Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Chet · Mishná 6 de 12

O sangue misturado com água, vinho ou outro sangue

דָּם שֶׁנִּתְעָרֵב בְּמַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A sexta mishná muda de eixo: do animal e dos membros para o sangue, o elemento central da aspersão no altar. Estabelece o critério geral — a aparência de sangue — para misturas com água, vinho e sangue de animais comuns, e fecha com a posição isolada de Rabi Yehudá, que nega que sangue anule sangue.

O critério da aparência visual governa a validade do sangue misturado com água, vinho ou sangue de animal comum; Rabi Yehudá discorda apenas quanto a sangue misturado com sangue, sustentando que este nunca se anula, seja qual for a aparência.

Sangue que se misturou com água — se há nele aparência de sangue, é válido.Quando água cai sobre o sangue de um sacrifício válido, o critério determinante não é a proporção numérica entre os líquidos, mas a aparência final: se a mistura ainda parece vermelha como sangue, ela continua apta para a aspersão no altar.

Se se misturou com vinho, consideram-no como se fosse água.O vinho tinto, por sua cor próxima ao sangue, poderia confundir o julgamento visual; por isso a halachá determina tratá-lo, para efeitos desse teste, exatamente como água — perguntando-se se o sangue permaneceria visível caso o vinho fosse substituído por água em igual quantidade.

Se se misturou com sangue de animal doméstico ou com sangue de animal selvagem, consideram-no como se fosse água.O mesmo princípio se aplica quando o líquido misturado é sangue comum, não consagrado, de um animal doméstico ou selvagem: mesmo sendo sangue de verdade, ele não tem status próprio de sangue de sacrifício, e por isso a mistura se avalia como se ele fosse simplesmente água.

Rabi Yehudá diz: sangue não anula sangue.Rabi Yehudá discorda apenas do caso anterior: para ele, quando dois sangues da mesma espécie de substância se misturam — sangue com sangue, e não sangue com água ou vinho — o princípio de que "o que é do mesmo tipo não se anula" prevalece sobre qualquer teste de aparência: mesmo que o sangue comum predomine amplamente e torne indistinguível a aparência, o sangue consagrado não se anula e a mistura toda permanece apta para a aspersão. A halachá não segue Rabi Yehudá.

