Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Bet · Mishná 1 de 7

A corrida pela rampa e o início do pais

בָּרִאשׁוֹנָה כָּל מִי שֶׁרוֹצֶה לִתְרֹם אֶת הַמִּזְבֵּחַ, תּוֹרֵם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrado o perek dedicado à preparação do Cohen Gadol, o segundo perek volta-se para o serviço diário comum, praticado por todos os cohanim, e abre com a retirada das cinzas do altar já mencionada no fim do capítulo anterior — descrevendo como se determinava, na prática, qual cohen teria esse privilégio.

No início, qualquer um que quisesse retirar as cinzas do altar, retirava. E quando eram muitos, corriam e subiam pela rampa, e todo aquele que ultrapassasse seu companheiro em quatro côvados vencia.Originalmente não havia procedimento formal algum: o primeiro cohen a se apresentar simplesmente executava a retirada das cinzas. Quando vários cohanim desejavam o privilégio ao mesmo tempo, competiam correndo pela rampa que subia ao altar, e aquele que conseguisse se adiantar quatro côvados ao seu companheiro mais próximo garantia o direito de realizar o serviço.

E se ambos estivessem empatados, o encarregado lhes dizia: mostrem os dedos. E o que mostravam, um ou dois; mas não mostravam o polegar no Templo.Quando a corrida terminava empatada, o encarregado dos sorteios recorria a um método de contagem por dedos levantados — cada participante mostrando um ou dois dedos, conforme instrução — evitando contar as próprias pessoas diretamente. Uma única restrição se impunha nesse gesto: jamais se levantava o polegar dentro do recinto do Templo, para impedir fraudes na contagem.

בָּרִאשׁוֹנָה כָּל מִי שֶׁרוֹצֶה לִתְרֹם אֶת הַמִּזְבֵּחַ, תּוֹרֵם. וּבִזְמַן שֶׁהֵן מְרֻבִּין, רָצִין וְעוֹלִין בַּכֶּבֶשׁ, וְכָל הַקּוֹדֵם אֶת חֲבֵרוֹ בְאַרְבַּע אַמּוֹת זָכָה. וְאִם הָיוּ שְׁנֵיהֶם שָׁוִין, הַמְמֻנֶּה אוֹמֵר לָהֶם הַצְבִּיעוּ. וּמָה הֵן מוֹצִיאִין, אַחַת אוֹ שְׁתַּיִם, וְאֵין מוֹצִיאִין אֲגֻדָּל בַּמִּקְדָּשׁ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 30:12
כִּי תִשָּׂא אֶת רֹאשׁ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל לִפְקֻדֵיהֶם, וְנָתְנוּ אִישׁ כֹּפֶר נַפְשׁוֹ לַה' בִּפְקֹד אֹתָם, וְלֹא יִהְיֶה בָהֶם נֶגֶף בִּפְקֹד אֹתָם.
Quando levantares a cabeça dos filhos de Israel segundo seus recenseados, dará cada um resgate de sua alma a Hashem quando forem contados, e não haverá entre eles praga quando forem contados.

É por causa desse alerta contra contar diretamente os filhos de Israel — mesmo para fins de mitsvá — que o encarregado do sorteio no Templo jamais contava os cohanim pelo número de pessoas, recorrendo em vez disso à contagem indireta pelos dedos que cada um levantava. A tradição entende que qualquer contagem direta de cabeças, mesmo entre cohanim reunidos para um serviço sagrado, carrega o mesmo risco espiritual descrito neste versículo, e por isso o Templo desenvolveu esse método alternativo, seguro, de sorteio.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, confirma que a proibição de contar pessoas diretamente é a razão de todo o mecanismo do pais descrito nesta mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 2:1
מַעֲשֵׂה הַפַּיִס שֶׁזָּכַר, כְּמוֹ שֶׁאַגִּיד לְךָ, יָדוּעַ כִּי אֵינוֹ מֻתָּר אֶצְלֵנוּ לִמְנוֹת אֲנָשִׁים מִיִּשְׂרָאֵל בְּשׁוּם פָּנִים, וַאֲפִלּוּ לְדַבְר מִצְוָה, וּמַעֲשֵׂה דָּוִד הַמֶּלֶךְ מְפֻרְסָם. אֲבָל מוֹנִין אוֹתָם כְּשֶׁיִּרְצֶה אָדָם לְמָנְתָם שֶׁיִּקְחוּ מִכָּל אֶחָד מֵהֶם דָּבָר, וְאַחַר כָּךְ מוֹנִין אוֹתָם הַדְּבָרִים.

