de ação” — aqueles cuja integridade se comprovava em atos concretos — definham à míngua. Em seu lugar, ascendem os “senhores do braço” (os violentos, que impõem pela força) e os “senhores da língua” (os manipuladores, que impõem pela retórica) — dois tipos que substituem o mérito genuíno pela intimidação física ou verbal. E a mishná descreve uma sociedade em que ninguém mais “busca” conhecimento, “procura” a verdade nem sequer “pergunta” — um colapso não apenas moral, mas epistemológico, da própria vontade de saber. Diante desse vazio, resta uma única certeza, repetida como refrão: o apoio só pode vir do Pai celestial.

רַבִּי פִנְחָס בֶּן יָאִיר אוֹמֵר, מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, בּוֹשׁוּ חֲבֵרִים וּבְנֵי חוֹרִין, וְחָפוּ רֹאשָׁם, וְנִדַּלְדְּלוּ אַנְשֵׁי מַעֲשֶׂה, וְגָבְרוּ בַעֲלֵי זְרוֹעַ וּבַעֲלֵי לָשׁוֹן, וְאֵין דּוֹרֵשׁ וְאֵין מְבַקֵּשׁ, וְאֵין שׁוֹאֵל, עַל מִי לָנוּ לְהִשָּׁעֵן, עַל אָבִינוּ שֶׁבַּשָּׁמָיִם
Rabi Eliezer, o Grande, retoma o mesmo lamento em aramaico, descrevendo uma cadeia decrescente de dignidade — dos sábios aos escribas, dos escribas aos sacristães, dos sacristães ao povo comum — até que tudo se dissolve.

Rabi Eliezer, o Grande, diz: desde o dia em que o Templo Sagrado foi destruído, começaram os sábios a se tornar como escribas, e os escribas como sacristães, e os sacristães como o povo da terra, e o povo da terra foi decaindo e se enfraquecendo; e não há quem procure. Em quem há de se apoiar? Em nosso Pai que está nos céus.Onde Rabi Pinchas ben Yair descreveu a inversão social em termos de tipos humanos (violentos e faladores substituindo os íntegros), Rabi Eliezer, o Grande, descreve a mesma decadência como uma cadeia contínua de rebaixamento de estatuto: os sábios (chachimaya) passam a se comportar como meros escribas (safraya, professores de crianças, hierarquicamente inferiores aos sábios); os escribas, por sua vez, caem ao nível dos sacristães (chazana, os funcionários que cuidam da sinagoga); e os sacristães se confundem com o povo comum (ama de-ar'a) — até que o próprio povo comum “vai e se enfraquece”, numa espiral descendente sem piso. A escolha do aramaico, em contraste com o hebraico da declaração anterior, não é acidental: reforça o caráter coloquial e quase folclórico do lamento, como um provérbio popular sobre o nivelamento por baixo de toda hierarquia de conhecimento. E, como antes, a única resposta possível ao colapso total é o mesmo refrão de confiança: apoiar-se apenas no Pai celestial.

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר הַגָּדוֹל אוֹמֵר, מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, שָׁרוּ חַכִּימַיָּא לְמֶהֱוֵי כְסָפְרַיָּא, וְסָפְרַיָּא כְּחַזָּנָא, וְחַזָּנָא כְּעַמָּא דְאַרְעָא, וְעַמָּא דְאַרְעָא אָזְלָא וְדַלְדְּלָה, וְאֵין מְבַקֵּשׁ, עַל מִי יֵשׁ לְהִשָּׁעֵן, עַל אָבִינוּ שֶׁבַּשָּׁמָיִם
A mishná passa então a uma visão escatológica: uma descrição minuciosa e perturbadora do mundo “nos calcanhares do messias”, momentos antes da redenção final, quando toda ordem social e familiar se dissolve.

