Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Dalet · Mishná 2 de 6

O altar interno: quando falta uma aplicação, nada expia

שֶׁאִם חִסַּר אַחַת מִן הַמַּתָּנוֹת, לֹא כִפֵּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de tratar do altar externo, a mishná passa ao altar interno — onde são oferecidas certas oferendas de pecado mais solenes (como as do sumo sacerdote e da congregação) — e estabelece o princípio oposto: ali, cada uma das aplicações prescritas é absolutamente indispensável, e a falta de qualquer uma delas invalida a expiação por inteiro.

Quanto a todas [as oferendas] cujo sangue é dado sobre o altar interno — se faltou uma das aplicações, não expiou.Ao contrário do altar externo (mishná anterior), onde uma única aplicação já basta depois do fato, as oferendas de pecado especiais cujo sangue é aspergido dentro do Santuário — diante do véu e sobre o altar do incenso — exigem, sem exceção, o número pleno de aplicações prescrito pela Torá. Se faltar uma só delas, a expiação simplesmente não se realiza: não se trata aqui de uma exigência ideal, mas de uma condição absoluta.

Por isso, se deu todas em sua forma correta e uma não em sua forma correta, é desqualificada, mas não há nela [sujeição a] excisão.Dessa indispensabilidade decorre uma consequência sobre o pigul: como todas as aplicações, sem exceção, são igualmente necessárias para habilitar a oferenda, nenhuma delas é "supérflua" como a segunda aplicação do altar externo. Por isso, se o sacerdote deu todas as aplicações corretamente, exceto uma — que fez com intenção errada, de fora do tempo ou do lugar —, a oferenda fica desqualificada (pois nunca chegou a ser plenamente habilitada por todas as suas aplicações), mas não se torna pigul pleno com sujeição à excisão: como a habilitação nunca se completou, falta a essa oferenda a condição prévia de ter sido corretamente habilitada antes que a intenção errada a atingisse — condição que o pigul propriamente dito exige.

כָּל הַנִּתָּנִין עַל מִזְבֵּחַ הַפְּנִימִי, שֶׁאִם חִסַּר אַחַת מִן הַמַּתָּנוֹת, לֹא כִפֵּר. לְפִיכָךְ, אִם נָתַן כֻּלָּן כְּתִקְנָן וְאַחַת שֶׁלֹּא כְתִקְנָהּ, פָּסוּל, וְאֵין בּוֹ כָרֵת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 4:2
אָמַר רַחֲמָנָא בְּפַר הַחַטָּאת הַקָּרֵב בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים, וְלִפְנֵי הַכַּפֹּרֶת יַזֶּה שֶׁבַע פְּעָמִים... וּמוֹרֶה שֶׁהַזָּאוֹת שֶׁבִּפְנִים מְעַכְּבוֹת זוֹ אֶת זוֹ, לְפִי שֶׁהַכָּתוּב מְבָאֵר מִסְפָּרָם, וּלְפִי שֶׁכֻּלָּן צְרִיכוֹת לָהֶן, אֵין הַקָּרְבָּן פִּגּוּל עַד שֶׁיַּפְסִיד אֶת הַמַּחֲשָׁבָה בְּכֻלָּן. וְאִם הִפְסִיד הַמַּחֲשָׁבָה בְּמִקְצָת הַמַּתָּנוֹת, וְהוּא מַה שֶּׁאָמַר אַחַת שֶׁלֹּא כְתִקְנָהּ, בֵּין שֶׁאִחֵר אוֹתָהּ אוֹ הִקְדִּימָהּ, הַקָּרְבָּן הַהוּא פָּסוּל, וְהָאוֹכֵל מִמֶּנּוּ אֵינוֹ חַיָּב כָּרֵת.

