Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Chet · Mishná 10 de 12

Aplicações de sangue misturadas: uma, ou quatro

הַנִּתָּנִין מַתָּנָה אַחַת שֶׁנִּתְעָרְבוּ בַנִּתָּנִין בְּמַתָּנָה אַחַת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A décima mishná examina misturas segundo o número de aplicações de sangue exigido por cada tipo de sacrifício — uma única aplicação (bekhor, ma'asser, pessach) ou quatro aplicações, tecnicamente feitas como duas, em dois cantos do altar (chatat, olá, asham, shelamim). Os dois primeiros casos são simples; o terceiro, uma mistura entre os dois regimes, gera uma das disputas mais célebres da mishná entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua, com um debate explícito sobre os limites de "não acrescentarás" e "não diminuirás".

Mistura entre regimes iguais se resolve sem disputa; a mistura entre quatro aplicações e uma única aplicação divá Rabi Eliezer (que prioriza não diminuir) e Rabi Yehoshua (que prioriza não acrescentar), num diálogo explícito sobre a natureza ativa ou passiva de cada transgressão.

Os que são dados numa única aplicação, que se misturaram com os que são dados numa única aplicação, serão dados numa única aplicação.Quando dois sangues que exigem apenas uma aplicação cada — como o sangue do bekhor com o do ma'asser — se misturam, a solução é trivial: aplica-se a mistura uma única vez, cumprindo ambas as exigências simultaneamente.

Quatro aplicações com quatro aplicações, serão dados em quatro aplicações.Do mesmo modo, quando ambos os sangues misturados exigem quatro aplicações — como o sangue da chatat com o de outra chatat, ou o da olá com o do shelamim — aplica-se a mistura nas quatro aplicações normais, sem qualquer complicação.

Quatro aplicações com uma aplicação — Rabi Eliezer diz: serão dados em quatro aplicações. Rabi Yehoshua diz: serão dados numa única aplicação.Aqui surge o problema real: um sangue que normalmente exige quatro aplicações se mistura com outro que exige apenas uma. Rabi Eliezer defende manter as quatro aplicações completas, mesmo sabendo que, tecnicamente, uma única aplicação já bastaria retroativamente para o sacrifício de aplicação única. Rabi Yehoshua defende o oposto: aplicar apenas uma vez, já que, mesmo para o sacrifício de quatro aplicações, uma única aplicação cumpre a obrigação retroativamente (bedi'avad).

Disse-lhe Rabi Eliezer: eis que ele transgride "não diminuirás".Rabi Eliezer argumenta que reduzir de quatro para uma aplicação, quando o sangue é originalmente de um sacrifício que exige quatro, viola o mandamento de não subtrair dos preceitos da Torá.

Disse-lhe Rabi Yehoshua: eis que ele transgride "não acrescentarás".Rabi Yehoshua responde na mesma moeda: aplicar quatro vezes, quando o sangue é também de um sacrifício que exige apenas uma, significa acrescentar aplicações desnecessárias ao sangue desse sacrifício — violando "não acrescentarás".

Disse-lhe Rabi Eliezer: não se disse "não acrescentarás" senão quando ele está sozinho.Rabi Eliezer distingue: a proibição de acrescentar só se aplica quando se lida com um sangue isolado, não misturado; numa mistura, aplicar as quatro vezes não constitui um acréscimo real, pois a quarta aplicação também serve, em parte, ao sangue de aplicação única.

Disse-lhe Rabi Yehoshua: não se disse "não diminuirás" senão quando ele está sozinho.Rabi Yehoshua devolve o mesmo argumento: tampouco a proibição de diminuir se aplica a um sangue misturado, já que a única aplicação cumpre retroativamente a obrigação de ambos os tipos misturados.

E ainda disse Rabi Yehoshua: quando aplicaste, transgrediste "não acrescentarás" e fizeste um ato com tuas mãos; e quando não aplicaste, transgrediste "não diminuirás", mas não fizeste um ato com tuas mãos.Rabi Yehoshua conclui com um argumento decisivo sobre a gravidade relativa: quem aplica as quatro vezes comete uma transgressão ativa, um ato positivo em suas mãos; quem se limita a uma única aplicação, ainda que tecnicamente "diminua", apenas deixa de agir — e uma transgressão passiva é sempre mais leve do que uma ativa. A halachá segue Rabi Yehoshua: uma única aplicação.

