Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Alef · Mishná 2 de 4

Abatidos para o nome de um sacrifício mais elevado ou mais baixo

שְׁחָטָן לְשֵׁם גָּבוֹהַּ מֵהֶם כְּשֵׁרִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Yossei ben Choni restringe ainda mais a regra da mishná anterior: mesmo os demais sacrifícios, se abatidos com a intenção específica de oferenda pascal ou de pecado, invalidam-se; e Shimon Achi Azaryá propõe o princípio geral que rege todos esses casos — abatido para o nome de um sacrifício de santidade maior, é válido; para o nome de um de santidade menor, é inválido — exemplificado com sacrifícios de santidade máxima e leve, e com o primogênito e o dízimo do gado.

Yossei ben Choni diz: os abatidos com a intenção de oferenda pascal e com a intenção de oferenda de pecado são inválidos.A primeira mishná ensinara que os sacrifícios comuns permanecem válidos mesmo abatidos sem a intenção correta — exceto quando o próprio sacrifício abatido é a oferenda pascal ou a de pecado. Yossei ben Choni discorda e amplia a regra na direção oposta: mesmo um sacrifício comum — digamos, uma oferenda de paz — torna-se inválido se for abatido com a intenção específica de ser uma oferenda pascal ou de pecado. Ou seja, não é apenas o abate do próprio pêssach ou do próprio chatat fora de sua intenção que causa problema; é também abater qualquer outro sacrifício com a intenção de pêssach ou de chatat que o invalida, por essa intenção "contaminar" o sacrifício com a exigência estrita que rege essas duas categorias.

Shimon Achi Azaryá diz: se os abateu com a intenção de um sacrifício de santidade maior que a deles, são válidos; com a intenção de um de santidade menor que a deles, são inválidos. Como assim? Sacrifícios de santidade máxima que foram abatidos com a intenção de sacrifícios de santidade leve são inválidos; sacrifícios de santidade leve que foram abatidos com a intenção de sacrifícios de santidade máxima são válidos. O primogênito e o dízimo do gado que foram abatidos com a intenção de oferenda de paz são válidos; e a oferenda de paz abatida com a intenção de primogênito ou com a intenção de dízimo é inválida.Shimon, irmão de Azaryá, propõe um princípio geral e simétrico: a intenção "sobe" sem problema, mas não "desce". Um sacrifício de santidade máxima (kodshei kodashim — como a oferenda de pecado ou o holocausto) que foi abatido com a intenção de um sacrifício de santidade mais leve (kodashim kalim — como a oferenda de paz) é inválido, pois se rebaixaria sua santidade. Mas o inverso é permitido: um sacrifício de santidade leve abatido com a intenção de um de santidade máxima permanece válido, pois nenhuma santidade é perdida. Esse mesmo princípio se aplica à escala interna dos sacrifícios de santidade leve: o primogênito (bechor) e o dízimo do gado (maasser behemá), que têm menos exigências rituais, permanecem válidos se abatidos com a intenção de oferenda de paz — que é mais elevada entre os sacrifícios leves, por exigir mais dádivas de sangue, apoio das mãos, libações e a elevação do peito e da coxa. Mas o inverso — uma oferenda de paz abatida com a intenção de primogênito ou de dízimo — é inválido, por ser um rebaixamento de santidade.

יוֹסֵי בֶן חוֹנִי אוֹמֵר, הַנִּשְׁחָטִים לְשֵׁם פֶּסַח וּלְשֵׁם חַטָּאת, פְּסוּלִים. שִׁמְעוֹן אֲחִי עֲזַרְיָה אוֹמֵר, שְׁחָטָן לְשֵׁם גָּבוֹהַּ מֵהֶם, כְּשֵׁרִין. לְשֵׁם נָמוּךְ מֵהֶם, פְּסוּלִים. כֵּיצַד. קָדְשֵׁי קָדָשִׁים שֶׁשְּׁחָטָן לְשֵׁם קָדָשִׁים קַלִּים, פְּסוּלִין. קָדָשִׁים קַלִּים שֶׁשְּׁחָטָן לְשֵׁם קָדְשֵׁי קָדָשִׁים, כְּשֵׁרִין. הַבְּכוֹר וְהַמַּעֲשֵׂר שֶׁשְּׁחָטָן לְשֵׁם שְׁלָמִים, כְּשֵׁרִין. וּשְׁלָמִים שֶׁשְּׁחָטָן לְשֵׁם בְּכוֹר, לְשֵׁם מַעֲשֵׂר, פְּסוּלִין:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O princípio de Shimon Achi Azaryá — que não se rebaixa a santidade de um sacrifício — deriva de um versículo sobre a proibição de profanar as oferendas sagradas de Israel.