Rambam funda a regra no versículo sobre o touro da oferenda de pecado do Dia do Perdão, que especifica o número exato de sete aplicações diante do véu — a própria Torá, ao contar precisamente o número de aplicações, indica que todas se condicionam mutuamente. Por serem todas indispensáveis, o pigul pleno só se configura quando a intenção errada atinge todas as aplicações; se atingir apenas parte delas — adiantando-se ou atrasando-se em relação às demais —, a oferenda fica meramente desqualificada, e quem a come não incorre em excisão.

Bartenura · Zevachim 4:2
דִּבְפַר הֶעְלֵם דָּבָר כְּתִיב וְעָשָׂה לַפָּר כַּאֲשֶׁר עָשָׂה לְפַר הַחַטָּאת כֵּן יַעֲשֶׂה לוֹ... אֶלָּא לִכְפֹּל בְּאַזְהָרַת הַזָּאוֹת שֶׁבּוֹ הוּא דְאָתָא... שֶׁאִם חִסַּר אַחַת מִן הַמַּתָּנוֹת לֹא כִפֵּר. לְפִיכָךְ הוֹאִיל וְכֻלָּן מַתִּירוֹת, אֵין זוֹ מַתֶּרֶת בְּלֹא זוֹ וְאֵין זוֹ מְפַגֶּלֶת בְּלֹא זוֹ. אִם נְתָנָן כֻּלָּן כְּתִקְנָן וְאַחַת שֶׁלֹּא כְתִקְנָהּ, פָּסוּל שֶׁלֹּא הֻתַּר בָּרִאשׁוֹנוֹת. וְאֵין בּוֹ כָרֵת, שֶׁאֵין מְפַגְּלִים בַּחֲצִי מַתִּיר.

Bartenura explica que o versículo que compara o touro comunitário ao touro do sumo sacerdote vem justamente para reforçar a exigência das aplicações internas — todas elas se tornam, assim, "habilitadoras" em conjunto: nenhuma sozinha habilita a oferenda, e por isso nenhuma sozinha, se receber intenção errada, torna a oferenda pigul. A oferenda só se torna pigul quando o "habilitador" — isto é, o conjunto pleno de aplicações que de fato habilita — foi corretamente completado sob intenção errada; faltando uma aplicação, nunca houve habilitador completo, e por isso vale o princípio de que "não se peguela em metade de um habilitador".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 36b
שֶׁחִסֵּר אַחַת מִכָּל הַמַּתָּנוֹת לֹא כִפֵּר — כִּדְיָלֵיף בְּבָרַיְתָא בַּגְּמָרָא. לְפִיכָךְ — הוֹאִיל וְכֻלָּן מַתִּירוֹת, אֵין זוֹ מַתֶּרֶת בְּלֹא זוֹ וְאֵין זוֹ מְפַגֶּלֶת בְּלֹא זוֹ, וְאִם נָתַן כֻּלָּן כְּתִקְנָן בִּשְׁתִיקָה וְאַחַת שֶׁלֹּא כְתִקְנָהּ, כְּגוֹן שֶׁנְּתָנָהּ בְּמַחֲשֶׁבֶת חוּץ לִמְקוֹמוֹ אוֹ חוּץ לִזְמַנּוֹ, פָּסוּל, שֶׁלֹּא נִיתַּר בָּרִאשׁוֹנוֹת, וְאֵין בּוֹ כָרֵת, שֶׁאֵין הָאַחֲרוֹנָה מְפַגַּלְתּוֹ, דְּקָסָבַר אֵין מְפַגְּלִין בַּחֲצִי מַתִּיר.

Rashi remete a razão exegética completa para uma baraita desenvolvida na Guemará, e enfatiza o mecanismo central: como todas as aplicações internas atuam juntas como um único habilitador, uma intenção errada isolada numa delas — mesmo que as demais tenham sido feitas em silêncio, sem intenção alguma — não configura pigul, precisamente porque a Guemará estabelece que não se peguela sobre "metade de um habilitador". A oferenda fica apenas desqualificada, porque nunca chegou a ser habilitada por completo.