Nos calcanhares do messias, a insolência se multiplicará, e a carestia se elevará; a vinha dará seu fruto, mas o vinho será caro; e o governo se converterá em heresia, e não haverá repreensão; a casa de reunião se tornará lugar de prostituição; e a Galileia será destruída, e o Golã ficará desolado; e os homens da fronteira andarão de cidade em cidade, sem que ninguém se compadeça deles; e a sabedoria dos escribas apodrecerá, e os que temem o pecado serão desprezados, e a verdade estará ausente. Os jovens envergonharão o rosto dos idosos, os idosos se levantarão diante dos pequenos. “O filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os de sua própria casa” (Michá 7). O rosto da geração será como o rosto do cão; o filho não se envergonhará diante de seu pai. E em quem havemos de nos apoiar? Em nosso Pai que está nos céus.Este é o trecho mais extenso e mais citado de toda a mishná: uma profecia detalhada sobre os sinais que precederão a vinda do messias — o período chamado “ikevot mashicha”, os “calcanhares”, isto é, os últimos e mais baixos passos antes da redenção. A insolência (chutzpá) se generaliza, os preços disparam mesmo com fartura material (a vinha frutifica, mas o vinho continua caro — sinal de que a abundância não se traduz em bem-estar real), o próprio poder político se corrompe em heresia, e desaparece a repreensão moral, pois ninguém mais tem autoridade — ou coragem — para corrigir o próximo. Lugares antes dedicados ao estudo tornam-se lugares de devassidão; regiões inteiras (a Galileia, o Golã) são devastadas; refugiados perambulam sem receber compaixão; a erudição perde seu valor; os temerosos do pecado são ridicularizados; e a verdade — não apenas escondida, mas ativamente “ausente” — desaparece do discurso público. A ruptura hierárquica se estende à própria família: jovens humilham idosos, filhos se voltam contra pais, filhas contra mães, noras contra sogras, citando quase literalmente o profeta Michá sobre uma era em que os piores inimigos de cada pessoa moram sob seu próprio teto. A imagem final — “o rosto da geração como o rosto do cão” — descreve uma humanidade que perdeu toda capacidade de vergonha, o freio moral mais básico da vida social. E, mesmo nesse retrato mais sombrio de toda a mishná, o refrão permanece idêntico: o único apoio possível é o Pai celestial.

בְּעִקְּבוֹת מְשִׁיחָא חֻצְפָּא יִסְגֵּא, וְיֹקֶר יַאֲמִיר, הַגֶּפֶן תִּתֵּן פִּרְיָהּ וְהַיַּיִן בְּיֹקֶר, וְהַמַּלְכוּת תֵּהָפֵךְ לְמִינוּת, וְאֵין תּוֹכֵחָה, בֵּית וַעַד יִהְיֶה לִזְנוּת, וְהַגָּלִיל יֶחֱרַב, וְהַגַּבְלָן יִשּׁוֹם, וְאַנְשֵׁי הַגְּבוּל יְסוֹבְבוּ מֵעִיר לְעִיר וְלֹא יְחוֹנָּנוּ, וְחָכְמַת סוֹפְרִים תִּסְרַח, וְיִרְאֵי חֵטְא יִמָּאֲסוּ, וְהָאֱמֶת תְּהֵא נֶעְדֶּרֶת. נְעָרִים פְּנֵי זְקֵנִים יַלְבִּינוּ, זְקֵנִים יַעַמְדוּ מִפְּנֵי קְטַנִּים. בֵּן מְנַבֵּל אָב, בַּת קָמָה בְאִמָּהּ, כַּלָּה בַּחֲמֹתָהּ, אֹיְבֵי אִישׁ אַנְשֵׁי בֵיתוֹ (מיכה ז). פְּנֵי הַדּוֹר כִּפְנֵי הַכֶּלֶב, הַבֵּן אֵינוֹ מִתְבַּיֵּשׁ מֵאָבִיו. וְעַל מִי יֵשׁ לָנוּ לְהִשָּׁעֵן, עַל אָבִינוּ שֶׁבַּשָּׁמָיִם
A mishná — e, com ela, todo o tratado Sotá — encerra-se com a mais célebre escada ética de toda a literatura rabínica: a baraita de Rabi Pinchas ben Yair, que traça, degrau por degrau, o caminho da diligência cotidiana até a ressurreição dos mortos.