Vayikrá 22:15
וְלֹא יְחַלְּלוּ אֶת קָדְשֵׁי בְנֵי יִשְׂרָאֵל, אֵת אֲשֶׁר יָרִימוּ לַה'.
E não profanarão as coisas sagradas dos filhos de Israel, o que eles elevarem ao Eterno.

"E não profanarão" fornece o fundamento textual do princípio de Shimon Achi Azaryá. A Guemará lê o verbo "יָרִימוּ" (elevarem) como referência ao que ainda está por vir — a santidade que um sacrifício de nível inferior recebe quando pensado, no momento do abate, como se fosse de um nível superior: nesse caso, não há profanação, pois a santidade só sobe. Mas o inverso — direcionar a intenção de um sacrifício de santidade máxima para um de santidade leve — é a própria profanação que o versículo proíbe, e por isso o sacrifício se invalida.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 1:2
יוֹסֵי בֶּן חוֹנִי חוֹלֵק עַל תַּ"ק וְאוֹמֵר שֶׁזֶּה שֶׁאָמַר בִּשְׁאָר זְבָחִים שֶׁלֹּא לִשְׁמָן כְּשֵׁרִים עַל מְנָת שֶׁלֹּא יִשְׁחֹט אוֹתָם לְשֵׁם חַטָּאת אוֹ לְשֵׁם פֶּסַח, אֲבָל אִם שָׁחַט עוֹלָה אוֹ שְׁלָמִים לְשֵׁם חַטָּאת אוֹ לְשֵׁם פֶּסַח אוֹתוֹ הַקָּרְבָּן פָּסוּל. וְחוֹלֵק רַבִּי שִׁמְעוֹן אֲחִי עֲזַרְיָה עַל יוֹסֵי בֶּן חוֹנִי וְעַל תַּ"ק וְאָמַר שֶׁשְּׁאָר זְבָחִים אִם שְׁחָטָן לְשֵׁם זֶבַח שֶׁהוּא גָּדוֹל מֵהֶם בִּקְדֻשָּׁה, הֲרֵי זֶה כָּשֵׁר; וְאִם שְׁחָטָן לְשֵׁם זֶבַח שֶׁהוּא פָּחוֹת מֵהֶם בִּקְדֻשָּׁה, הֲרֵי זֶה פָּסוּל. וּמֵבִיא רְאָיָה מִמַּה שֶּׁנֶּאֱמַר וְלֹא יְחַלְּלוּ אֶת קָדְשֵׁי בְנֵי יִשְׂרָאֵל, אֵין מוֹרִידִין אוֹתָן מִקְּדֻשָּׁתָן... וְהִלְכָה כְּתַנָּא קַמָּא.

Rambam explica que Yossei ben Choni discorda do tanna anônimo da primeira mishná: para ele, a regra de que os demais sacrifícios permanecem válidos mesmo abatidos sem a intenção correta só vale desde que não sejam abatidos especificamente com a intenção de oferenda de pecado ou de Pêssach — se um holocausto ou uma oferenda de paz for abatido com essa intenção específica, esse sacrifício se invalida. E Shimon Achi Azaryá discorda tanto de Yossei ben Choni quanto do tanna anônimo, propondo que os demais sacrifícios, se abatidos com a intenção de um sacrifício de santidade maior, são válidos, e se abatidos com a intenção de um de santidade menor, são inválidos — trazendo como prova o versículo "e não profanarão as coisas sagradas dos filhos de Israel": não se rebaixa a santidade. Rambam remete ainda ao capítulo 5 deste tratado, onde se explicará quais sacrifícios são de "santidade leve" e quais de "santidade máxima", e que os primogênitos, o dízimo e a oferenda de paz são todos de santidade leve, mas a oferenda de paz tem uma vantagem adicional por exigir quatro dádivas de sangue, apoio das mãos, libações e a elevação do peito e da coxa, o que não existe no primogênito nem no dízimo. E a lei segue o tanna anônimo (não Yossei ben Choni, nem Shimon Achi Azaryá).

