Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Hei · Mishná 8 de 8 (última do tratado)

O turno de Bilgá e o anel fixo

בִּלְגָּה לְעוֹלָם חוֹלֶקֶת בַּדָּרוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do tratado completa a discussão sobre a divisão do pão da proposição entre os turnos, e a encerra com um relato histórico surpreendente sobre a família de Bilgá — cuja lembrança de infidelidade permaneceu registrada, como penalidade, na própria estrutura do Templo.

Se um único dia caía para interromper entre eles, o turno cujo tempo era fixo tomava dez pães, e o detido tomava dois.Quando, por exemplo, o primeiro dia da festa caía numa segunda-feira, obrigando os sacerdotes a chegar já na sexta anterior, apenas um dia separava a troca normal de turnos (que ocorre no Shabat) do início da festa. Nesse caso especial, dos doze pães do lechem hapanim, o turno regularmente escalado tomava dez, e o turno que se atrasara ou permanecera excepcionalmente tomava apenas dois.

E no resto dos dias do ano, o que entra toma seis, e o que sai toma seis. Rabi Yehudá diz: o que entra toma sete, e o que sai toma cinco.Em circunstâncias normais, na troca semanal de turnos em Shabat, os doze pães eram divididos igualmente entre o turno que entrava e o que saía — seis para cada um. Rabi Yehudá, porém, atribui um pouco mais ao turno que entra, como compensação por fechar os portões que o turno anterior havia aberto.

Os que entram dividem ao norte, e os que saem ao sul. Bilgá sempre divide ao sul; e seu anel é fixo, e sua janela é fechada.Por convenção, o turno que iniciava seu serviço dividia sua porção do lado norte do pátio — lado principal, usado para o abate de oferendas de santidade máxima —, enquanto o turno que terminava dividia do lado sul. O turno de Bilgá, porém, foi condenado a dividir sempre do lado sul, mesmo quando entrando em serviço — e, além disso, teve seu anel de abate permanentemente fixado, impedindo seu uso normal, e sua janela de guarda de facas permanentemente fechada.

חָל לִהְיוֹת יוֹם אֶחָד לְהַפְסִיק בֵּינְתַיִם, מִשְׁמָר שֶׁזְּמַנּוֹ קָבוּעַ, הָיָה נוֹטֵל עֶשֶׂר חַלּוֹת, וְהַמִּתְעַכֵּב נוֹטֵל שְׁתָּיִם. וּבִשְׁאָר יְמוֹת הַשָּׁנָה, הַנִּכְנָס נוֹטֵל שֵׁשׁ, וְהַיּוֹצֵא נוֹטֵל שֵׁשׁ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הַנִּכְנָס נוֹטֵל שֶׁבַע, וְהַיּוֹצֵא נוֹטֵל חָמֵשׁ. הַנִּכְנָסִין חוֹלְקִין בַּצָּפוֹן, וְהַיּוֹצְאִין בַּדָּרוֹם. בִּלְגָּה לְעוֹלָם חוֹלֶקֶת בַּדָּרוֹם, וְטַבַּעְתָּהּ קְבוּעָה, וְחַלּוֹנָהּ סְתוּמָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 24:8-9
בְּיוֹם הַשַּׁבָּת יַעַרְכֶנּוּ... וְהָיְתָה לְאַהֲרֹן וּלְבָנָיו וַאֲכָלֻהוּ בְּמָקוֹם קָדֹשׁ, כִּי קֹדֶשׁ קָדָשִׁים הוּא לוֹ מֵאִשֵּׁי ה'.
No dia de Shabat o arranjará... e pertencerá a Aharon e a seus filhos, e o comerão em lugar santo, pois santidade das santidades é para ele, das ofertas ígneas do Senhor.