Rabi Pinchas ben Yair diz: a diligência leva à limpeza; e a limpeza leva à pureza; e a pureza leva ao ascetismo; e o ascetismo leva à santidade; e a santidade leva à humildade; e a humildade leva ao temor do pecado; e o temor do pecado leva à piedade; e a piedade leva ao espírito santo; e o espírito santo leva à ressurreição dos mortos; e a ressurreição dos mortos vem por meio de Eliyahu, lembrado para o bem. Amém.Depois de duas visões de colapso — moral, no lamento de Pinchas ben Yair e de Eliezer, o Grande; escatológico, na profecia dos “calcanhares do messias” —, a mishná encerra o tratado inteiro com o movimento oposto: não uma queda, mas uma ascensão, degrau por degrau, da vida ética cotidiana até o ápice da existência espiritual. A זְרִיזוּת (zerizut, diligência, o cuidado atento e ágil em cumprir cada dever) é o primeiro degrau, o mais acessível e concreto — a disposição de agir sem procrastinar. Dela nasce a נְקִיּוּת (nekiut, limpeza, entendida como cuidado em evitar até mesmo transgressões leves ou aparências de falha). Da limpeza nasce a טָהֳרָה (taharah, pureza ritual e interior). Da pureza, a פְרִישׁוּת (perishut, o afastamento voluntário até mesmo do permitido, quando isso ajuda a preservar a integridade). Do ascetismo, a קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade — um estado de consagração que transcende a mera abstenção). Da santidade, paradoxalmente, não vem o orgulho espiritual, mas a עֲנָוָה (anavah, humildade) — pois quanto mais próxima a pessoa está do sagrado, mais consciente se torna de sua própria pequenez. Da humildade nasce a יִרְאַת חֵטְא (yirat chet, o temor do pecado, entendido pela tradição como um nível mais elevado que o simples medo de punição). Do temor do pecado, a חֲסִידוּת (chassidut, piedade ativa, que vai além do estritamente exigido pela lei). Da piedade, a רוּחַ הַקֹּדֶשׁ (ruach ha-kodesh, o espírito santo — um grau de inspiração profética). E do espírito santo, finalmente, a תְחִיַּת הַמֵּתִים (techiyat ha-metim, a ressurreição dos mortos) — o ápice absoluto de toda a escada, associado à vinda de Eliyahu, o profeta cuja chegada, segundo a tradição, precede e anuncia a redenção final. Com esta bênção — “lembrado para o bem, amém” — encerra-se não apenas a mishná, mas o tratado Sotá inteiro: do caso mais degradante de suspeita conjugal, o percurso ético completo do povo de Israel é traçado até sua esperança mais alta.

רַבִּי פִנְחָס בֶּן יָאִיר אוֹמֵר, זְרִיזוּת מְבִיאָה לִידֵי נְקִיּוּת, וּנְקִיּוּת מְבִיאָה לִידֵי טָהֳרָה, וְטָהֳרָה מְבִיאָה לִידֵי פְרִישׁוּת, וּפְרִישׁוּת מְבִיאָה לִידֵי קְדֻשָּׁה, וּקְדֻשָּׁה מְבִיאָה לִידֵי עֲנָוָה, וַעֲנָוָה מְבִיאָה לִידֵי יִרְאַת חֵטְא, וְיִרְאַת חֵטְא מְבִיאָה לִידֵי חֲסִידוּת, וַחֲסִידוּת מְבִיאָה לִידֵי רוּחַ הַקֹּדֶשׁ, וְרוּחַ הַקֹּדֶשׁ מְבִיאָה לִידֵי תְחִיַּת הַמֵּתִים, וּתְחִיַּת הַמֵּתִים בָּא עַל יְדֵי אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב, אָמֵן

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Michá 7:6
כִּי בֵן מְנַבֵּל אָב, בַּת קָמָה בְאִמָּהּ, כַּלָּה בַּחֲמֹתָהּ, אֹיְבֵי אִישׁ אַנְשֵׁי בֵיתוֹ
“Pois o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os homens de sua própria casa” — citado pela mishná como descrição profética do colapso familiar nos dias que precedem o messias.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica os sábios mencionados e o sentido preciso de expressões-chave da baraita final.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 9:15
מִשֶּׁמֵּת רַבִּי מֵאִיר בָּטְלוּ מוֹשְׁלֵי מְשָׁלִים... שַׁקְדָּנִין שׁוֹקְדִים בִּקְרִיאָה וּבְלִמּוּד, וְעִנְיַן בֶּן עַזַּאי מְבֹאָר... שֶׁלֹּא נָשָׂא אִשָּׁה לְעוֹלָם וְנִשְׁאַל עַל זֹאת הַסִּבָּה, וְאָמַר: אֲנִי בַּתּוֹרָה חָשְׁקָה נַפְשִׁי... וּפֵרוּשׁ קַטְנוּתָן שֶׁל חֲסִידִים כְּלָלָם וְשָׁרְשָׁם, לְפִי שֶׁשֹּׁרֶשׁ הַדָּבָר וְהַתְחָלָתוֹ קָטָן

