Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Tet · Mishná 4 de 15

De onde se media: umbigo, nariz ou pescoço

מֵאַיִן הָיוּ מוֹדְדִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Retomando o tema da medição interrompido na mishná anterior, a mishná pergunta: de qual ponto exato do corpo do morto começa a medida até as cidades vizinhas?

De onde se media? Rabi Eliezer diz: do seu umbigo. Rabi Akiva diz: do seu nariz. Rabi Eliezer ben Yaakov diz: do lugar em que se tornou um cadáver — de seu pescoço.Cada opinião reflete uma teoria diferente sobre onde reside o “centro vital” do corpo humano, questão da qual depende, literalmente, de onde partir a régua da medição. Rabi Eliezer aponta para o umbigo, considerando-o o centro anatômico do corpo, de onde se distribui o alimento a todos os membros. Rabi Akiva aponta para o nariz, apoiando-se na descrição bíblica da vida como “sopro de vida nas narinas”. Rabi Eliezer ben Yaakov propõe um critério textual, não fisiológico: mede-se a partir do pescoço, porque é essa a parte do corpo à qual a Escritura aplica tecnicamente a palavra “chalal” (morto, perfurado) — e é justamente dessa palavra que o próprio versículo deriva o mandamento de medir “até o chalal”. A halachá segue Rabi Akiva.

מֵאַיִן הָיוּ מוֹדְדִין. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מִטִּבּוּרוֹ. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, מֵחָטְמוֹ. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב אוֹמֵר, מִמְּקוֹם שֶׁנַּעֲשֶׂה חָלָל, מִצַּוָּארוֹ

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o fundamento fisiológico de cada uma das duas primeiras opiniões.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 9:4
מֵאַיִן הָיוּ מוֹדְדִין רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר מִטִּבּוּרוֹ כוּ': רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר עִקַּר הַחִיּוּת טִבּוּרוֹ, לְפִי שֶׁהוּא אֶמְצַע הַגּוּף הַכּוֹלֵל כְּלֵי הַמָּזוֹן שֶׁבָּהֶם נִמְשָׁךְ הַמַּאֲכָל. רַבִּי עֲקִיבָא, מְקוֹם שְׁאִיפַת הָרוּחַ הוּא הַצֹּרֶךְ הַגָּדוֹל בַּחִיּוּת, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר כֹּל אֲשֶׁר נִשְׁמַת רוּחַ חַיִּים בְּאַפָּיו. וְהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Rambam explica que Rabi Eliezer localiza a vitalidade no umbigo por ser o centro do corpo, ligado aos órgãos que distribuem o alimento a todos os membros; já Rabi Akiva a localiza no nariz, ponto da respiração, por ser esta a necessidade mais essencial e imediata da vida — apoiando-se no versículo “tudo o que tinha sopro de espírito de vida em suas narinas” (Bereshit 7:22). Rambam fixa a halachá conforme Rabi Akiva: mede-se a partir do nariz.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi (Sotá 45b), Rambam e Bartenura sobre o ponto de partida da medição.

Rashi · רש״י
Sotá 45b, sobre a mishná
עִיקַּר חִיּוּתָא כוּ' - הִלְכָּךְ עִקַּר חָלָל מִיקְרֵי וּמוֹדְדִין מִינֵּיהּ, כִּדְכְתִיב אֶל הֶעָרִים אֲשֶׁר סְבִיבוֹת הֶחָלָל: מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב - דְּאָמַר מִן הַצַּוָּאר הוּא קָרוּי חָלָל, דִּכְתִיב אֶל צַוְּארֵי חַלְלֵי רְשָׁעִים, וְהִלְכָּךְ מִמֶּנּוּ מוֹדְדִין, כִּדְכְתִיב אֶל הֶחָלָל

Rashi liga cada opinião de volta ao texto que fundamenta toda a medição — “até as cidades ao redor do חָלָל” — mostrando que a disputa é, no fundo, sobre onde exatamente começa aquilo que a Torá chama de “חָלָל”. Para Rabi Eliezer ben Yaakov, essa palavra técnica aplica-se especificamente ao pescoço, apoiando-se no versículo de Yechezkel “sobre os pescoços dos mortos [חַלְלֵי] ímpios” — e é dali, portanto, que se deve medir.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 9:4
מֵאַיִן הָיוּ מוֹדְדִין רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר מִטִּבּוּרוֹ כוּ': רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר עִקַּר הַחִיּוּת טִבּוּרוֹ... רַבִּי עֲקִיבָא... שֶׁנֶּאֱמַר כֹּל אֲשֶׁר נִשְׁמַת רוּחַ חַיִּים בְּאַפָּיו. וְהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Rambam resume as três posições como três teorias concorrentes sobre a sede da vitalidade no corpo — o umbigo como centro nutricional, o nariz como sede da respiração, o pescoço como fronteira textual do termo “chalal” — e fixa novamente a halachá conforme Rabi Akiva, encerrando com isso a discussão específica sobre o ponto de partida da medição antes que a mishná retome, na sequência, o procedimento ritual em si.

Bartenura · רע״ב
Sotá 9:4
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר מִטִּבּוּרוֹ. קָסָבַר עִקַּר חַיּוּתָא בְטִבּוּרֵיהּ הוּא: רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר מֵחָטְמוֹ. עִקַּר חַיּוּתָא מֵחָטְמוֹ הוּא, דִּכְתִיב כֹּל אֲשֶׁר נִשְׁמַת רוּחַ חַיִּים בְּאַפָּיו: מִמְּקוֹם שֶׁנַּעֲשֶׂה חָלָל מִצַּוָּארוֹ. דְּאֵין קָרוּי חָלָל אֶלָּא מִן הַצַּוָּאר, כְּדִכְתִיב עַל צַוְּארֵי חַלְלֵי רְשָׁעִים, הִלְכָּךְ מִמֶּנּוּ הָיוּ מוֹדְדִים, כְּדִכְתִיב אֶל הֶחָלָל. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Bartenura resume as três posições numa única frase para cada: o umbigo como sede fisiológica da vitalidade; o nariz como sede da respiração, apoiado no versículo de Bereshit; e o pescoço como fronteira linguística exata do termo “chalal”, apoiado no versículo de Yechezkel. Encerra, como os demais mefarshim, fixando a halachá conforme Rabi Akiva — a medição parte do nariz do morto.