A mishná transfere toda a lógica de precedência estudada até aqui — válida para o momento do sacrifício — para o momento da consumição da carne, e traz um caso-limite onde o critério da frequência e o da santidade entram em conflito direto, com Rabi Meir e os Sábios em lados opostos.
Assim como precedem no seu sacrifício, também precedem na sua consumição. — Toda a hierarquia de precedência estabelecida nas mishnayot anteriores para o momento de oferecer no altar aplica-se igualmente ao momento em que os sacerdotes consomem a carne das ofertas: quem precede no altar precede também na mesa.
Oferenda de paz de ontem à noite e de hoje — a de ontem precede. — Entre duas porções do mesmo tipo de oferenda, a mais antiga é consumida primeiro, simplesmente por razões de urgência — para que não se aproxime demais de seu prazo final de consumo.
Oferenda de paz de ontem à noite e oferenda de pecado ou de culpa de hoje — a oferenda de paz de ontem precede: palavras de Rabi Meir. — Rabi Meir aplica aqui o princípio da frequência e da urgência: mesmo sendo de santidade menor, a carne do shelamim de ontem, mais próxima de seu prazo de invalidação, deve ser consumida antes da chatát ou do asham trazidos hoje.
E os Sábios dizem: a oferenda de pecado precede, porque é santidade suprema; e assim também a oferenda de culpa. — Os Sábios discordam e aplicam aqui o critério da santidade acima do da urgência: mesmo mais recentes, a chatát e o asham, sendo kodshei kodashim, têm precedência sobre o shelamim de santidade leve, ainda que este seja de ontem.
Rambam considera a mishná suficientemente clara por si mesma, e determina que a lei segue os Sábios — ou seja, a oferenda de pecado e a de culpa, ainda que de hoje, precedem a oferenda de paz de ontem na consumição.
Bartenura precisa que a regra de precedência na consumição se aplica a todas as ofertas comestíveis, como a de pecado em relação à de culpa, a de culpa em relação à de agradecimento, e a de agradecimento em relação à de paz. Confirma que a lei segue os Sábios. E observa que, quando o critério da frequência e o da santidade entram em conflito direto — como no sangue da oferenda de subida contínua contra o sangue da oferenda de pecado, ambos prontos, um mais frequente e outro mais sagrado, já que dissemos que o sangue da chatát precede o da olá por expiar — essa questão foi levantada na guemará e não foi resolvida, mas parece que o mais frequente precede.
A guemará cita esta mishná — o caso da oferenda de paz de ontem contra a de pecado ou culpa de hoje — como prova para o dilema entre o princípio do mais frequente e o do mais sagrado. Rashi esclarece o argumento: mesmo que as ofertas adicionais sejam mais sagradas — pois trazem consigo a santidade do Shabat, sendo obrigatórias por causa dele, enquanto as ofertas contínuas se oferecem também em dia comum — essa santidade do Shabat não beneficia as ofertas contínuas simplesmente por serem oferecidas naquele dia; elas continuam sendo, em si, ofertas do cotidiano. Por isso a mishná pôde ensinar que a oferenda de paz de ontem, ainda que de santidade menor, precede a oferenda de pecado ou de culpa de hoje: o critério da frequência, e não apenas o da santidade, também pesa na balança da precedência.