Rambam identifica “shakdanim” como os que se dedicam com afinco constante à leitura e ao estudo, e recorda a tradição segundo a qual Ben Azai nunca se casou por dedicação total ao estudo, respondendo, quando questionado sobre o motivo, “minha alma anseia pela Torá”. Explica ainda o apelido “Katnutá” dado a Rabi Yosei: não como diminutivo pejorativo, mas como referência ao fato de que toda raiz e início de uma linhagem é, por definição, pequena — Rabi Yosei sendo o último e, nesse sentido, a “raiz final” de uma geração de chassidim que com ele se encerra.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi (Sotá 49a–49b), Rambam e Bartenura sobre a mishná final do tratado Sotá.

Rashi · רש״י
Sotá 49a–49b, sobre a mishná
וּבְנֵי חוֹרִין - מְיֻחָסִין: חָפוּ רֹאשָׁם - שֶׁגָּבְרָה יַד עַזֵּי פָנִים מַמְזֵרִים שֶׁהֵם עֲשִׁירִים, וְאֵלּוּ עֲנִיִּים נִדַּלְדְּלוּ אַנְשֵׁי מַעֲשֶׂה אֵין חָשׁ לָהֶם: וְאֵין דּוֹרֵשׁ - לְיִשְׂרָאֵל: וְאֵין מְבַקֵּשׁ - עֲלֵיהֶם רַחֲמִים: שָׁרוּ חַכִּימַיָּא - הִתְחִילוּ הַחֲכָמִים: סָפְרַיָּא - מְלַמְּדֵי תִּינוֹקוֹת שֶׁהֵם קְטַנִּים מִן הַחֲכָמִים: כְּעַמָּא דְאַרְעָא - כְּעַמֵּי הָאָרֶץ: נִגְנַז סֵפֶר תּוֹרָה - שֶׁהָיָה בַּעַל הֲלָכוֹת מִפִּי שְׁמוּעָה הַרְבֵּה וּסְדוּרוֹת בְּפִיו כְּאִלּוּ כָּתוּב בְּסֵפֶר... זְרוֹעֵי תוֹרָה - עֹמֶק סְבָרָא וְלִסְמֹךְ טַעֲמֵי תוֹרָה שֶׁבְּעַל פֶּה עַל מִדְרְשֵׁי הַמִּקְרָאוֹת

Rashi glosa termo por termo o lamento de Rabi Pinchas ben Yair e de Rabi Eliezer, o Grande: os “bnei chorin” são os homens de linhagem distinta; cobrir a cabeça é sinal de vergonha diante do triunfo de gente sem escrúpulos e sem mérito genuíno, mas rica, enquanto os pobres autenticamente virtuosos definham sem que ninguém se importe; “não há quem busque” refere-se à falta de intercessores por Israel, e “não há quem procure” à falta de quem implore misericórdia por eles. Na cadeia aramaica de Rabi Eliezer, identifica os “safraya” como professores de crianças pequenas, hierarquicamente abaixo dos sábios — o primeiro degrau de uma queda em cascata até o nível do povo comum. E, num comentário evocado pela lembrança de Rabán Yochanan ben Zakai, Rashi descreve com admiração a genialidade retida na memória viva desse sábio: um homem que carregava, de cor, incontáveis leis transmitidas oralmente, como se fossem “um livro escrito” dentro de si — e cuja profundidade de raciocínio (“os braços da Torá”) permitia fundamentar as tradições orais nos próprios versículos bíblicos.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 9:15
מִשֶּׁמֵּת רַבִּי מֵאִיר בָּטְלוּ מוֹשְׁלֵי מְשָׁלִים... וּבִזְמַן רַבָּן גַּמְלִיאֵל הַזָּקֵן הָיוּ בְּנֵי אָדָם לוֹמְדִין הַתּוֹרָה מְעֻמָּד, וְאַחַר מִיתָתוֹ הֶחֱלִישׁוּ גּוּפוֹת הָאֲנָשִׁים וְחָזַר הַלִּמּוּד מְיֻשָּׁב, וְזֶהוּ שֶׁרוֹמֵז אֵלָיו בְּבִטּוּל כְּבוֹד הַתּוֹרָה. וְאָמְנָם אָמַר בְּרַבִּי עֲקִיבָא גַּם כֵּן בָּטַל כְּבוֹד הַתּוֹרָה, רְצוֹנוֹ לוֹמַר רֹב הַחָכְמָה, וְהוּא מַה שֶּׁאָמְרוּ מִשֶּׁמֵּת רַבִּי עֲקִיבָא בָּטְלוּ זְרוֹעֵי הַתּוֹרָה וְנִסְתְּמוּ מַעְיְנוֹת הַחָכְמָה