O ato do sorteio que mencionou — como te explicarei — é sabido que não nos é permitido contar pessoas de Israel de forma alguma, mesmo para um assunto de mitsvá, e o episódio do rei David é conhecido. Mas as contam quando alguém quer contá-las tomando de cada uma delas algo, e depois contam esses objetos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha o mecanismo exato da corrida e do sorteio por dedos; Rashi, na Guemará, descreve com mais detalhe ainda o procedimento circular do pais ao introduzir a mishná no fólio.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 2:1
בָּרִאשׁוֹנָה כָּל מִי שֶׁרוֹצֶה לִתְרֹם. כָּל כֹּהֵן שֶׁהוּא מֵאוֹתוֹ בֵּית אָב וְרוֹצֶה לִתְרֹם אֶת הַדֶּשֶׁן שַׁחֲרִית, תּוֹרֵם, וְלֹא הָיָה פַּיִס בַּדָּבָר. רָצִים וְעוֹלִים בַּכֶּבֶשׁ. הַמִּזְבֵּחַ, שֶׁהוּא שְׁלֹשִׁים וּשְׁתַּיִם אַמָּה אֹרֶךְ. וְכָל הַקּוֹדֵם. לִיכָּנֵס לְתוֹךְ אַרְבַּע אַמּוֹת עֶלְיוֹנוֹת שֶׁל כֶּבֶשׁ הַסְּמוּכוֹת לְרֹאשׁ הַמִּזְבֵּחַ, זָכָה לִתְרֹם. וְזֶהוּ גּוֹרָלָם. וְאִם הָיוּ שְׁנֵיהֶם שָׁוִים. בִּכְנִיסָתָם, אֵין אֶחָד מֵהֶם זוֹכֶה לִתְרֹם, אֲבָל מֵעַתָּה כֻּלָּם בָּאִין לְהָטִיל גּוֹרָל. וּמַהוּ הַגּוֹרָל, הַמְּמֻנֶּה עַל הַפְּיָסוֹת אוֹמֵר לְכֻלָּם הַצְבִּיעוּ, כְּלוֹמַר הוֹצִיאוּ אֶצְבְּעוֹתֵיכֶם, כָּל אֶחָד יַרְאֶה אֶצְבָּעוֹ, מִפְּנֵי שֶׁאָסוּר לִמְנוֹת אֲנָשִׁים מִיִּשְׂרָאֵל. אֶחָד אוֹ שְׁנַיִם. אֶצְבַּע אֶחָד אִם הוּא בָּרִיא, אוֹ שְׁנַיִם אִם הוּא חוֹלֶה, שֶׁהַחוֹלֶה אֵינוֹ יָכוֹל לִכְבֹּשׁ אֶצְבְּעוֹתָיו. וְאֵין מוֹצִיאִים אֲגֻדָּל בַּמִּקְדָּשׁ. מִפְּנֵי הָרַמָּאִים.

"No início, qualquer um que quisesse retirar" — todo cohen daquela família de sacerdotes que quisesse retirar as cinzas de manhã, retirava, e não havia sorteio para isso. "Correm e sobem pela rampa" — do altar, que tem trinta e dois côvados de comprimento. "E todo aquele que ultrapassa" — entrando nos quatro últimos côvados da rampa, próximos ao topo do altar, vencia. E esse era seu sorteio.

"E se ambos estivessem empatados" — na entrada, nenhum dos dois vencia, mas então todos vinham lançar sortes. E qual era a sorte? O encarregado dos sorteios dizia a todos: "mostrem os dedos" — isto é, tirem seus dedos, cada um mostrando seu dedo, pois é proibido contar pessoas de Israel. "Um ou dois" — um dedo, se estava saudável, ou dois, se estava doente, pois o doente não consegue conter seus dedos. "E não mostravam o polegar no Templo" — por causa dos trapaceiros.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yoma 22a
מַתְנִי' בָּרִאשׁוֹנָה כָּל מִי שֶׁרוֹצֶה לִתְרֹם. כָּל כֹּהֵן שֶׁהָיָה מֵאוֹתוֹ בֵּית אָב רוֹצֶה לִתְרֹם הַדֶּשֶׁן שַׁחֲרִית תּוֹרֵם, וְלֹא הָיָה פַּיִס לַדָּבָר. הַצְבִּיעוּ. הוֹצִיאוּ אֶצְבְּעוֹתֵיכֶם, כָּל אֶחָד יַרְאֶה אֶצְבָּעוֹ, כִּדְמְפָרֵשׁ לְקַמָּן בְּפִרְקִין: מַקִּיפִין וְעוֹמְדִין בְּעִגּוּלָה, בָּא הַמְּמֻנֶּה וְנוֹטֵל מִצְנֶפֶת מֵעַל רֹאשׁ שֶׁל אֶחָד מֵהֶן, וּמִמֶּנּוּ הַפַּיִס מַתְחִיל לִמָּנוֹת, וּמוֹצִיא כָּל אֶחָד וְאֶחָד אֶצְבָּעוֹ לְמִנְיָן, וְהַמְּמֻנֶּה אוֹמֵר כָּל שֶׁהַמִּנְיָן כָּלֶה בּוֹ הוּא זוֹכֶה, וּמוֹצִיא מִפִּיו מִנְיָן, אוֹ מֵאָה אוֹ שִׁשִּׁים, הַרְבֵּה יוֹתֵר מִשֶּׁהָיוּ שָׁם הַכֹּהֲנִים, וּמַתְחִיל לִמְנוֹת מִזֶּה שֶׁנָּטַל מֵרֹאשׁוֹ הַמִּצְנֶפֶת, וְסוֹבֵב וְהוֹלֵךְ וּמוֹנֶה וְחוֹזֵר חֲלִילָה עַד סוֹף הַמִּנְיָן, וּמִי שֶׁהַמִּנְיָן כָּלֶה בּוֹ הוּא הַזּוֹכֶה.

"Mishná: no início, qualquer um que quisesse retirar" — todo cohen daquela família sacerdotal que quisesse retirar as cinzas de manhã retirava, e não havia sorteio para isso. "Mostrem os dedos" — tirem seus dedos, cada um mostrando seu dedo, como se explica adiante neste perek: cercam e ficam de pé em círculo, vem o encarregado e toma o turbante da cabeça de um deles, e a partir dele o sorteio começa a contar, e cada um mostra seu dedo para a contagem, e o encarregado diz que aquele em quem a contagem terminar é o vencedor, e pronuncia de sua boca um número — cem, ou sessenta, muito mais do que havia cohanim ali — e começa a contar a partir daquele de quem tomou o turbante, e vai girando e contando, repetindo o ciclo até o fim da contagem, e aquele em quem a contagem termina é o vencedor.