דָּם שֶׁנִּתְעָרֵב בְּמַיִם, אִם יֶשׁ בּוֹ מַרְאֵה דָם, כָּשֵׁר. נִתְעָרֵב בְּיַיִן, רוֹאִין אוֹתוֹ כְאִלּוּ הוּא מָיִם. נִתְעָרֵב בְּדַם בְּהֵמָה אוֹ בְדַם חַיָּה, רוֹאִין אוֹתוֹ כְאִלּוּ הוּא מָיִם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵין דָּם מְבַטֵּל דָּם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 8:6
דָּם שֶׁנִּתְעָרֵב בְּמַיִם אִם יֶשׁ בּוֹ מַרְאֵה דָם כָּשֵׁר כוֹ': וְהוּא שֶׁאִם נָפַל מִן הַיַּיִן אוֹ מִדַּם הַחֻלִּין עַל דַּם הַקָּדָשִׁים וְהוּא דָּבָר מוּעָט, עַד שֶׁאִלּוּ הָיָה מַיִם עוֹמֵד הַדָּם בְּעֵינוֹ אָדֹם, אָז הוּא כָּשֵׁר; וְאִם הָיָה הַרְבֵּה עַד שֶׁאִלּוּ הָיָה מַיִם בָּטֵל מַרְאִית הַדָּם, בָּטֵל בְּמִעוּטוֹ וְאָסוּר לַעֲשׂוֹת מִמֶּנּוּ הַזָּיָה… וְרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אֵין דָּם מְבַטֵּל דָּם, אֶלָּא אֲפִלּוּ נָפַל כְּמוֹ עֶשֶׂר לִיטְרִין דַּם חֻלִּין עַל מִשְׁקַל דַּרְכְּמוֹן אֶחָד מִדַּם קָדָשִׁים, מֻתָּר לְהַזּוֹת מִמֶּנּוּ… וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam esclarece que o teste de aparência se aplica somente quando o líquido estranho é que cai sobre o sangue consagrado, e não o inverso — se o sangue consagrado cai numa grande quantidade de água, aplica-se antes a regra de que cada gota se anula sucessivamente no momento da queda, tornando a mistura imprópria mesmo que ainda pareça vermelha. Sobre Rabi Yehudá, oferece um exemplo extremo para ilustrar sua posição: mesmo dez litras de sangue comum sobre o peso de um único darcônio de sangue consagrado não anulam este último, que permanece apto para a aspersão. Conclui que a halachá não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Zevachim 8:6
אִם יֶשׁ בּוֹ מַרְאֵה דָם כָּשֵׁר. וְהָנֵי מִלֵּי כְּשֶׁנָּפְלוּ הַמַּיִם לְתוֹךְ דָּם שֶׁל קָדָשִׁים, אֲבָל אִם נָפַל דָּם שֶׁל קָדָשִׁים לְתוֹךְ מַיִם, אָמְרִינַן קַמָּא קַמָּא בָּטֵל, וַאֲפִלּוּ יֵשׁ בּוֹ מַרְאֵה דָם פָּסוּל… אֵין דָּם מְבַטֵּל דָּם. דְּמִין בְּמִינוֹ לְרַבִּי יְהוּדָה לֹא בָּטֵל, וַאֲפִלּוּ טִפָּה לְתוֹךְ כְּלִי גָדוֹל, אַף עַל פִּי שֶׁאִלּוּ הָיָה הַדָּם מַיִם אֵין הַדָּם הַכָּשֵׁר נִכָּר בָּהֶם, אֲפִלּוּ הָכִי כָּשֵׁר לִזְרִיקָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Bartenura acrescenta a mesma ressalva de direção: o teste da aparência vale apenas quando a água é despejada sobre o sangue consagrado já presente no vaso; se, ao contrário, é o sangue consagrado que cai gota a gota numa água preexistente, cada gota se anula no instante em que cai, ficando o resultado desqualificado mesmo que a mistura ainda pareça vermelha. Sobre a posição de Rabi Yehudá, explica que ela decorre do princípio geral de que uma substância nunca se anula dentro de outra do mesmo tipo (min bemino) — nem mesmo uma única gota de sangue consagrado dentro de um recipiente enorme de sangue comum, mesmo sem qualquer traço visível, deixa de ser válida para a aspersão.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 78a, sobre a Guemará desta mishná
מַתְנִי' שֶׁנִּתְעָרֵב בְּיַיִן — שֶׁהוּא אָדֹם וְאֵין מַרְאֶה נִכָּר בּוֹ: רוֹאִין אוֹתוֹ יַיִן כְּאִלּוּ הוּא מַיִם — וְאוֹמְדִין, אִם הָיָה דָּם שֶׁנִּתְעָרֵב כָּאן נִכָּר בַּמַּיִם הַלָּלוּ, כָּשֵׁר לִזְרִיקָה: בְּדַם הַבְּהֵמָה — שֶׁל חֻלִּין: רוֹאִין אוֹתוֹ — שֶׁל חֻלִּין כְּאִלּוּ הוּא מַיִם, וְאוֹמְדִין אוֹתוֹ, אִם הָיָה מַרְאֶה הַדָּם הַכָּשֵׁר נִכָּר בָּהֶם, כָּשֵׁר, וְאַף עַל פִּי שֶׁהַדָּם הַפָּסוּל מְרֻבֶּה עָלָיו.

Rashi explica a lógica prática do teste: como o vinho tinto tem cor própria semelhante ao sangue, ele não pode ser avaliado diretamente — é preciso, em pensamento, substituí-lo por água e perguntar se o sangue consagrado ainda seria visível nessa hipótese. O mesmo vale para o sangue de um animal comum: mesmo que ele seja, em quantidade, muito maior do que o sangue consagrado, a mistura permanece válida contanto que, substituindo mentalmente o sangue comum por água, o sangue consagrado ainda seria perceptivelmente vermelho.