A troca semanal do pão da proposição, feita precisamente "no dia de Shabat", é a base da divisão entre o turno que entra em serviço e o que sai, descrita nesta mishná. Já o episódio da família de Bilgá — narrado com detalhe pela Guemará (Sucá 56b), sobre uma jovem dessa linhagem que se casou com um oficial grego e insultou o altar durante a conquista helênica — levou os Sábios a aplicar retroativamente, por muitas gerações, uma penalidade física e visível a todo o turno de Bilgá, como lembrança pública e duradoura de que a santidade do serviço no Templo exige lealdade absoluta.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam narra o episódio histórico da família de Bilgá com mais detalhe, explicando por que a penalidade recaiu sobre todo o turno; Bartenura descreve fisicamente o anel de abate e a janela das facas mencionados na mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 5:8
נָשְׂאָה נַעֲרָה אַחַת מֵהֶם לְאֶחָד מִשָּׂרֵי הַיְּוָנִים, וְחָזְרָה לְדָתָם, וְהֵעֵזָּה פָנֶיהָ וְנִכְנְסָה לְבֵית הַמִּקְדָּשׁ וְהִכְּתָה בְסַנְדָּלָהּ עַל הַמִּזְבֵּחַ, וְהָיְתָה מְדַבֶּרֶת וְאוֹמֶרֶת לוֹ בְּלָשׁוֹן יְוָנִי: עַד מָתַי אַתָּה מְכַלֶּה מָמוֹנָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל וְלֹא תוֹשִׁיעֵם בְּעֵת צָרָתָם? וְלָכֵן עָשׂוּ חַכְמֵי אוֹתוֹ הַדּוֹר בְּכָל הַמִּשְׁפָּחָה שֶׁיָּצָא מִמֶּנָּה זוֹ הַתַּרְבּוּת רָעָה, וְקָבְעוּ זֶה לְדוֹרוֹת, מִשּׁוּם "וְהַנִּשְׁאָרִים יִשְׁמְעוּ וְיִירָאוּ".

Casou-se uma jovem entre eles com um dos oficiais gregos, e voltou-se à religião deles, e ousou entrar no Templo e bateu com sua sandália sobre o altar, dizendo em língua grega: "Até quando destruirás o dinheiro de Israel e não os salvarás em sua hora de aflição?" E por isso os Sábios daquela geração aplicaram a toda a família, de onde saiu essa má cultura, esta penalidade, e a fixaram para as gerações seguintes, conforme "e os que restarem ouvirão e temerão" (Devarim 19:20).

Bartenura · Sucá 5:8
וְטַבַּעְתָּהּ קְבוּעָה. עֶשְׂרִים וְאַרְבַּע טַבָּעוֹת הָיוּ בָּעֲזָרָה בִּמְקוֹם הַמִּטְבָּחַיִם, לְעֶשְׂרִים וְאַרְבַּע מִשְׁמְרוֹת כְּהֻנָּה, וְטַבָּעוֹת שֶׁל כָּל הַמִּשְׁמָרוֹת פְּתוּחוֹת צַד אֶחָד, וְהוֹפְכָהּ לְמַעְלָה וּמַכְנִיס צַוַּאר הַבְּהֵמָה לְתוֹכָהּ, וְחוֹזֵר וְהוֹפֵךְ פִּתְחָה לְמַטָּה. וְטַבַּעַת שֶׁל בִּלְגָּה קְבוּעָה וְאֵינָהּ נֶהֱפֶכֶת, וּצְרִיכָה לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בְּשֶׁל אֲחֵרִים, וּגְנַאי הוּא לָהּ. וְחַלּוֹנָהּ סְתוּמָה. חַלּוֹנוֹת הָיוּ בְּלִשְׁכַּת הַחֲלִיפוֹת שֶׁשָּׁם גּוֹנְזִין אֶת סַכִּינֵיהֶם, וְחַלּוֹן שֶׁל מִשְׁמֶרֶת בִּלְגָּה הָיְתָה סְתוּמָה, דִּקְנָסוּהָ רַבָּנָן.