הַנִּתָּנִין מַתָּנָה אַחַת שֶׁנִּתְעָרְבוּ בַנִּתָּנִין בְּמַתָּנָה אַחַת, יִנָּתְנוּ מַתָּנָה אֶחָת. מַתַּן אַרְבַּע בְּמַתַּן אַרְבַּע, יִנָּתְנוּ בְּמַתַּן אַרְבַּע. מַתַּן אַרְבַּע בְּמַתָּנָה אַחַת, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, יִנָּתְנוּ בְמַתַּן אַרְבַּע. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, יִנָּתְנוּ בְמַתָּנָה אֶחָת. אָמַר לוֹ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, וַהֲרֵי הוּא עוֹבֵר עַל בַּל תִּגְרַע. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, וַהֲרֵי הוּא עוֹבֵר עַל בַּל תּוֹסִיף. אָמַר לוֹ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, לֹא נֶאֱמַר בַּל תּוֹסִיף אֶלָּא כְשֶׁהוּא בְעַצְמוֹ. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, לֹא נֶאֱמַר בַּל תִּגְרַע אֶלָּא כְשֶׁהוּא בְעַצְמוֹ. וְעוֹד אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, כְּשֶׁנָּתַתָּ, עָבַרְתָּ עַל בַּל תּוֹסִיף וְעָשִׂיתָ מַעֲשֶׂה בְיָדֶךָ. וּכְשֶׁלֹּא נָתַתָּ, עָבַרְתָּ עַל בַּל תִּגְרַע וְלֹא עָשִׂיתָ מַעֲשֶׂה בְיָדֶךָ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 8:10
הַנִּתָּנִין מַתָּנָה אַחַת שֶׁנִּתְעָרְבוּ בַּנִּתָּנִין מַתָּנָה אַחַת כוֹ': כְּבָר נִתְבָּאֵר שֶׁהַחַטָּאת לְבַדָּהּ הִיא צְרִיכָה מַתַּן אַרְבַּע, וְהַבְּכוֹר וּמַעֲשֵׂר וּפֶסַח מַתָּנָה אַחַת, וּבָזֶה הוּא הַמַּחֲלֹקֶת בֵּין שְׁנֵיהֶם גַּם כֵּן בְּעִרּוּב מַתַּן אַרְבַּע בְּמַתַּן שְׁתַּיִם אוֹ שְׁתַּיִם בְּמַתַּן אַחַת… וּמַה שֶּׁאָמַר לֹא עָשִׂיתָ בְיָדְךָ, רְצוֹנוֹ שֶׁלֹּא הִשְׁלִים מַתַּן אַרְבַּע, שֶׁהַמְּנִיעָה מִלַּעֲשׂוֹת שׁוּם דָּבָר אֵינוֹ מַעֲשֶׂה.

Rambam nota que, embora a mishná formule o caso como "quatro contra uma", o mesmo tipo de debate se aplicaria a outras combinações — como quatro contra duas, ou duas contra uma — sempre girando em torno de qual lado do princípio "não acrescentarás, não diminuirás" prevalece. Sobre o argumento final de Rabi Yehoshua, esclarece com precisão filosófica: a abstenção de um ato não constitui, em si, um ato — e por isso é halachicamente mais leve do que uma ação positiva executada com as próprias mãos.

Bartenura · Zevachim 8:10
הַנִּתָּנִין בְּמַתָּנָה אַחַת. בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ כְּגוֹן כּוֹס דַּם בְּכוֹר שֶׁנִּתְעָרֵב בְּכוֹס דַּם מַעֲשֵׂר… מַתַּן אַרְבַּע בְּמַתַּן אַרְבַּע. כְּגוֹן דַּם עוֹלָה בְּדַם שְׁלָמִים אוֹ בְּדַם אָשָׁם, שֶׁשְּׁנֵיהֶם טְעוּנִים שְׁתֵּי מַתָּנוֹת שֶׁהֵן אַרְבַּע וּשְׁנֵיהֶם תַּחְתּוֹנִים… רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר יִנָּתְנוּ בְמַתַּן אַרְבַּע. וְרוֹאֶה אֲנִי אֶת מַתְּנוֹת הַיְתֵרוֹת הַנִּתָּנוֹת מִדַּם הַבְּכוֹר כְּאִלּוּ הֵם מַיִם, וְאֵין זֶה בַּל תּוֹסִיף… וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

Bartenura oferece exemplos concretos: os sangues de aplicação única são o bekhor, o ma'asser e o pessach; os sangues de quatro aplicações (tecnicamente duas aplicações em cantos opostos, que contam como quatro) incluem a olá, o shelamim e o asham entre si. Explica que Rabi Eliezer justifica manter as quatro aplicações porque considera as aplicações extras — aquelas que, olhando apenas para o sangue do bekhor, seriam desnecessárias — como se fossem simples água sem efeito, e portanto não configuram um acréscimo real. Conclui explicitamente que a halachá segue Rabi Yehoshua: uma única aplicação.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 80a, sobre a Guemará desta mishná
בְּשַׁלְמָא רַבָּנָן סָבְרֵי יֵשׁ בִּלָּה — כִּדְתְנַן בְּמַתְנִיתִין אִם לֹא נִמְלַךְ וְנָתַן כָּשֵׁר, אַלְמָא סַמְכִינַן אֲבִלָּה, וְאָמַר לַח הַמִּתְעָרֵב בְּלַח מִתְעָרֵב בְּכֻלּוֹ, וְאֵין לְךָ טִפָּה מִזֶּה שֶׁלֹּא יְהֵא בָהּ מֵחֲבֵרוֹ קְצָת.

A Guemará explica o princípio subjacente à disputa toda: quando dois líquidos se misturam completamente (yesh bilá), cada gota resultante contém elementos de ambos os sangues originais, o que permite tratar uma única aplicação como cumprindo ambas as obrigações simultaneamente. Rashi confirma que essa presunção de mistura completa é a base sobre a qual tanto Rabi Eliezer quanto Rabi Yehoshua constroem seus respectivos argumentos sobre acrescentar e diminuir.