Rambam observa que a expressão “בָּטַל כְּבוֹד הַתּוֹרָה” (cessou a glória da Torá) aparece duas vezes na mesma lista — a respeito de Rabán Gamliel o Velho e a respeito de Rabi Akiva — mas com sentidos distintos em cada caso: no primeiro, refere-se à mudança física na postura do próprio estudo, de pé para sentado, sinal do enfraquecimento geral dos corpos após sua morte; no segundo, refere-se à perda da própria vastidão da sabedoria, “os braços da Torá”, um esgotamento das fontes vivas do conhecimento que só a genialidade de Rabi Akiva sustentava. Rambam distingue, assim, entre declínio físico-social e declínio intelectual, ambos descritos pela mesma frase em contextos diferentes.

Bartenura · רע״ב
Sotá 9:15
בָּטְלוּ מוֹשְׁלֵי מְשָׁלִים. כְּגוֹן מִמְּשָׁלוֹת שׁוּעָלִים... הַשַּׁקְדָּנִים. שׁוֹקְדִים עַל דַּלְתוֹת בֵּית הַמִּדְרָשׁ לַיְלָה וָיוֹם... בָּטְלוּ אַנְשֵׁי מַעֲשֶׂה. שֶׁעוֹשִׂים מַעֲשִׂים מֻפְלָאִים... מִשֶּׁמֵּת רַבָּן גַּמְלִיאֵל הַזָּקֵן בָּטַל כְּבוֹד הַתּוֹרָה. שֶׁעַד שֶׁמֵּת הוּא הָיָה בְּרִיאוּת בָּעוֹלָם, וְהָיוּ לוֹמְדִים תּוֹרָה מְעֻמָּד, וּמִשֶּׁמֵּת בָּאת תְּשׁוּת כֹּחַ לָעוֹלָם וְהִתְחִילוּ לִלְמֹד מְיֻשָּׁב: מִשֶּׁמֵּת רַבִּי בָּטְלָה עֲנָוָה. תַּלְמִידָיו שֶׁל רַבִּי הוֹסִיפוּ וְכָתְבוּ זֶה בַּמִּשְׁנָה

Bartenura identifica as “fábulas” de Rabi Meir com as célebres “fábulas das raposas” que ele costumava expor, e descreve os “shakdanim” como os que vigiam, literalmente, “às portas da casa de estudo”, noite e dia, sem nunca se ausentar. Explica que os “homens de ação” eram capazes de feitos prodigiosos — como ordenar ao vinagre que ardesse em vez do azeite, num dos milagres atribuídos a essa categoria de sábios. E, sobre a mudança de postura no estudo após a morte de Rabán Gamliel o Velho, e sobre a menção final à própria morte de Rabi — o compilador da Mishná —, Bartenura faz a observação editorial mais reveladora de todo o comentário: essa última linha não foi escrita pelo próprio Rabi, mas acrescentada por seus discípulos, que estenderam a lista até incluir a perda de seu próprio mestre.

Com esta mishná — a escada de Rabi Pinchas ben Yair, da diligência cotidiana até a ressurreição dos mortos — encerra-se o Perek Tet e, com ele, o tratado Sotá em sua totalidade: 67 mishnayot, em 9 perakim, do início ao fim.