Bartenura · Zevachim 1:2
הַנִּשְׁחָטִים לְשֵׁם פֶּסַח. כָּל שְׁאָר זְבָחִים שֶׁנִּזְבְּחוּ בְּאַרְבָּעָה עָשָׂר בְּנִיסָן לְשֵׁם פֶּסַח, פְּסוּלִים, וְכֵן שֶׁנִּזְבְּחוּ לְשֵׁם חַטָּאת בְּכָל זְמַן, פְּסוּלִים... פְּסוּלִים. דִּכְתִיב וְלֹא יְחַלְּלוּ אֶת קָדְשֵׁי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת אֲשֶׁר יָרִימוּ לַה', בְּמוּרָם מֵהֶם אֵין מִתְחַלְּלִים, בְּנָמוּךְ מֵהֶם מִתְחַלְּלִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי בֶן חוֹנִי, וְלֹא כְשִׁמְעוֹן אֲחִי עֲזַרְיָה. בְּכוֹר וּמַעֲשַׂר בְּהֵמָה. נְמוּכִין מִשְּׁלָמִים, מִפְּנֵי שֶׁהַשְּׁלָמִים טְעוּנִים מַתָּן אַרְבַּע... וְאֵין סְמִיכָה וּנְסָכִים נוֹהֶגֶת בָּהֶן, וְלֹא תְנוּפַת חָזֶה וְשׁוֹק.

Bartenura esclarece que "os abatidos com a intenção de oferenda pascal" refere-se a qualquer outro sacrifício abatido em 14 de Nissan com essa intenção específica, e da mesma forma o abatido com a intenção de oferenda de pecado, em qualquer época — inválidos, "assim como eles próprios são inválidos quando abatidos com a intenção de outro". Isso contradiz o tanna anônimo da mishná anterior, que dissera que todos os sacrifícios abatidos sem a intenção correta são válidos; Yossei ben Choni acrescenta a condição de que não se abata especificamente com a intenção do pêssach ou do chatat. Sobre o princípio de Shimon Achi Azaryá, cita o mesmo versículo — "não profanarão... o que elevarem" — lendo que ao elevar-se a santidade (para um sacrifício maior) não há profanação, mas ao rebaixá-la, há. E explica que o primogênito e o dízimo do gado são de santidade inferior à oferenda de paz porque a oferenda de paz exige quatro dádivas de sangue, apoio das mãos e libações, e a elevação do peito e da coxa — o que não se aplica a eles. Conclui que a lei não segue nem Yossei ben Choni nem Shimon Achi Azaryá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 11a–11b
אמרו דבר אחד — דרבי אליעזר נמי פסיל באחרים הנשחטים לשם פסח בזמנו ולשם חטאת כל ימות השנה, ומברייתא דלקמן דייק לה רבי יוחנן:

ורבה אמר באחרים לשם חטאת פליגי — יוסף בן חוני ורבי אליעזר, ולא פסיל רבי אליעזר אלא באחרים לשם פסח, אבל באחרים לשם חטאת מכשיר:

ולא יחללו את קדשי — אין חילול כשירימו אותם לשם גבוה מהם:

בעי רבי זירא — לשם גבוה מהן כשרים דקתני, כשרין ואין מרצין קאמר כתנא קמא, ולא פליג אלא בנמוך דקאמר פסולים לגמרי:

הא נמי תנינא — שלמים קודמין את הבכור, מפני שהן טעונין מתן ארבע וסמיכה ונסכים ותנופת חזה ושוק:

Rashi acompanha a Guemará numa análise cuidadosa das duas opiniões desta mishná. Sobre Yossei ben Choni, relata que Rabi Yochanan deduz de uma baraita que ele concorda com Rabi Eliezer da mishná anterior — ambos invalidam outros sacrifícios abatidos com a intenção de Pêssach em seu tempo, e com a intenção de oferenda de pecado em qualquer época; já Rabá lê a disputa de modo mais restrito, entendendo que a controvérsia entre Yossei ben Choni e Rabi Eliezer se limita apenas aos sacrifícios abatidos com a intenção de oferenda de pecado, pois quanto à intenção de Pêssach ambos concordariam. Sobre o princípio de Shimon Achi Azaryá, Rashi explica o versículo "e não profanarão": não há profanação quando se eleva a santidade de um sacrifício ao pensá-lo como um de nível superior. A Guemará então debate, através de Rabi Zeira, se a expressão "válidos" da mishná significa plenamente válidos e aptos a cumprir a obrigação do dono, ou apenas válidos mas sem cumpri-la (כשרין ואין מרצין) — concluindo, a partir do caso do primogênito e do dízimo abatidos com a intenção de oferenda de paz, que mesmo "subindo" de santidade o sacrifício não cumpre plenamente a obrigação original, ecoando o mesmo princípio da mishná anterior. Por fim, Rashi confirma que a oferenda de paz precede o primogênito na escala de santidade precisamente por exigir quatro dádivas de sangue, apoio das mãos, libações, e a elevação do peito e da coxa — encargos rituais que o primogênito e o dízimo não têm.