"E seu anel é fixo" — vinte e quatro anéis havia no pátio, no local do abate, para os vinte e quatro turnos sacerdotais; e os anéis de todos os turnos eram abertos de um lado, e o sacerdote o virava para cima, inseria o pescoço do animal e o virava de volta para baixo. O anel de Bilgá, porém, era fixo e não podia ser virado, obrigando-os a usar o anel de outros turnos — uma vergonha para eles. "E sua janela é fechada" — havia janelas na câmara das facas, onde estas eram guardadas; e a janela do turno de Bilgá foi fechada, pois os Sábios os multaram assim.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará, discute o raciocínio por trás da compensação extra atribuída por Rabi Yehudá ao turno que entra em serviço, encerrando com uma máxima popular sobre a prudência de tomar o que já é seu sem adiar.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 56b
בְּשָׂכָר הֲגָפַת דְּלָתוֹת — שֶׁמִּשְׁמָר הַנִּכְנָס מֵגִיף הַדְּלָתוֹת עַרְבִית, שֶׁפָּתַח אוֹתָן מִשְׁמָר הַיּוֹצֵא. בּוֹצִינָא טָבָא מִקְּרָא — מָשָׁל הֶדְיוֹט הוּא: הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, דְּלַעַת קְטַנָּה אֲנִי נוֹתֵן לְךָ בִּמְחֻבָּר, אִם תִּרְצֶה לְתָלְשָׁהּ עַכְשָׁו תְּלוֹשׁ, וְאִם תִּרְצֶה לְהַנִּיחָהּ עַד שֶׁתִּגְדַּל וְתֵעָשֶׂה דְּלַעַת גְּדוֹלָה, הַנִּיחָהּ. וְתִגְדַּל טוֹב לוֹ לִטְּלָהּ מִיָּד, שֶׁמָּא לְאַחַר זְמַן יִתְחָרֵט בּוֹ זֶה אוֹ שֶׁמָּא לֹא יִצְטָרֵךְ זֶה לָזֶה.

"Como recompensa por fechar as portas" — pois o turno que entra fecha as portas à noite, as mesmas que o turno que sai havia aberto. "Melhor uma pequena abóbora agora do que esperar por uma grande" — é um ditado popular: aquele que diz a seu companheiro "esta pequena abóbora eu te dou, ainda ligada à terra — se quiseres colhê-la agora, colhe; se quiseres deixá-la até crescer e tornar-se uma grande abóbora, deixa" — é melhor tomá-la de imediato, pois pode ser que, com o tempo, este se arrependa, ou que aquele já não precise mais dela.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּסֻכָּה
Aqui se conclui Massechet Sucá — o sexto tratado de Seder Moed, dedicado à festividade de Sucot em todas as suas dimensões: a cabana ritual, as quatro espécies, e o serviço extraordinário do Templo durante os sete dias da festa. O Perek Hei, último do tratado, com oito mishnayot, tratou da celebração da Casa do Sháiva — a mais alegre de todas as ocasiões do calendário judaico —, descrevendo o grande reparo estrutural no Pátio das Mulheres para separar homens e mulheres (5:2), as candeias de ouro alimentadas com pavios dos calções gastos dos sacerdotes, cuja luz alcançava toda Jerusalém (5:3), a dança dos piedosos com tochas de fogo e a procissão solene dos levitas pelos quinze degraus, culminando na declaração de fidelidade a D-us no portão oriental, em contraste consciente com a idolatria denunciada pelo profeta Yechezkel (5:4); o detalhamento preciso dos toques de trombeta no Templo, do mínimo de vinte e um ao máximo de quarenta e oito (5:5); a complexa distribuição das oferendas de touros e cordeiros entre os vinte e quatro turnos sacerdotais ao longo dos sete dias (5:6); os três momentos do ano em que todos os turnos tinham direitos iguais (5:7); e, nesta última mishná, a divisão do pão da proposição entre os turnos, encerrada com o relato histórico da família de Bilgá, cuja infidelidade durante a conquista helênica deixou uma marca permanente e visível na própria estrutura do Templo — um anel fixo e uma janela fechada, lembrança viva de que a santidade do serviço sagrado exige lealdade absoluta (5:8).

Massechet Sucá percorreu, ao longo de seus cinco capítulos e cinquenta e três mishnayot, todo o arco da festividade: a estrutura, a altura, o número de paredes e os materiais válidos e inválidos do sechach da sucá (Perek Alef); as isenções e o princípio de residência fixa na sucá (Perek Bet); as quatro espécies — lulav, hadas, aravá e etrog — suas invalidações, medidas, o modo de amarrá-las, os momentos de sua agitação durante o Halel e as leis relacionadas à sua tomada em Shabat (Perek Guimel); o número de dias de vigência de cada preceito da festa e a elaborada cerimônia da libação de água, incluindo o episódio do sacerdote saduceu apedrejado com etrogim (Perek Dalet); e, por fim, este último perek, sobre a celebração da Casa do Sháiva e o serviço dos turnos sacerdotais durante a festa (Perek Hei). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed — Beitzá, Rosh Hashaná, Taanit, Megilá, Moed Katan e Chagigá —, cada um dedicado a uma festividade ou aspecto do calendário sagrado judaico, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim, Shekalim, Yoma e agora Sucá.