A segunda mishná inicia o tema dos couros dos animais sacrificados, que ocupará o restante do capítulo. O princípio de abertura vincula o direito sacerdotal ao couro à aquisição válida da carne pelo altar — se a oferenda foi desqualificada antes desse ponto, os sacerdotes também perdem o couro — e esclarece dois casos derivados: a oferenda abatida com intenção equivocada, e a equiparação entre a oferenda do homem e a da mulher.
Toda oferenda em que o altar não adquiriu a carne, os sacerdotes não adquiriram o couro, pois está dito: "a oferenda de queima total de um homem" — oferenda de queima total que ascendeu em nome do homem. — A mishná passa ao tema dos couros dos animais sacrificados, que ocupará o restante do capítulo. O princípio de abertura é vinculado: o direito dos sacerdotes ao couro depende de o altar ter adquirido a carne — isto é, de a oferenda ter sido válida a ponto de suas partes serem efetivamente queimadas sobre o altar. Se a oferenda foi desqualificada antes desse ponto, de modo que o altar nunca chegou a "adquirir" a carne, os sacerdotes também não adquirem o couro. A base é a expressão bíblica "oferenda de queima total de um homem", interpretada como referindo-se especificamente à oferenda que efetivamente ascendeu — foi consumida — sobre o altar.
A oferenda de queima total que foi abatida não em seu próprio nome — ainda que não tenha ascendido em nome dos donos — seu couro pertence aos sacerdotes. Tanto a oferenda de queima total do homem quanto a da mulher, seus couros pertencem aos sacerdotes. — A mishná esclarece então um caso intermediário: quando a oferenda foi abatida com intenção voltada para outro tipo de sacrifício — o que a desqualifica para cumprir a obrigação original do dono —, ainda assim ela é queimada validamente sobre o altar. Por isso, embora o dono não tenha cumprido sua obrigação com ela, o couro pertence aos sacerdotes, pois o altar "adquiriu" sua carne normalmente. A mishná fecha esclarecendo que a expressão bíblica "de um homem" não exclui a mulher: tanto a oferenda de queima total oferecida por um homem quanto a oferecida por uma mulher têm seus couros entregues igualmente aos sacerdotes.
Rambam parte do versículo bíblico — "e o sacerdote que oferecer a oferenda de queima total de um homem" — e observa que os Sábios já esclareceram que não há diferença, quanto a essa regra, entre o homem e a mulher. Quanto à expressão "de um homem", explica que ela serve para excluir a oferenda de queima total consagrada ao tesouro do Templo, cujo couro é, ele mesmo, sagrado — caso em que a regra comum não se aplica. Rambam lembra ainda o que já explicou anteriormente: que a oferenda de queima total abatida não em seu próprio nome é válida, ainda que não cumpra a obrigação do dono, precisamente porque o altar adquiriu sua carne — e, por essa mesma razão, os sacerdotes adquirem seu couro. E esclarece, por fim, que a expressão "oferenda que ascendeu em nome do homem" não significa que ela cumpriu a obrigação do dono, mas apenas que ela ascendeu, isto é, foi validamente consumida, sobre o altar.
Bartenura explica que o caso de "o altar não adquiriu a carne" é, tipicamente, quando sobreveio à oferenda uma desqualificação antes da aspersão do sangue, de modo que ela nunca teve um momento de aptidão para o altar; nesse caso, o couro não pertence aos sacerdotes. Já quando o altar adquiriu a carne, o couro pertence aos sacerdotes, precisamente porque a oferenda era válida. Sobre a inclusão da mulher, Bartenura traz a leitura da baraita: a expressão literal "oferenda de queima total de um homem" ensinaria apenas o caso do homem; mas o versículo complementar, "o couro da oferenda de queima total", amplia a regra também às oferendas de mulheres e de escravos. Se assim é, por que então o texto especifica "de um homem"? Para excluir o caso de quem consagra sua própria oferenda de queima total ao tesouro do Templo — hipótese em que o couro é, ele mesmo, sagrado, e não vai aos sacerdotes.
Rashi define com precisão o caso de "o altar não adquiriu a carne": trata-se de uma oferenda em que sobreveio desqualificação antes da aspersão do sangue, de modo que ela nunca teve, para o altar, um momento válido de aptidão. Sobre "seu couro pertence aos sacerdotes", Rashi remete à baraita citada na Guemará, que deriva esse direito por ampliação da leitura do versículo; e observa, do mesmo modo, que a inclusão da oferenda da mulher entre as que têm seu couro entregue aos sacerdotes também decorre de uma ampliação do texto bíblico, não da leitura literal do termo "homem".